Lá fora já há mais carros na estrada, as ruas parecem mais cheias e, se não se prestar muita atenção, quase que pode parecer que estamos a voltar a uma certa normalidade. Muitos ainda estamos por casa, muitos ainda remetemos os dias ao trabalho online e, ainda conseguimos (e quer-se para manter) dar atenção às coisas que nos pintam a vida com outras cores. A música e o discos continuam a ser uma presença habitual e uma banda-sonora para quase todos. As nossas semanas são sempre de música e passamos para esse lado – com ou sem confinamento –  aquela missão boa de descobrir os álbuns melhores de cada conjunto de sete dias.

Os destaques da Tracker Magazine dos últimos sete dias de edições são os discos de The Airborne Toxic Event, Jeff Rosenstock, Jordan Klassen, Katie Von Schleicher, Kidbug, Kooba Tercu, Owen Pallett e WOODS . Como sempre, a escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp – salvo excepções que não estejam na plataforma -, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

 

The Airborne Toxic Event – Hollywood Park (Rounder Records)

Os californianos The Airborne Toxic Event andaram sempre numa espécie de segunda linha daquela vaga de indie rock norte-americano dos inicios dos anos 2K e ainda que nunca tenham atingido o gigantismo mediático dos The Killers, Interpol ou Arcade Fire andaram sempre ombro com ombro com estas bandas em termos de canções de tamanho épico. Uma questão de nunca terem estado no sitío certo à hora certa? Talvez! Ou talvez por estarem muito mais próximos do trabalho dos Glasvegas do que da linhagem que definiu o boom do começo do século, os tenha colocado sempre numa zona sombreada de glória à distância de um dedo que teimou a ir fugindo.

O primeiro disco dos Airborne em cinco anos, é um livro aberto à leitura da vida, sempre do lado trágico da existência, de Mikel Jollett e do pai, um veterano de guerra com todos os elementos que fazem deles personagens de cinema. A religião e o culto onde cresceu, a heroína, a prisão, a vida do lado de cá das grades, a dor… Sempre a dor a dar as melhores canções, e o músico de Los Angeles sabe tanto das duas: Da dor e da arte de contar canções. Hollywood Park devolve uma banda a uma esfera que é perfeitamente sua desenvolvendo-se entre um post-punk galopante em terra batida de folk e pó e a herança de Bruce Springsteen. Bem vindos de volta e que encontrem de vez o vosso lugar no sítio que merecem. – Pedro Miguel Alexandre

 

 

Jeff RosenstockNO DREAM (Polyvinyl Records)

Pouco se consegue aproveitar dos tempos tumultuosos que se espalham um pouco por todo o mundo. Uma dessas coisas é efetivamente a música – e a de Jeff Rosenstock é um murro no estômago completo: tal como em trabalhos antigos, confronta-se algo incerto, sem dúvidas e sem quaisquer filtros ou adornos. NO DREAM veio de surpresa. Mas a grande arte faz-se assim: sem descomunais discursos ao seu redor. Este novo disco é um retrato sincero a um mundo instável e talvez sem salvação que existe fora de quatro paredes. Tal como os IDLES, os Shame, os Preoccupations – e tantos outros contemporâneos –, Jeff vai direto ao assunto com as suas palavras, fazendo com que estas 13 canções serviam como grandes testamentos, pintadas pelos frenéticos e inconstantes riffs de guitarra, pela velocidade de cada percussão e, acima de tudo, pelos vocais abrasados do artista – aqui quase como gritos de guerra.

Entre um punk-rock já imprudente e bem conhecido – feito, quase como à regra, pela composição dos quatro power chords – há ainda saltos entre um emo que introduz o peso existencialista do álbum, um surf-rock feito bem à medida e de modo a libertar tensão, e o power-pop que se prende sem grandes constrangimentos. Um trabalho desta dimensão não se costuma fazer sozinho e Jeff está bem acompanhado: Mike Huguenor, Kevin Higuchi, John DeDomenici, Dan Potthast, a carregar o seu som está a banda do costume, os Death Rosenstock, que o acompanha desde We Cool?. Tudo na margem de um resultado furioso. Tudo entre bons rapazes.


Jordan KlassenTell Me What To Do (Edição de Autor)

Quando tudo cansa, quando a vertigem do dia precisa de um leito, quando a velocidade da vida é demasiada, quando, quando, quando, quando tudo aquilo que cansa e esgota e que é o motor da existência frenética precisam de um travão, existem locais físicos, imaginários, e emocionais onde descansar, onde escorrer toda a exaustão e desespero face à evidência que esta corrida quase sempre é uma corrida para lado nenhum. O canadiano Jordan Klassen reencontra-se para se recontar a si mesmo e para pousar a cabeça em novas capacidades de vivência e de existência. Tell Me What To Do brilha como que através de uma leveza sonora barroca como uma tarde entre chá de tília e canapés junto ao lago onde desfilam barquinhos de certezas que se vão, cisnes brancos em contraluz com a incerteza negra dos dias vão flutuando como se pouco corpo tivessem e pequenos insectos translúcidos de ouro relembram a simplicidade das ligações entre mim e tu, nós e os outros, Jordan e o mundo.

Um disco de uma imensidão de ideias tão bem filigranadas como uma teia de aranha ao sol da meia-vida, que prende primeiro pela leve tranquilidade e depois vai sorvendo para o seu interior os sucos da vida, contando canções de mansinho em tons de pop, folk e uma superior capacidade de escrever para todos os que andam à procura de um sentido único para dentro do mundo e das suas intricadas relações. Se se tiver um cantinho especial para cantautores únicos, Tell Me What To Do de Jordan Klassen, arruma-se numa ordem alfabética entre Andrew Bird, Beirut e Sufjan Stevens. – Pedro Miguel Alexandre

 

Katie Von Schleicher –  Consummation (Full Time Hobby)

Para os ouvidos mais distraídos, os doces vocais de Katie podem ser facilmente confundidos pela voz de Olsen, de Jessica Lea Mayfield, ou até mesmo pela de Jenny Lewis – esta última para quem não está de todo a prestar atenção. Mas há um fator que a distingue já desde 2015, quando editou o primeiro álbum – a sua escrita: assertiva e sempre a pedir mais. Katie pega nos aspetos mais clichês dos seus relacionamentos e em vez de os prolongar, prefere focar-se nos pequenos desentendimentos subentendidos na vida feita a dois com objetivo de lhes dar um novo brilho.

Assim, tal como Katie, Consummation foca-se nas pequenas coisas que marcam grandes momentos: na importância de ganhar uma parva discussão (“Caged Sleep”), no nervosismo em acordar numa cama diferente (“Wheel”), no raio do ar condicionado que nunca funciona nesta divisão da casa (“Nowhere”) – para além de ser um exemplo exímio das composições mais forte da artista até agora, é complementada por arranjos íntegros e produções cavernosas. Pela primeira vez, as guitarras estão claras e na fila da frente, descartando qualquer noção de lo-fi, que, neste caso, as colocavam sempre em segundo plano. Katie não se esconde de nada e soa cada vez mais confiante ao falar dos assuntos mais inócuos, pois sabe que ninguém lhe tira a razão.

KidbugKidbug (Joyful Noise Recordings)

Quando uma série de gente de uma série de bandas se junta para fazer um novo projecto sobra sempre uma incerteza sobre a sua real validade, tantas vezes terminando como um escape ao 9to5 de uma banda com muitos anos de vida, como uma aventura extraconjugal sem reais probabilidades de dar num casamento a longo prazo ou numa relação de poliamor saudável. O caso dos Kidbug pode ser um daqueles (raros) casos com final feliz. Marina Tadic dos Eerie Wanda conheceu Adam Harding dos Dumb Numbers numa festa nos escritórios da Joyful Noise e a empatia e a química foi fulminante. O amor acontece e canções começam a brotar do ar. Em pouco tempo e à distância – ela nos Países Baixos e ele em Los Angeles – tinham um disco completo. O que é que faltava? O resto da banda. Daí vem Bobb Bruno dos Best Coast tomar conta do baixo e a lenda Thor Harris dos Swans sentar-se por trás da bateria. Estava feito um supergrupo que dá agora à luz o primeiro rebento que é logo um super disco.

Com uma admiração profunda pelos My Bloody Valentine, Sonic Youth, Pixies, Nirvana e The Jesus and Mary Chain e obviamente por paredes de guitarras, os pequenos insectos inventam um disco onde usam descaradamente as suas influências. Em vez de se remeterem à clonagem, os Kidbug fazem aquilo que eles mesmos chamam de cuddlebug sludge, juntando os pontos e dando forma a 11 temas de doçuras sujas, roucas e bonitas, caleidoscópicas e ferozes. Um discaço que sem querer querendo, mete no mesmo saco, diferentes cores de fuzz, o do shoegaze, do grunge e do dreampop para desenhar um arco-íris de ruídos. Se vai dar em casamento definitivo ou num poliamor aberto, por nós tanto faz desde que os Kidbug continuem a zumbir assim. – Pedro Miguel Alexandre

Kooba TercuProto Tekno (Rocket Recordings)

Ligando um farol para criar um caminho (in)seguro a quem queira navegar neste tsunami, os Kooba Tercu devem tanto a Pretty Hate Machine dos Nine Inch Nails e aos Cop Shoot Cop como à obra dos Can, à filthness e à fúria do post-harcore dos anos 90 dos Unwound e Girls Against Boys como à bizarra confluência de correntes que eram e são os Melvins. E devem tanto às guitarras como devem à música de dança, mas só que aqui é tudo orgânico e a electricidade vem mesmo das veias e não dos circuitos electrónicos da maquinaria.

Se achas que no rock não há mais por onde ir e todos os caminhos já foram descobertos e mapeados isto não é para ti. Os Kooba – banda de Atenas ramificada até Creta e Londres – até pode nem estar a inovar nada, mas que se comportam muito mal a manter-se numa linha recta de rock e peso, isso é garantido. (E mesmo a questão de não estarem a inovar nada é altamente discutível). Acima de tudo, a ideia aqui é fazer o maior barulho possível (missão cumprida) e, ao mesmo tempo criar uma ambiência avant-garde de underground techno party numa câmara hiperbárica cheia de motosserras, mantras e ambivalência qb (missão mais que cumprida) para descontrolar qualquer certeza que se está perante uma banda de rock experimental… ou num dancefloor tribaltechno… ou noise… ou ritual… ou industrial… ou psicadélico… tudo aqui é altamente anormal. Um sonho molhado de freakness, raiva e rebelião por normas e convenções. Uma das descobertas mais excitantes do ano. – Pedro Miguel Alexandre

Owen Pallett Island (Domino Recording Co.)

Manhã de sexta-feira, dia 22. Sem alarmes, nem surpresas. Em alturas de incertezas e conflitos, Owen Pallet decide mimar-nos com um novo álbum, o primeiro desde In Conflict, há seis anos. Island é um trabalho que existe e respira num universo fantasiado por orquestrações bem limadas e sons luxosos cobertos por um soberbo dramatismo. Portanto, até agora, nada que não tivéssemos ouvido em trabalhos anteriores; no entanto, este novo disco assemelha-se mais facilmente às bandas sonoras de Final Fantasy do que propriamente a Heartland, por exemplo. Trocar as sensibilidades eletroacústicas por um som novamente mais barroco e impressionista fez com que Owen se pudesse sentar e estudar com mais atenção o mundo à sua volta.

A verdade é que Island é um ponto de refúgio, um abrigo que acolhe quando mais se precisa dele. Há, contudo, uma artimanha: com olhar atento, uma ilha não costuma ser retratada de maneira positiva nos filmes; aliás, costuma simbolizar o isolamento, a ilusão, o desespero e todos os outros sentimentos agora mais prevalentes em tempos de confinamento social. Owen prenda-nos com este novo disco com o objetivo de embalar em alturas tão confusas. Mas deixa ao mesmo tempo num estado de alerta. A vida, a seu ver, pode não ser perfeita, mas é tão gratificante. E assim de repente, a normalidade e o ritmo do mundo parecem um pouco melhores. – Miguel Alexandre

WOODSStrange To Explain (Woodsist)

Felizmente, ao décimo disco, o título do novo trabalho dos Woods não expressa a música que nele mora. Strange To Explain é uma fórmula já usual, já conhecida e amada por quem ouve estes rapazes da terra de sua majestade. E ainda bem! Ao brincar com a simplicidade de um indie folk tímido e circunscrito, abre portas para que cada melodia preencha o seu espaço e se deixe estar em tempo devido. Por um lado, parece que a banda nunca desapareceu devido à carregada discografia; por outro, em cada nova música revela-se uma nova camada e, progressivamente, um novo sentimento. Há momentos em que as cordas crescem e, com a voz de Jeremy, fundem-se em uníssono. Depois, há alturas onde a simplicidade reina. No final, a luminosidade que prevalece prende e guia para um ambiente de delicadas névoas psicadélicas e abrangentes abraços vocais em tom encantatório. Tudo sem sobressaltos, sem pressas.

Neste disco cai o peso de suportar mais uma semana fechado em casa: torna-se mais leve e, por momentos, mais fácil porque não temos de o fazer sozinhos. Aliás, tudo soa melhor em família, em comunidade. Não é preciso explicar isso porque o ouvimos. – Miguel Alexandre

 

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