Em plena crise sanitária e identitária um pouco por todo o mundo e numa altura em que somos empurrados para dentro de quatro paredes com o intuito simples de travar a loucura epidémica que anda à solta lá fora, resta-nos muito que fazer. Sem datas para voltarmos à vida como ela era há meros dias, sobra a possibilidade de nos recordarmos dos prazeres simples da solidão: o livro, o filme, o disco, a arte.

Assim sendo, são onze os discos essenciais desta semana, já que parece que tempo será coisa que não nos irá faltar. Esta semana escolhemos os discos de André Henriques dos Linda Martini,  CocoRosie,  glåsbird,  Grouplove, Hilary Woods, Horse Lords, Human Impact, JFDR, Nazar, Porridge Radio e Triple Negative como aqueles que não deves deixar de ouvir. Mais uma vez a escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

André HenriquesCajarana (Sony Music)

Há coisas que te acompanham ao longo de todas as linhas da vida. Memórias, momentos, ideias, pensamentos, pessoas que não estão mas ficam, momentos com pessoas que passaram de repente e ficaram. Há nomes e rostos que ficam, com nome e sem nome, com memória fiel ou infidelidade circunscrita às paginas que já foram. André Henriques, um dos quatros lados do (provavelmente maior) círculo de culto da música portuguesa deste milénio, os Linda Martini, foi em criança Cajarana, alcunha que ficou na pele da alma como memória a abater como tantas as memórias que se guardam de quando ainda se tem de olhar para cima para quase tudo. Cajarana, nome vindo da novela brasileira Pai Herói, acaba por baptizar o disco de estreia do músico e compositor português. Coincidência ou uma das linhas da vida a ser puxadas, Cajarana acaba nas mãos do produtor e músico brasileiro Ricardo Dias Gomes, senhor de canções exploratórias e radicado em Lisboa há alguns anos. Coincidência ou uma das linhas da vida a ser puxadas, Pai Herói foi, sem que nenhuma das partes o soubesse, escrito pela avó de Ricardo. Henriques despe-se dos normais pedais dos Linda num disco que é um disco de histórias na primeira ou na terceira pessoa, de nocturnos lisboetas, de observações de melancolia e urbanismo sentimental agreste e rasgante. Fora do post-peso da sua discografia passada, um mergulho num novo post-peso despido e emocionalmente desafiante. Brilhante e sem catalogação necessária.

CocoRosie – Put the Shine On (Marathon Artists)

Os corvos grasnam, a neblina não cai porque nunca se foi, as crianças desencarnadas prosseguem as suas brincadeiras de meninas cadáver e as caixas de música não param de tocar noite da alma afora. Bianca “Coco” e Sierra “Rosie” Casady esconderam-se dos discos durante cinco anos dentro do seu roupeiro mágico, para trocarem as suas vestes victorianas por… novas vestes victorianas. Desta vez, trazem uns rasgos de florescência cinza e de influências pontuais, mas translúcidas de hip-hop, claro está, de uma forma que os florescentes e o hip-hop se adaptem aos seus rituais de voodoo para bonecas de cerâmica em parques infantis de balouços de ferrugem e sangue seco. A folk continua a ser miscigenada pela genética da americana com as lendas fantasmagóricas dos autores da literatura gótica, a pop respira no pescoço dos que se atrevem a dormir no celeiro de feno e galos madrugadores e, felizmente, as CocoRosie continuam a ser fiéis ao seu imaginário, evoluindo-o na mesma estradinha maravilhosa, de sonho e irreal de sempre.

glåsbird – norskfjǫrðr (Whitelabrecs)

glåsbird é uma viagem exploratória aos recantos gelados da Noruega. Sem necessidade de ter um rosto ou um nome, a criatura viajante por trás deste projecto que arrancou pelas paisagens místicas e selvagens do norte da Europa no ano passado com um par de discos, Grønland e Svalbard – duas localizações especificas do mapa norueguês -, chega agora aos incontornáveis fiordes. O percurso é etéreo, feito de paisagens sonoras ambientais com o objectivo de captar em lentes de som a beleza, a solidão, as vozes silenciosas da natureza. A gravidade da música de glåsbird subsiste muito depois do final do disco, atravessando-se nos conceitos de realidade e desligando os botões certos da mente. norskfjǫrðr não é música: é um painel, uma visão para o horizonte em que o branco, o eco e a capacidade de ouvir o mundo a respirar é mais importante que as melodias frágeis construídas pelo músico misterioso. Para quem ama folk sem corpo, post-rock sem explosões, cinema para as salas de exibição da imaginação.

Grouplove – Healer (Canvasback)

Big Mess, o disco de 2016 dos Grouplove, podia ter sido um ponto final, mas o texto não ficou por ali. Hannah Hooper é diagnosticada com uma mal-formação no cérebro e é atirada para canto, para as camas de hospital, para aquele lugar fatídico onde tens de parar para ver, para absorver, para entender. Entender o que se passa, o que significas para ti e para o que te rodeia, o que é o mundo contigo e sem ti. Quatro anos depois, os Grouplove voltam à carga já com Hooper recuperada e, tanto ela como a banda, como um bloco mais consciente e consistente. O resultado é um disco que dá um passo ligeiramente atrás até ao som dos dois primeiros trabalhos da banda californiana; a resposta é um disco firme e confiante, luminoso e de amplitude pop tão grande como o é poder voltar a ser vivo, a voltar a ser vida. Indie rock com aquela sensibilidade solar que ensopa muitas das bandas de Los Angeles. Simples, bonito e sem mais ambições do que ser simples e bonito… e esperançoso: missão cumprida!

Hilary Woods – Birthmarks (Sacred Bones Records)

Uma procissão de autodescoberta solene e majestosa. A irlandesa Hilary Woods esculpe um trabalho sobre a maternidade, sobre o processo de carregar vida e sobre as fendas que se abrem no corpo e na alma para se encontrar numa nova clareira na existência. As chagas do passado precisam de ser fechadas para que as águas se purifiquem e banhem as margens da nova alma que chega. Woods apresenta-se no seu segundo longa-duração como uma senhora de florestas densas, portadora de natureza que floresce, perfumadora do mundo com aromas de leite e musgo húmido. Birthmarks é um manual iniciático dos segredos da folk mais sombria, paginado por elementos de drone mascarado de ritual de música clássica, uma liturgia etérea e enigmática sobre os segredos do nascimento. Plenamente um dos lançamentos mais assombrosos do ano e que coloca Hilary Woods definitivamente no mesmo patamar divino que Chelsea Wolfe, Susanna e Anna Von Hausswolff.

Horse Lords – The Common Task (Northern Spy Records)

A receita é esta: uma dose de krautrock, mais outra das dissonâncias dos The Fall, pitadas descaradas e à descrição de experimentalismo, instrumentos de sopro infectados por Morphine e um Zorn em dia simpático, frutas e ritmos de origens geograficamente dispares, especiarias do oriente médio, riffs da África Subsariana, post-punk experimentalista que podia bem vir das caves dos escritórios da Constellation e mais o que tiver a jeito. Resumindo e baralhando, os norte-americanos Horse Lords sabem bem mais do que domar cavalos, sabem baralhar tudo e mais alguma coisa e desencantar um disco brilhante, bizarro, com níveis de weirdness a bater muito além do vermelho e com um pé no asfalto e outro nas estradas de terra do mundo mais puro. Barulhinho bom? Não, barulheira melhor!

Human Impact – Human Impact (Ipecac Recordings)

A melhor forma de introduzir os Human Impact é dizer que a banda é constituída por elementos dos Swans, Xiu Xiu, Cop Shoot Cop, Angels of Light e Unsane. Que é o mesmo que dizer que por aqui não se tem meias-medidas e que daqui em diante já se sabe que os que se pode esperar é rock, rock de peso, abrasivo, ilógico, suado. Chris Spencer, Jim Coleman, Chris Pravdica e Phil Puleo assumem uma nova identidade que logo ao disco de estreia decide unilateralmente as novas regras que o noise rock tem daqui em diante. Todos elementos de projectos pioneiros, estes quatro cavaleiros do Apocalipse provam que continuam na vanguarda do pensar a música com guitarras, baterias e baixo, elevando a fasquia para o resto do ano – e arrisca-se a profecia que será bem além dos dias de 2020 -, a um nível estratosférico no que toca à música alternativa mais pesada. Human Impact é rouco e é raiva, é um trabalho de expansão das fronteiras de género, é hard-core sem ser street style, é punk de forma religiosa e obscura, enigmático de forma viciosa. Nova York fora de horas ainda é assim!

JFDR – New Dreams (Krunk)

Jófríður Ákadóttir sonha novamente passados três anos do seu disco de estreia a solo, Brazil. O que em 2017 era minimalismo e experimentação pura de forma a elevar os alicerces da pop de canções delicadas até ao espaço vazio de abóbadas celestes é agora a depuração dos ensinamentos que o passado lhe legou. As canções cresceram de meninas a moças e desfilam firmes e seguras com novos vestidos cozidos elegantemente a electrónica. O sonho ganhou contornos e curvas e sabe-se conhecedor das regras correctas a quebrar. A menina dos Samaris, Pascal Pinon e Gangly encontrou em New Dreams a forma de fazer pop recorrendo a detalhes encontrados na história da soul, da folk, do dreampop e daquele ADN que só mesmo os islandeses parecem ter aprendido a manipular de forma a apenas dar à luz pedras preciosas em forma de canções. Só para situar o caminho que JFDR decidiu caminhar, tornou-se um espírito que facilmente habita tanto o corpo de Elena Tonra, como o de Florence Welch, sem nunca perder os traços do seu próprio rosto.

Nazar – Guerrilla (Hyperdub)

O título não deixa margem para dúvidas. Guerrilla é um disco para dançar em frente de um pelotão de fuzilamento ou de uma manifestação nas ruas. Nazar, produtor angolano sediado em Manchester, edita o seu primeiro álbum alargando as fronteiras do seu país natal à electrónica de combate. Se o kuduro é desde sempre um produto tradicional, rude e bruto das ruas, mas de olhos postos no futuro, Nazar torna-o agora numa arma de arremesso e de experimentação. A música do disco de estreia vai muito mais além do que alguma vez alguém foi na manipulação do género. Se os Buraka Som Sistema inventaram um kuduro progressivo e electro, Nazar coloca-o como um produto de hibridação com a electrónica experimental e o industrial sendo mais nítida a função influenciadora da obra de  Blanck Mass e Oneohtrix Point Never do que das raízes étnicas angolanas e do hip-hop dos ghettos portugueses.

Porridge Radio – Every Bad (Secretly Canadian)

É sintonizar já para não perder o impacto inicial que é encontrar uma banda assim no seu estado mais que imaculado. Os Porridge Radio são de Brighton, mas não ficam por lá muito mais tempo, Every Bad compra-lhes desde os primeiros segundos um bilhete de ida para todo o lado. Pouco ou nada nos ajuda a deixar indícios do que é que são feitas as canções do quarteto britânico liderado pela acutilante, sarcástica e carismática Dana Margolin. Se lhes chamarmos indie rock não chega, se lhes dissermos que assinaram com este disco de estreia o mesmo tratado arquitetónico para a dominação global que foi Funeral dos Arcade Fire também será redundante… e se dissermos que são a sequência lógica dos Big Thief no que toca aos carinhos dos media? Not fair! Os Porridge Radio são artesãos de canções metodicamente rock que vão do rulhar emocional ao grito descarnado, de ritmos marcialmente dançantes ao rebolar no desespero, da imperfeição à impossibilidade de ser mais perfeito do que é. Confiantes e crus, os Porridge Radio contam com o noise que quase nem se nota e com panfletos folk que não querem saber das tradições. Rootsy grunge para punks shoegazers ambulantes e emocionais?! Não, é apenas o nascimento precocemente genial de uma banda com os olhos postos lá em cima, mas a olhar para todo o lado. Depois do disco dos Disq editado na semana passada, aparece este Every Bad para dizer que o indie rock se está a salvar a si mesmo e, oh my bad, não está nem aí para isso.


Triple NegativeGod Bless The Death Drive (Penultimate Press)

God Bless o que quer que seja que os ingleses Triple Negative estão a inventar aqui. Uma coisa é certa: o caos é nosso amigo e amante deles. O segundo álbum da banda baseada em Londres, é uma amalgama de ruído que parece saltar de todo o lado e sem vir de lado algum. Por vezes parecem mantras, por vezes parecem descargas punk, por vezes parece que se ouve algures indícios que estamos num disco de música do mundo e de outras parece que somos atropelados por um tanque de guerra carregado de narcóticos. Objecto único e raro, God Bless The Death Drive desobedece a tudo e a todos apresentando-se como um puzzle psicadélico de sons e coordenadas, um jogo de quem é quem, de quem assombra quem. Bizarro e intrigante, os Triple Negative rescrevem a máxima do menos com menos dá mais… menos com menos com menos dá muito mais mesmo não sendo claro o resultado final. Um disco desconcertante que sai curiosamente em dias de desorientação total no mundo!

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