Na semana passada fomos rasteirados por um vírus e quase todos os títulos prontos para entrar na discografia essencial da semana foram adiados, deixando-nos órfãos de discos e de tempo para escrever sobre outros. Mas, esta semana estamos de volta: a covid-19 não nos bloqueou o trabalho e a colecção de discos e descobertas da semana está de volta… e que volta.

Os destaques Tracker dos últimos sete dias de edições são os discos de Jess Williamson, Josienne Clarke, Kaitlyn Aurelia Smith, Orpine, Perfume Genius, Phillip Sollmann, Scott Matthew, Sharada Shashidhar, Spirit Fest, Tidiane Thiam e os portugueses Papaya. Como sempre, a escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp – salvo excepções que não estejam na plataforma -, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

Jess WilliamsonSorceress (Mexican Summer)

O título do quarto álbum de Jess Williamson ajuda em boa parte a começar a falar sobre ele. Ajuda sem delimitar nem afunilar para aquelas obras em que existe uma neblina mágica, um sombreado inerente e um misticismo adjacente a imaginários populados pelo negro e pelo sobrenatural. Jess só é feiticeira porque entende a linguagem natural e, porque sabe transformar a música tradicional norte-americana em poções de energia suave e curativa… porque nem toda a magia está no metafísico: boa parte dela está em saber tirar da terra aquilo que a alma e o corpo precisa.

Nascida no Texas com tudo o que isso implica no crescimento interno em comunhão com um lado mais terreno da americanidade, Jess destila da medula das suas raízes a base com que vai decorar profundamente as suas canções. Recorrendo a uma modernidade recuperada das décadas de 60 e 70 ao psicadelismo californiano – mudou-se para Los Angeles em 2016 -, alguma muita cinematografia das décadas de ouro de Hollywood e à óbvia influência do country e da americana, Williamson conta sonhos sobre liberdade, sobre a passagem do tempo nas fases da vida, sobre os amores de várias castas, sempre com uma graciosidade e ternura firme e confiante. Sorceress, um salto em frente na discografia de uma das mais interessantes songwriters que os US of A têm produzido com tanta fertilidade, canta a evolução e o crescimento da compositora. Para quem ama Angel Olsen, Lana Del Rey e Shannon Lay. – Por Pedro Miguel Alexandre

Josienne ClarkeHistorical Record vol​.​1&2 (Edição de Autor)

Por vezes cruzamo-nos com discos sem querer – se existir tal coisa como o acaso. Por vezes encontram-se personagens obscuras e tão pouco interessadas em ser algo mais que um veículo de canções que acabam por passar ao lado de grande parte daqueles a quem é exigido descobrir e partilhar música com um público limitado em demasia a algoritmos distantes da necessidade básica de entregar conhecimento. Josienne Clarke é gritantemente um desses casos. Escocesa de berço, foi embalada pelos elementos da sua pátria mãe, encantadora de almas por destino, em boa parte historiadora de folk, em melhor parte um fascinante diamante por polir.

Frágil na serenidade, serena na sua fragilidade, Josienne Clarke tem dois discos em nome próprio, mais sete na companhia de Ben Walker e mais outro par com os PicaPica. Se nada disto faz soar nenhum alarme, não faz mal, mas que se coloque o nome dela de vez no mapa das compositoras a seguir com atenção porque Josi ombreia com todas as maiores, as contemporâneas e as históricas. Por norma, por aqui não se fala em compilações, best of‘s, ou retrospectivas, mas Historical Record vol​.​1&2 escacara uma excepção. Um disco onde se reúnem temas da discografia e da vida toda de Clarke e temas desencarcerados de tudo o que lhes não é inato. São 53 canções, esboços, demos, o que lhe quiserem chamar, mas são acima de tudo comprovativos de uma mestria em maravilhar com uma voz sempre pronta a desfazer-se em cacos de doçura e uma guitarra reduzida ao eco de um quarto mágico onde toda a arte nasce primordialmente. Para quem ama Sandy Denny, Josephine Foster ou Gillian Welch. – Por Pedro Miguel Alexandre

Kaitlyn Aurelia Smith The Mosaic of Transformation (Ghostly International)

Kaitlyn Aurelia Smith parece ter um lugar cativo em qualquer tipo de selecção ou lista que se faça sempre que lança um novo trabalho. Se no ano passado Tides: Music For Yoga – um dos nossos 270 discos de 2019 que devias ter ouvido e não ouviste -, um conjunto de composições montadas para as sessões de Yoga da sua mãe, transcendia-se a si mesmo sendo um exercício de planagem atmosférica com erupções macias de electricidade, ano e pouco depois, The Mosaic Of Transformation revela-se quase como uma distante sequela – apesar de Tides ter sido escrito em 2013, antes de ter editado qualquer outro registo -, desenvolvendo-se para uma contemplação mais física do corpo. Smith descobre um ponto de equilíbrio onde a matéria-prima constituída de electricidade e electrónica se vai moldando de forma motora aos corpos.

Não sendo electrónica para dançar, Mosaic é electrónica para o movimento, não se estranhando que, por exemplo, a espaços, se descubram harmonias digitalmente semi-orientalizadas, trazendo facilmente para a tela da mente projecções de um mestre de tai-chi ou de chi kung. Lento e firme, externo mas interno. Os detalhes gotejam, as texturas naturais são pinceladas de forma concreta no abstracionismo da escrita de Kaitlyn de uma forma tão caracteristicamente Aureliana de fundir o electrónico com elementos quase pastorais e plenamente orgânicos ao ponto de um ser o outro e vice-versa. A norte-americana assina assim mais um triunfo absoluto, ultrapassando-se a si mesma com o seu trabalho mais perto da perfeição impossível em constante mutação. Por Pedro Miguel Alexandre

OrpineGrown Ungrown (Heist or Hit)

Diz a biografia dos Orpine que Eleanor Rudge e Oliver Catt são duas aves migratórias com os seus ninhos em climas e territórios distantes, com quase 500kms a separá-los. Verdade, mas o ninho final onde os Orpine colocam o seu ovo de estreia é feito de proximidade, não de distância. Grown Ungrown é um verão temperado, com dias longos com sol que não queima, mas conforta. Recorrendo à definição técnica de Orpine, a planta à qual Eleanor e Oliver colheram o nome, a música do duo inspira amor. Na antiguidade, a planta originária da Finlândia era usada para prever histórias de amor, e se penduradas duas no telhado de uma casa de dois amantes, saber-se-ia se a relação seria bem sucedida ou não, dependendo da posição em que elas se mantinham, juntas ou separadas. Escusado será dizer que ninguém as queria ver separadas.

Esta relação é mais que bem sucedida. Os Orpine minimizam quase tudo para espalhar as melhores sementes. Um indie pop de sensibilidades rurais serve de toalha para esticarem ao sol junto ao riacho, canções cheias de twee pop com pitadas de Magnetic Fields e Belle & Sebastian, daquele indie rock polinizado por uma certa folkitude como os Frightened Rabbit ou uma lofiness herdada de muitas tardes a ouvir Sparklehorse e Galaxie 500. Uma descoberta com sabor a mel, flores, alfazema e nostalgia. Por Pedro Miguel Alexandre

PapayaSeis / VI (Revolve)

Um muralhão de ruído! Um muralhão de feedback! Um muralhão de som! Os Papaya não andaram a cortar fatias fininhas de nada para servir este Seis/VI numa bandeja de rock bruto e cru. O trio de Bráulio Amado – figura do punk e do hardcore português sediado agora em NYC -, Óscar Silva (Jibóia) e do baterista alternativo por excelência, Ricardo Martins, vai lançando discos como quem não quer a coisa, deixando uma marca muito particular no panorama indie português. Bráulio vem até Portugal de férias, enfiam-se todos num estúdio e a empatia e conhecimento faz o resto. Não é preciso microscópio para analisar o processo evolutivo que está por todo o lado em Seis/VI: as canções deixaram de ser simplesmente algo onde é fácil encontrar referências externas, atingndo um ponto de maturidade que define de uma vez por todas o que é o som de uma Papaya a ser atirada com estrondo.

O único padrão aqui é o volume a bater no vermelho. De resto, a banda atravessa plataformas sonoras como quem devorou uma enciclopédia de música e inventou um processador muito próprio para processar o conhecimento. Um psicadelismo noise monta uma parede para onde o trio vai atirando elementos electrónicos, post e punk, disco, tribais, experimentais e outras que tais, e vai nascendo aos poucos, de forma violenta e agressiva, um manifesto de revolta. As probabilidades de os Papaya terem feito o disco mais poderoso em língua portuguesa de Portugal de 2o2o e um dos documentos mais impressionantes do que é o rock sem arestas definidas dos últimos anos em território luso, é quase indiscutível. Um tijolo de vitaminas sónico-tropicais em cheio na tromba… sim, é precisamente aquilo que isto é! Por Pedro Miguel Alexandre

Perfume Genius – Set My Heart On Fire Immediately (Matador Records)

Um disco de paixão. Paixão pura, simples na sua ampla diversidade. Paixão pura, complexa na aglutinação de tantas referências e na definição de algo sinceramente novo. Mike Hadreas descolou para um ponto de uma estratosfera onde, se antes, era dono e senhor, agora é algo impalpável e omnipresente. Sem sair da sua própria orbita, descobre as formas de se fazer viajar a mesma viagem, a mesma viagem com paisagens sempre distintas entre si.

O quinto e novo disco de Perfume Genius subverte-se a si mesmo e à sua obra, amparando sem cuidados o músico norte-americano numa missão de descolagem e colagem onde peças da sua habitual pop, a de câmara e a art, se encontram com delicadezas shoegaze, folk, funk, country e uma sensibilidade vintage de vanguarda. Por Pedro Miguel Alexandre

 I wrote these songs as a way to be more patient, more considered — to pull at all these chaotic threads hovering around me and weave them in to something warm, thoughtful and comforting. – Mike Hadreas

Phillip SollmannMonophonie (Ostgut Ton)

Será techno acústico? Música clássica para rituais de iniciação a uma vida de pesquisa sobre a mente e alma? Será um disco exploratório e experimentalista? Um exercício de música folk em câmara-ardente? Fúnebre, inquietante, elevatório e transgressor. Phillip Sollman tenta unificar ligações entre vários tipos de música utópica através do uso combinado de instrumentos raros e históricos da pesquisa de campo de Hermann von Helmholtz, médico e cientista alemão do século XIX, com os instrumentos microtonais criados pelo compositor Harry Partch e as esculturas sonoras de metal de Harry Bertoia. Ou seja, sim, estamos presentes a um disco onde a exploração do som e a experimentação são as pedras basilares para um monumento de muito complicada categorização. Tudo o resto cresce depois assente e ciente da descoberta de novos paradigmas, desenvolve-se através da sua própria evolução e, por final, corrompe-se depois de ter estipulado novas regras.

Sollmann pesquisa e encontra novas formas de reduzir a mínimos máximos as camadas de som de cada um dos elementos químicos que as compõem e encontra-se num labirinto que aponta para N direcções, em que todas apontam para o mesmo centro nevrálgico: um minimalismo que encontra peças de uma máquina oleada a música do mundo, jazz, experimentação e electrónica desligada da corrente. Ambicioso, concretizado e um disco que pede ao tempo quanto tempo pode dar para se poder entrar em profundidade nesta atmosfera de respiração paralela. Por Pedro Miguel Alexandre

Scott MatthewADORNED (Glitterhouse Records)

A música de Scott é embirrenta no sentido de nunca ser aquilo que imaginamos. Entre rock, música clássica, eletrónica e folk, dão-se saltos inalcançáveis para muitos artistas; no entanto, Scott fá-lo de uma maneira leve, treinada e experiente, como se a arte de pegar no antigo e tornar em algo novo fosse inerente à sua natureza. Adorned segue este caminho: 11 canções originais de alguma data, mas nas quais o próprio pega novamente, vestindo-as a rigor para as apresentar com arranjos e formatos diferentes.

A tenebrosidade de alguns números tapa-se com camadas pesadas de som: synth-pop e música eletrónica tomam o comando e dão um novo significado a este trabalho, como se a dor e a mágoa que sempre marcaram a sua carreira quisessem ser mais universais, ultrapassando as linhas ténues que dividem géneros. Peguemos em “Abandoned”, originalmente criada para o álbum de estreia de Scott: a orquestração que rapidamente consome o trabalho de uma guitarra acústica tímida é substituída por gigantes paredes de sintetizadores e 808 drum kits. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e este trabalho é uma adaptação camaleónica que faz frente a um mundo assustador lá fora. Por Miguel Alexandre

Sharada ShashidharRahu (LEAVING RECORDS)

Deixas o beat vir de mansinho, sem contrariar a ocupação sensual do espaço corporal interno e dérmico que Rahu te pede sem licença e permites que Sharada Shashidhar se plante naquele plano invisível entre a realidade e a fantasia indutora de um onirismo quente e suado. O disco de estreia de Sharada na Leaving Records, editora norte-americana dedicada a encontrar novas formas e talentos dentro da música afrodescendente ocidental – relembre-se o brilhante disco de Zeroh que acabou por ser um dos 09 discos da semana de 26 de Abril que devias ter ouvido! -, é a perfeição em forma de dreamjazz. Sério! Isto é realmente um EP perfeito! A música escorrega de uma forma leitosa e etérea como cascatas de sedução inocente, tendo de inocente pouco mais do que a voz de Shashidhar e pingentes que brilham aqui e ali, abrindo portais de luz para uma dimensão muito própria onde a songwriter de Brooklyn entra e sai conforme acredita que é necessário deixar um pequeno encantamento.

Escrito ao longo de quatro anos numa constante troca de gravações e ideias entre Sharada e o produtor e músico da Stones Throw Records, Jamael Dean, Rahu distingue-se pelo cariz muitas vezes contemplativo e metafísico, coisa menos comum na soul e no jazz. As raízes hindus da norte-americana facilitam esta travessia para uma realidade menos concreta e urbana, sendo-o sempre e não facilitando em nada nas zonas mais experimentais da música urbana. Com que facilidade e naturalidade se brinca com elementos de glitch, de neo-soul, de dreampop e de jazz de forma a encontrar uma esfera de realidade de som tão fresca e nova? Com a facilidade de um génio que se começa aqui a sair da lâmpada sem levantar qualquer dúvida. Para quem ama Erykah Badu, Cocteau Twins, Angel Bat Dawid e Massive Attack? Sim, é isso tudo! Por Pedro Miguel Alexandre

Spirit FestMirage Mirage (Morr Music)

William Carlos Williams disse que “o princípio da música é repetir o tema. Repetir e repetir novamente conforme o ritmo aumente”. Pois, a implementação desta técnica na música atual é firme e bem larga. Os Spirit Fest usam-na, mas aplicam-na de uma maneira tão inócua que não nos apercebemos quando efetivamente tal implementação está feita: Mirage Mirage é uma repetição de temas passados, de espiritualidades e de personalidades mas, ao mesmo tempo, ajuda a cimentar a mescla tão única da banda. Entre texturas indie-eletrónicas e abordagens folk psicadélicas, há uma ponte feita entre os anos 60, passando ao mesmo tempo pelas modernidades de bandas como Notwist, Tenniscoats, ou até mesmo Beth Orton. O álbum tem mais de uma hora, mas tal barreira não tira – nem deve – qualquer gosto quando se ouve. Aliás, se a procura por um álbum para ouvir pós-quarentena continua, então Mirage Mirage é feito para um dia soalheiro, calmo e sem ter a questão existencial de lavar constantemente as mãos. Fica o conselho. Por Miguel Alexandre

Tidiane ThiamSiftorde (Sahel Sounds)

A longa e rica tapeçaria da música tradicional africana é há anos uma fonte de inspiração para muitos artistas deste lado do hemisfério: desde David Byrne, a Paul Simon, passando ao mesmo tempo, pelo metal dos Oranssi Pazuzu e pelo rock alternativo dos Blur. Nas pequenas províncias de Podor, situada a norte do Senegal, quase a ultrapassar a fronteira com a Mauritânia, tal cultura é ainda hoje vivamente celebrada. Por estes moldes, Tidiane Thiam serve assim como uma próxima fonte de inspiração: autodidata, aprendeu a tocar guitarra através de emissões de rádio, e anos depois apresenta neste álbum de estreia uma coletânea de 10 originais composta por dedilhado, sincopação e sons que advêm das primeiras manifestações musicais africanas, existentes desde o tempo do Império Maliano, no século XIII.
“Siftorde” é uma adaptação da palavra “lembrar” em português, algo fácil de executar pelo músico, pois cada canção neste disco prende-se de uma maneira simples e fica facilmente connosco: cada momento é despido de qualquer adorno ou arranjo, dando espaço para que o estilo particular de Thiam brilhe a cada acorde. E o resultado final é este: um trabalho sereno, informal, vivido e sazonado – 33 minutos de composições em guitarra que se distinguem suficientemente para captar a atenção dos mais distraídos. Tidiane Thiam é um mestre em agarrar o que há de mais escondido à sua volta e a encapsulá-lo de forma a que cada detalhe não seja desperdiçado, quer para quem ouve como para quem o executa. Por Miguel Alexandre

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