O tempo é aquilo que fazemos dele e hoje, o tempo é aquilo que mais nos sobra. Voltemos a ouvir discos com tempo, ouvido e alma, entendendo as obras enquanto um todo com sentido, princípio e fim, como um meio de conhecimento e comunicação. Em tempos de doença e enclausuramento forçado, encaramos isto como uma benesse para o reencontro.

São onze os discos essenciais desta semana, tal como na selecção anterior de 15 de Março. Desta vez, escolhemos os discos de Beatriz Ferreyra, Cícero, Eye Flys, Georgia Ruth, Helen Money, Ian William Craig, Irreversible Entanglements, James Righton dos Klaxons, Modern Rituals, Roger Eno and Brian Eno e The Slow Readers Club como aqueles que não devem deixar de ouvir. A escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

Beatriz FerreyraEchos + (Room40)

Passar pela música de Beatriz Ferreyra é algo semelhante a uma peregrinação. Uma peregrinação por escombros sagrados de monumentos arquitectónicos sonoros, uma romaria sagrada entre pedaços de relíquias e fragmentos encontrados que se tinham perdido no tempo e no espaço. A compositora argentina de 83 anos – isso, leram bem -, faz em Echos + uma viragem na seta da sua bússola de escrita, transitando da habitual manipulação de som em fita para uma nova forma de montar estes puzzles de forma digital. Mais um marco da música experimental e concreta, pela mão de uma lenda viva das formas bizarras de moldar música e sons. Três temas profundamente ligados à morte e, consequentemente, três temas que são de uma aproximação pessoal arrepiante. Espectral, saturado e, efectivamente, um eco além vida que acaba a reverberar muito depois do disco terminar.

CíceroCosmo (Edição de Autor)

A forma e a capacidade de cantar a vida de todos e do mundo é, desde os primeiros momentos, um dom especial de Cícero Rosa Lins. Mais uma vez, o músico carioca senta e observa de mansinho e sem piedade a forma como os dias se encadeiam e articulam uns nos outros. Cosmo é uma antítese do disco anterior, Cícero & Albatroz, e foca-se na relação com as cidades sendo uma pesquisa sobre o tempo, o espaço e a forma como cada um se relaciona com a sua verdade individual sobre eles. Plácido, mas não sereno, Cosmo canta um Cícero a desenrolar uma muito especial e particular forma de desenvolvimento do seu cancioneiro. Disco a disco, fase a fase, camada a camada, a música de Lins vai crescendo dentro de si mesma, acrescentando-se a si mesma e construindo-se a si mesma. Uma história que se vai contando e vivendo e deixando as categorizações para outras ocasiões. É excelência falada com acento brasileiro.

Eye FlysTub of Lard (Thrill Jockey Records)

Esta é uma estação de paragem obrigatória para os passageiros vindos do lado mais pesado do condado. Os Eye Flys têm em Tub Of Lard um disco de estreia que não é claramente obra de quem chegou aqui só agora. A banda, com elementos dos Full Of Hell e dos Backslider, monta um disco devastador de guitarras noise, metal e experimentação, herdeiro tanto do hardcore dos Helmet, do (insert the best option here) dos Melvins, o crossover dos Fudge Tunnel, o psicadelismo grunge dos Alice In Chains e Stone Temple Pilots mas também do metal quase-puro e violentamente duro dos Mastodon e dos Cult Of Luna. Dispensando as comparações, os Eye Flys assinam aqui um manual sujo de riffs grossos para ser lido em plena guerra à conformidade e à mesmice. Pessoal, impessoal, íntimo no íntimo possível num disco de noise-rock, político e social como as franjas de peso devem ser. Está aberto o möshpit.

Georgia RuthMai (Bubblewrap Collective)

Simplesmente um disco de folk… docinho, fofinho e cheio de luz. Tão essencial nos dias que se desenrolam hoje lá fora e na necessidade de conforto e carinho. A Primavera já anda pelo mundo e Mai da galesa Georgia Ruth é um disco de homenagem ao mês cinco do calendário com tudo o que é fácil de puxar desse imaginário. Escrito durante a gravidez de Ruth – maio é o mês da deusa romana da fertilidade Bona Dea -, Mai floresce em cores garridas, em finais de tarde a cor sépia, como um ritual de amor. Suave e bonito, sem querer ser mais do que aquilo que é: um momento de pausa para respirar fundo e acreditar que tudo são ciclos de renascença… entre os dedilhares de uma guitarra acústica, entre a magia das cordas de uma harpa e arranjos florais pop. E que bem que as galesas sabem fazer pop.

Helen MoneyAtomic (Thrill Jockey Records)

Música para violoncelo e um céu virgem de luz artificial. Alison Chesley é Helen Money quando se senta por trás do instrumento e dos processadores de efeitos. Em Atomic, o mais recente disco da performer californiana, contempla-se uma visão maior que a vida desenhada na abóbada celeste em tons de cinza e ar rarefeito. Canvas despido para receber a música ressonante além das esferas comuns que caminha feroz e crua em descargas de ruído. Um ponto de desencontro profundo entre o terreno e o celeste que não se acomodando a títulos como post-rock ou clássico contemporâneo ascende a uma verdade absoluta cinematográfica para ser um objecto de contemplação e pensamento impressionante. Helen Money entrega um trabalho introspectivo, escrito após a morte de seus pais, carregado de reflexões mais amplas sobre o sentido da vida. Olhar para dentro para depois poder olhar novamente o céu virgem de luz artificial. Um dos discos mais imponente do ano.

Para quem ama Godspeed You! Black Emperor, Rachel Grimes, A Winged Victory For The Sullen e Hildur Guðnadóttir.

Ian William Craig – Red Sun Through Smoke (Fatcat Records)

A tristeza e o amor segundo os manuais da electrónica, do ambiental, da pop de câmara e da delicadeza enquanto ponto de exclamação escrito no final de um pauta. Ian William Craig grava Red Sun Through Smoke em duas semanas de apocalipse quando arrasadores incêndios florestais queimam tudo à sua passagem na British Columbia, levando ao falecimento do seu avó. É no turbilhão da vida a acontecer e rodeado de catástrofes que Ian se apaixona… para se saber correspondido na véspera de ela apanhar um avião e mudar-se para Paris durante quatro meses. Red Sun Through Smoke é um disco de canções de amor e de morte, de confusão e certezas. William Craig escreve um disco de dias reais, com tudo a acontecer e transfere-se para o papel de narrador – muitas vezes quase operático -, na primeira pessoa. De alma em riste, com os fantasmas a fazerem-se ouvir no arranhar do vibração e do silêncio, Red Sun Through Smoke é um disco para as altas horas da madrugada.

Para quem ama Son Lux, Julianna Barwick, Douglas Dare e Forest Swords

Irreversible EntanglementsWho Sent You? (International Anthem)

Por vezes torna-se mais simples usar as palavras de outros. Este caso é um deles. A editora International Anthem diz que Who Sent You? é a punk-rockizição do jazz e a mistificação do avant-garde. Ok we buy that! Os Irreversible Entanglements colocam a questão de quem é que nos enviou e a resposta está escondida numa trip de afrofuturismo e de jazz espiritual alimentada por visões alucinatórias. Os sopros rendilham-se uns nos outros, a bateria tribaliza e não se esquece de ser irreal mas clássica como se Gene Krupa tivesse incorporado novamente. As palavra questionam, elevam, sugerem, explicam, são encantamentos e profecias. Se os Irreversible Entanglements conseguem saber o (afro)futuro ou não, só eles mesmo podem confirmar. Da nossa parte, confirma-se que Who Sent You? é uma obra maior inescapável. Podes fugir mas não te podes esconder deste álbum… Seja hoje ou nas listas de final de ano.

James RightonThe Performer (DEEWEE / [PIAS])

Saudades dos Klaxons? Vais continuar a ter! James Righton edita o seu álbum de estreia a solo, afastando-se quase na totalidade da sonoridade disco-punk sci-fi psych da sua anterior banda. The Performer alimenta-se de disco, sim, mas os tempos de loucura punk em busca de civilizações além da interzone não são para aqui chamados. Righton passou a ser um senhor crooner de cocktail na mão e um dedinho para canções perfeitas para serem ouvidas num cruzeiro pelo triângulo das bermudas. Sim, ainda ficou por cá alguma da estranheza que habitava os Klaxons, só que em The Performer, os aliens são terrestes. Chamam-se Roxy Music, David Bowie, Beach Boys, Flaming Lips – uhm os Lips são terrestres? -, e preferem as areias douradas de Malibu ao entardecer do que o pó cósmico e mitológico de Atlantis. Uma estreia segura e que vai mesmo, mesmo bem com The Slow Rush dos Tame Impala.

Modern Rituals – This Is The History (Holy Roar Records)

Rock de pulso, sonho e grito. Os Modern Rituals são de Bristol e são uma máquina de fazer som. Músicas de proporções gigantescas que tanto andam pelo lado mais agressivo do post-rock, pelo lado bruto do post-hardcore, do lado mais sereno do screamo e precisamente no lado certo do noise-rock. Fazer barulho é bom e é preciso e os Modern Rituals são precisos no apontar das guitarras ao alvos certos. Som sujo e poderoso, desconjuntado por vezes, matemático outras tantas vezes, violento e ensurdecedor. This Is The History faz tremer as barricadas dos sons da moda e rebenta com toda a facilidade as teorias do estado catatónico do rock.

Para quem ama Jesus Lizard, Melvins, Pixies e Japandroids.

Roger Eno and Brian Eno – Mixing Colours (Deutsche Grammophon)

Há coisas que correm no sangue. No dos irmãos Eno, Roger e Brian, corre uma capacidade transcendente e maravilhosa de criar ambientes. Quase parece mentira mas Mixing Colours é o primeiro disco efectivo dos dois irmãos depois de colaborações esporádicas, última das quais na reedição de Apollo: Atmospheres & Soundtracks de Brian Eno. Mixing Colours demorou quinze anos a ser feito, num pára e arranca com outros projectos pelo meio, manifestando-se essa viagem de forma translúcida como os temas vão crescendo em si mesmo. Um fogo que se vai alimentando, uma criação divina que se vai tocando com mão de génio sem pressas e esperando que a nota certa encontre o seu espaço certo no momento correcto de forma a transcender-se. Para ouvir no vácuo do espaço, na calma da noite, num mergulho incorpóreo em águas sintéticas e purificadoras.

The Slow Readers ClubThe Joy Of The Return (Modern Sky)

Poderiam os The Slow Readers Club ser de outro sítio além de Manchester? Podiam, mas não ia ser a mesma coisa. Indie pop com os propulsores conectados ao coração e com o mapa das estrelas em modo automático até serem uma das maiores novas bandas da cidade e do Reino Unido. O quarteto mancuniano já cá anda há algum tempo e  The Joy Of The Return é já o quarto longa-duração de uma história com cerca de 11 anos. Desta vez, a banda acerta em cheio na fórmula e monta um disco com potenciais 11 singles. Um por cada ano de vida dos Slow Readers? Não, um por cada ano de sucesso que se vislumbra daqui em diante. Post-punk para dançar, indie rock para reflectir, canções de ecos da new wave da década de 80 lidos lentamente e com sabedoria.

Um trabalho febril, de consistência inabalável para quem ama os White Lies, The Twilight Sad, Maxïmo Park, The Smiths e Interpol.