A noite caía e a expectativa era grande: há quem esperasse por este concerto há mais de 17 anos. Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodríguez-López pisaram o solo minhoto em 2008, com os The Mars Volta, mas nunca tinham actuado em Portugal enquanto At The Drive-In. Embora os The Mars Volta tiveram sucesso enquanto banda em nome próprio, e dado um concerto memorável naquela edição do festival, muitos dos fãs da dupla não esquecem que esta banda nasceu das cinzas dos At The Drive-In. Formados em 1994, o quinteto texano editava novos álbuns a cada dois anos – este processo começou em 1996 com Acrobatic Tenement, seguindo-se In/Casino/Out em 1998 até atingir o topo, furando mesmo para o mainstream com o lançamento de Relationship of Command, em 2000. E depois, a separação.

Incompreensível para muitos, a quebra dos At The Drive-In, daquele que foi o seu álbum de maior sucesso, deixando um vazio nas esferas mais experimentais experimentais que só viria a ser, em parte, complementada com a formação dos The Mars Volta em 2004 pela dupla Bixler/Rodríguez. Por seu lado, os restantes membros dos Drive-In formaram os Sparta. Mas não era a mesma coisa – aliás, vários fãs que aguardavam os texanos na frente do palco confirmaram precisamente isso. Quando, em 2012, começaram a surgir rumores de que os At The Drive-In poderiam voltar, gerou-se um entusiasmo generalizado. A confirmação parecia certa, e atuações nas edições daquele ano do Coachella e do Lollapalooza cimentaram a ideia de que a reunião iria acontecer definitivamente… o que acabou por não acontecer.

Por isso, o anúncio em 2016 que a banda iria, sem margem para dúvida, regressar, foi recebido com bastante cepticismo. Para complicar Jim Ward, guitarrista e ocasional cantor – e que tinha vindo a acompanhar a banda durante boa parte da sua carreira, recusou-se a integrar o elenco. Nem o facto de haver uma digressão de reunião a decorrer sossegou os fãs, depois do debacle de 2012. Nesta nova versão da banda, Ward foi substituido por Keeley Davis que, por ironia do destino, era guitarrista dos Sparta desde há alguns anos. Durante a segunda metade do ano passado, a banda produziu um álbum novo, longe dos olhares e do buzz dos meios de comunicação. O resultado foi in•ter a•li•a, lançado em maio deste ano e agora sim, era certo: os At The Drive-In estavam mesmo de volta, 17 anos depois de Relationship of Command. A isto, seguiu-se o anúncio de uma digressão para apresentar o recém-lançado álbum e uma data em Portugal – a primeira de sempre –, em Paredes de Coura.

Os At The Drive-In não são, de todo, uma banda que gera consensos. Para alguns, a banda formada por Omar Rodríguez-Lopez, Cedric Bixler-Zavala, Paul Hinojos, Tony Hajjar – e agora Keeley Davis -, é um marco, para outros, fogo de vista. A atitude post-hardcore do quinteto vai além do seu próprio som e das suas letras peculiares, muitas vezes desprovidas de sentido, se forem lidas a nível literal. São representantes de uma era na música onde artistas tentaram quebrar os estereótipos e romper em definitivo com o passado, deixando-os na vanguarda do experimentalismo. Daí também tiraram parte do seu sucesso, pela força da diferença. Na era do hip-hop gangsta e do nu-metal, a banda recusou a encaixar-se num molde e com isto, os At The Drive-In mostraram o caminho a muitos artistas e libertaram-nos dos seus constrangimentos criativos e artísticos.

Não foi estranho ver um público ansioso:  há muito, muito tempo, que se espera por este memento. São os que viveram na pele o impacto da banda, recordando os tempos do início da sua adolescência a ouvir os berros de Cedric Bixler, com uma atitude e uma entrega singulares. Olhando para cima, observava-se o fluxo de gente que continuava a encher o anfiteatro natural até que, finalmente, as luzes se apagaram. Calmamente, os At The Drive-In tomaram os seus lugares. Um momento de silêncio, de suster a respiração até se poder ouvir os primeiros acordes de “Arcarsenal”. Em simultâneo, um salto alucinante de Bixler lançou o tom. Rapidamente, substituíram-se os arrepios na pele do público por gritos, em uníssono com o vocalista. A idade não interessa, eles estão cá e estão prontos para agitar as águas de Coura.

Ao primeiro tema, seguiu-se “No Wolf Like The Present”, do novo álbum. Como seria de esperar, in•ter a•li•a seria o prato principal do concerto. Afinal, era esse o propósito da digressão. O público, apesar de visivelmente não estar completamente familiarizado com o trabalho mais recente, não se fez de rogado em festejar o regresso da formação, sem tempo para respirar uma vez que já se ouvia um clássico de Relationship of Command: “Pattern Against User”. Os riffs de Omar Rodríguez e Keeley Davis rasgavam o ar das margens do Taboão, enquanto Tony Hajjar foi tentando quebrar a sua bateria com uma intensidade que só foi igualada pela força dos festejos de um público que já se encontrava em êxtase numa fase muito precoce do concerto. Copos e corpos voavam de forma frenética, o que levou os seguranças do festival a ter sua primeira experiência de peso para esta edição do festival Paredes de Coura. Seguiram-se “Hostage Stamps”, “Sleepwalk Capsules” e “Ghost-Tape No.9”, novamente de in•ter a•li•a, que acalmaram um pouco os ânimos. O novo trabalho, recebido de forma mitigada pela crítica, estava ainda a ser descoberto por parte deste público. “Enfilade” – de Relationship of Command -, voltou a aquecer a multidão adepta, mas por pouco tempo. “Call Broken Arrow”, “Napoleon Solo” e “Governed By Contagions” -outros temas do novo álbum -, seguiram-se para arrancar a reta final do concerto.

At The Drive-In @ Vodafone Paredes de Coura 2017

O final em si foi nada menos que titânico. Indiscutivelmente a música mais conhecida e bem-sucedida do quinteto, “One Armed Scissor” fez a multidão esquecer tudo o que tinha sido deixado para trás. O frenesim de möshes que se iam incendiando pelo anfiteatro na duração do concerto, convergiram para a parte da frente, no que foi uma descarga de adrenalina geral. A energia do público foi retribuída em palco por Bixler e companhia, e de que maneira. Cada sílaba do vocalista era repetida pela multidão, a poeira levantava, formando uma nuvem de pó que lembrava uma altura em que bandas com o peso dos Drive-In tinham o seu lugar no festival.

“One Armed Scissor” é aquela música que, mesmo os que não são fãs da banda já ouviram pelo menos uma vez. No espaço de uma música, que pareceu uma eternidade, todas as angústias de um mundo exterior, de fora da bolha de Paredes de Coura, deixaram de interessar. Todas as frustrações e as mágoas que se foram acumulando no passar dos anos foram exorcizadas de forma violenta a cada golpe na bateria, a cada riff, a cada grito. Por cerca de cinco minutos, tudo deixou de interessar a não ser a comunhão dos espíritos presentes, alinhados aí num concerto que, para muitos, já devia ter acontecido há anos.

Difícil avaliar se este concerto teria tido o mesmo impacto se tivesse acontecido anos antes, mas o importante é que, para os fãs da banda, finalmente aconteceu. Os At The Drive-In tiveram a noção do valor histórico do seu trabalho anterior e, apesar de a apresentação de in•ter a•li•a ter sido a prioridade, não deixaram de revisitar Relationship of Command, álbum que marcou a vida de grande parte do público. E depois, repentinamente, a despedida. E embora muitos quisessem ainda mais – e ficaram mesmo a pedi-lo, sem sucesso – não se via um único rosto triste. Nas caras suadas e cansadas, um sorriso de orelha-a-orelha. Finalmente, finalmente aconteceu.