Se em finais da década de 80 e no raiar da de 90 de um lado do mar o grunge gritava a plenos pulmões a raiva existencialista e a angústia adolescente e quase adulta, aquela de uma geração que se via refém e amordaçada numa realidade política e social cega e surda às necessidades reais e emocionais de um batalhão de milhões de almas, deste lado Atlântico de som o mesmo sentido de perdição era talhado e retalhado, deixando cair as guitarras e carregando para as ruas da Europa – particular e primariamente do epicentro das tendências no que toca ao velho continente, as ilhas britânicas –, uma nova abordagem de fazer e sentir música. Os primeiros embates sónicos da fusão experimental do dub com o hip-hop e um especial, melódico, melancólico e emotivo lado negro da electrónica sentiram-se em Bristol. O trip-hop viria a ocupar o mesmo espaço e papel que o grunge, prolongando-se no espaço e no tempo até bastante além que a última grande escola de rock norte-americana.

Se a morte de Cobain levou ao final precoce de um manifesto e foi a consequência lógica e esperada de uma ideologia nascida do desespero, o trip-hop sobreviveu e metamorfoseou-se em si. Nascido do abandono industrial das pessoas, nascido da necessidade de recriação, foi-se em si mesmo reconstruindo com a absorção de mais uma série de géneros e sonoridades como um entidade biológica viva que se soube adaptar ao meio ambiente adverso e desenvolver-se enquanto espécie.

Com uma disparidade de bandas a apresentarem-se involuntariamente nas fileiras de um género que só em meados de 94 ganhou efectivamente o nome de baptismo que até hoje carrega, o género traz até aos dias de hoje alguns dos seus nomes em pleno acto criativo e em altíssimas doses de vitalidade não sendo preciso recorrer a grandes exercícios de memória para trazer à superfície do pensamento Ritual Spirit e The Spoils dos Massive Attack, Endtroducing de DJ Shadow, The False Foundation dos Archive ou a constante ameaça dos Portishead de um regresso sebastianista, bem como a cover para “SOS” dos Abba e vários outros nomes que se multiplicaram e desenvolveram carreiras enraízadas no trip-hop, como os IAMX de Chris Corner ou os U.N.K.L.E. de James Lavelle.

Nome incontornável naquilo que comummente se estabeleceu como a sonoridade de Bristol, os Lamb entraram no jogo já durante o processo de metamorfose do estilo, quebrando logo o pressuposto bristoliano. Lou Rhodes e Andy Barlow não bebem da escuridão da cidade embrionária mas alimentam-se da matéria cinzenta que inspirou dezenas de centenas de bandas em Manchester e somam-lhe uma magia especial que Lou colectou na escola folk e que acrescenta desde sempre uma realidade bucólica, uma forma de fazer brilhar no escuro o cinzento mecânico das cidades a cada tema do duo. Se mais anexos ao trip-hop, se mais criadores de novas abordagens ao jungle, se uns dos maiores desconstrutores do drum’n’bass  através de lasers de dream(poucoounada)pop, se percursores de uma electrónica ainda por definir mas programada por uma civilização mais avançada algures no espaço sideral, os Lamb desafiaram sempre a gravidade da categorização e atravessaram as últimas décadas arrumados numa realidade paralela, criada detalhadamente por eles mesmos. Lamb saia em 1996 e era apenas um pequeno primeiro passo para esta humanidade, para a delicadeza arrasadora que Rhodes e Barlow viriam a deixar intermitentemente sobre a crosta terrestre, sobre as feridas da alma e dos corpos… mais ou menos etéreos. Um caminho que se fez mais de silêncios – dentro e fora das músicas –, e que deixou até agora apenas sete trabalhos de originais sendo já o último disco, Backspace Unwind de 2014, com dois percursos complementares ricos e indispensáveis em qualquer biblioteca sonora. Lou Rhodes lança 4 discos de uma beleza sublime nos últimos dez anos – Beloved One (2006), Bloom (2007), One Good Thing (2010) e Theyesandeye no ano passado –, enquanto Andy Barlow deixa a sua mestria enquanto produtor e escritor de canções para nomes como Damien Rice, Placebo, Fink ou The Ramona Flowers e num único álbum a solo em 2013, Leap and the Net Will Appear, refugiado por detrás do heterónimo LOWB.

Os Lamb começam no próximo dia 30 de setembro a tour de celebração de um disco que ainda hoje não se revê nos espelhos do tempo e do espaço. Temas como “Cottonwool”, “Zero”, “Feela”, “Trans Fatty Acid” e, claro, “Gorecki” são intérpretes essenciais de uma era, agora revisitados e reinterpretados pelo duo britânico numa série de concertos até ao momento apenas em território europeu de forma a comemorar os 21 anos de Lamb. Barlow e Lou estão desde o início do ano em estúdio a criar reinterpretações dos temas antigos e ao mesmo tempo a escrever novas músicas. Uma delas ganha agora luz e vida e garante o estado de sempre dos Lamb: entre a delicadeza e a ambiguidade, uma poderosa escuridão e uma luz distinta e perpétua. “Illumina” é, segundo a banda, uma reflexão sobre as visões opostas e complementares de dois seres que em vez de se afastarem pelas assimetrias se encaminham para um ponto de iluminação.

In love we come together to learn and shine light in each other’s shadows. – Lou Rhodes

Os Lamb tocam nos coliseus do Porto e de Lisboa nos dias 13 e 14 de Novembro respectivamente.

Lamb Twenty-One Tour Poster

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