Eles chegaram já no anoitecer crepuscular de um género para reafirmarem que o trip-hop era matéria de transmutação. Chegaram quando se sabia que pouco havia a fazer a não ser acrescentar camadas de inspiração vindas de fora e que a trip precisava de mais que um hop: precisava de sonho, de cosmos, precisava da terra molhada a pintar os pés de pretos e verdes e castanhos. Se continuasse a viver entre as paredes de pedra escura, as ruas de luzes desligadas e o desespero industrial e angustiante de uma sonoridade emotivamente fabril e urbana, teria provavelmente o mesmo fim que tantos outros géneros: viver apagado entre memórias, uma ou outra deturpação de género e uma ou outra banda fiel a uma causa sónica que não se soube desenvolver e evoluir. Um esquecimento bonito e romântico que não chega para manter o cadáver vivo. Sem mártires nem heróis tombados, o trip-hop – etiqueta naturalmente recusada pela banda desde sempre -, prosseguiu numa viagem saudável, caracterizado apenas de si mesmo e ao mesmo tempo vestido de tantos outros elementos. Os Lamb chegaram quando era preciso transcender, quando era preciso acrescentar luz às sombras e tingir de etéreo o concreto.

A rota para a noite estava há muito definida, e era em busca de um regresso a Manchester em ’96 que Lisboa recebia os ingleses. O espaço vazio deixava espaço para o movimento dos corpos, enquanto as canções cresciam enchendo os pequenos vácuos entre eles. Uma festa de casa surpreendentemente pouco cheia – será a memória assim tão curta? -, para relembrar o que foi Lamb, o disco, e para assegurar o que são hoje os Lamb, a banda.

Duas décadas depois, Louise Rhodes continua a ser mais do que uma mera sereia campestre. A silhueta esguia e frágil molda serenidade e doçura em torno das palavras, como se hoje fosse a primeira vez que carrega um recém-nascido. A folk e o encantamento não arredam pé da sensibilidade característica de Rhodes, que começa a primeira parte do concerto vestida de Terra, com vestes de princesa rural e pés despidos.

A sacerdotisa das florestas de carvalho e das lendas pagãs da sua Inglaterra, traz na cabeça uma tiara feita de ramos das árvores sem tempo, a que Lou vai buscar a melancolia. Sim, porque o tempo não sabe contar até 21 e o tempo não passou por ela. Nem por ela nem por ele. Andy Barlow continua a ser o mesmo rufia sensível, um sweet and tender hooligan de Manchester que avança e recua em redor das suas máquinas, que levanta o público com chamamentos de chefe índio à beira de um canyon de som. Chamemos-lhe apenas um maestro, um mestre de cerimónias tecno ou um suave agitador de sonhos.

Todas as canções antigas são agora novas. Mantendo uma espinha dorsal facilmente definível ao mais curto dos segundos, os Lamb não trouxeram para a estrada a memória, trouxeram aquilo que sempre foram: a identidade transmutável da canção enquanto ser vivo. Nada muda mas tudo é constantemente diferente. O breakbeat não deixa de quebrar, o dub deixa de ser narcótico para ser sonho vívido, o jazz não deixa de ser elemento de sedução e o drum’n’bass e o jungle são artesãos de fluxos de comoção epidérmica.

E assim, Lamb atravessa a primeira parte da noite mostrando-se com uma nova vida de palco, com temas como “Zero” e “Feela” a conhecerem a estrada pela primeira vez (nunca tinham sido tocados antes desta tour), com “Trans Fatty Acid” a crescer do formato original perfeitamente delineado na escola de um trip-hop sombrio para uma actual poderosa abordagem acid – que seria repetida duas músicas depois em “Merge”, na qual o trompete de Kevin Davy foi uma máquina de teletransporte para um jazz club frequentado pelos replicants de Blade Runner.

“Gorecki”? “Gorecki” é e será sempre “Gorecki”. O arrepio… simplesmente o arrepio de uma das mais belas músicas já escritas por um ser humano. Por vezes mais vale deixar as palavras originais falarem por si:

If I should die this very moment
I wouldn’t fear
For I’ve never known completeness
Like being here
Wrapped in the warmth of you

E é isto. Simplesmente isto…

Entre “Feela” e “Angelica”, entre a celebração e a continuidade, Lou sai da Terra para desaparecer no escuro do universo do fundo do palco. As canções entrelaçam-se, dizendo que a gravidade nem sempre nos puxa para baixo e que grave mesmo é pensar que o único caminho seja outro que não o olhar para cima. Para um espaço onde o vazio não engole o som e onde o melhor está sempre para vir, para um escape daqui para as mesmas estrelas que iriam cobrir a cúpula do Coliseu em “As The Satellites Go By” mais à frente no tempo e no espaço.

Lamb @ Coliseu de Lisboa

Rhodes volta vestida de dourado. Deusa grega de coroa solar no cabelo. Nunca olhar o sol de frente cegou tanto e tão bem.

Deixando para trás ’96, os Lamb serpenteiam daqui em diante entre discos. 5 de 2011 – o disco do regresso depois do hiato de 8 anos -, é o único que não faz parte do mapa estelar. “What Sound” faz o mundo girar, “Little Things” e “Ear Parcel” empurram de volta para os anos 90, com esta última a encontrar-se do mesmo lado do espelho em que esteve na primeira parte da noite “Merge”. Desta vez, a viagem faz-se de forma mais fiel, como se dizendo que mexer na raiz de tudo não implica que o futuro seja diferente. Talvez porque a raiz já antevia o futuro do que se é actualmente, e que a superfície em branco em que Barlow e Rhodes escreveram o intervalo temporal que separa a noite de hoje do dia em que Lamb nasceu, nunca existiu.

Aproximando Lisboa do Sol da meia-noite visto de uma máquina de ferro lá em cima no espaço, Backspace Unwind de 2014 oferece a sequência mais inesperadamente tocante da noite. “We Fall In Love”, “As Satellites Goes By” e o tema-título, provam que a emoção não é apenas feita de toques suaves mas que o equilíbrio está em tudo, está no todo. A primeira e “Backspace Unwind” oferecem-se de corpo e alma numa bandeja de plasma como acompanhantes para momentos de trance. A matéria é essência, e a essência é as curvas do som que desenham em alto relevo de luz e suor os contornos humanos apenas entrecortados pela sublimação das frases harmónicas e deslumbrantes de “As Satellites Go By”. O superior e a queda, a elevação e a humanidade, a perfeição e a imperfeição dos escuros e dos pequenos pontos de luz que se teima em esquecer em todas as outras noites. Ou mais uma vez escusando palavras alheias…

Could it be we’re stars’ reflections
Tiny sparks in one great velvet sky
Perfect in our imperfection
As satellites go by

“Illumina” veio iluminar o final. A noite que acaba em tom de diamante em bruto e por polir. 21 anos depois de Lamb, “Illumina” podia ser parte do alinhamento de então. Uma banda parada no tempo? Nunca. Uma banda que visionou o tempo antes do tempo. “Illumina” é tanto de ’96 como “Cottonwool” de 2026. A banda sai, a noite perde as luzes de palco por breves instantes.

O derradeiro mandamento interestelar está ainda por deixar escrito na memória. O hino do amor antes do amor, a perfeição divina, o olhar nos olhos de deus. O sufismo de “Gabriel” diz adeus da única forma possível a uma noite muito mais que nostálgica, com a imponência frágil da certeza que os Lamb não têm cronologia nem geografia. Ainda e sempre e enquanto os satélites vão passando, eles estão há 21 anos entre a Terra e o Sol.

He’s been there since the very start