#10. FKA twigsMagdalene
Young Turks (8 de novembro)

Uma carta aberta à dor! Colocando o rosto de Maria Madalena, a santa, a pecadora, a esposa desmentida pelo novo testamento e reconfirmada pela releitura dos antigos evangelhos, desprezada e louvada, sofredora e vencedora, devota e dedicada, FKA twigs escancara a sua própria história ao longo dos nove temas de Magdalene. Cinco anos depois do disco de estreia, Tahliah Barnett passou pelo inferno e voltou para contar esse capítulo. A relação amorosa com Robert Pattison e a sua queda graças ao massacre mediático, a doença e a mesa de operações para retirar tumores fibróides são os pretextos para uma obra sonora com tanto de visual como de melódico graças à minúncia com que twigs desfila imagens e momentos. O desamor é cantado de uma forma plenamente desesperante, de um forma tão única como Vulnicura de Björk o foi em 2015. Emocionalmente exigente, Magdalene transforma Barnett naquilo que se temia desde o seu surgimento no início da década que agora chega ao fim. Um talento alienigena que percorre com a ponta dos dedos de forma sensual e quase erótica uma série de estilos com a facilidade de quem despe o objecto amado. A inglesa acaricia a pele da música clássica, experimentalismo, electrónica, batidas que cheiram a Bristol nos anos 90, jazz e elementos industriais moldando-a para a amar sem misericórdia. Uma constante ominipresença profana quase religiosa ou espiritual sublima a sensação de divino que vai muito além do nome de baptismo do segundo longa duração de FKA twigs.

#09. Alice Phoebe LouPaper Castles
Motor (8 de março)

Se os castelinhos de papel de Alice Phoebe Lou têm um espelho, ela atravessou-o e está, desde o lado de lá, a enviar mensagens sem formato pré-estabelecido. O segundo longa-duração da songwriter sul-africana está para os discos como o DeLorian estava para o Michael J. Fox em Back To The Future. Um meio de transporte para as mais variadas variantes da história da música contemporânea. Alice vai até ao beebop e às grandes senhoras do golden age of jazz com a mesma facilidade e fragilidade com que resgata a memória soul caribenha de Sade. Estranho? Só deste lado do espelho porque lá, no mundo fantástico de Phoebe Lou tudo isto acontece de forma natural. A consciência de que somos todos just a speck of dust in the Milky Way (em “Galaxies”) facilita que mande às urtigas transfronteiriças dos estilos as regras e se sente confortávelmente na sua nave atravessadora de épocas para saltitar de nenúfar cósmico em nenúfar cósmico enquanto espalha pós mágicos de folk, blues, soul, psych e jazz. Sempre sem perder o carisma independente que faz questão de chamar de muito seu ao ponto de lançar por  sua conta e risco esta pérola de canções ridiculamente (agri)doces e tão pessoais que quase nos oferece um nenúfar para sentar e escutar as memórias que tem para partilhar. É quente do lado de lá do espelho de Alice Phoebe Lou. Vai uma dança agarradinhos na festa do liceu em 1953?!

#08. Kate TempestThe Book of Traps and Lessons
Republic (14 de junho)

Se a cantiga é uma arma, a palavra são as balas que os fazem tombar. E se as palavras são as munições que os colocam mais perto do chão, Kate Tempest, sozinha, é a mira de cada instrumento de abate, é o esquadrão da morte que desfila rimas e ideias e pensamentos nas ruas dos subúrbios de todo e qualquer bairro abandonado pelo pensamento, é a força da razão a tentar reentrar nas casas esquecidas pela esperança. E como para falar assim sobre quem fala assim não existem muitas palavras que lhe façam justiça – e que não se sintam embaraçadas pela comparação – sobra deixar a sinalização que por aqui, por entre as margens de beats subtis de electrónica ambiental e hip-hop frágil e contundente corre um rio de consciência em formato de spokenword. Cuidado ao abrir o livro de Kate! Podes ouvir histórias sobre ti, sobre nós. Histórias incómodas de percepção de quão errada está a nossa existência. Cuidado com as armadilhas da vida moderna. A lição? Essa está nas ruas dos subúrbios e das cidades esquecidas do pensamento.

#07. The Murder CapitalWhen I Have Fears
Human Season Records (16 de agosto)

Os cinco de Dublin practicamente materializaram-se em 2019 com menos de uma mão cheia de single mas com um corpo feito de quem anda nisto há décadas. Se serão possessões dos espirítos caídos e arrastados de alguns dos nomes maiores do post-punk e das vertentes mais artsy do punk ou qualquer outro feitiço negro e desesperante poder-se-ia discorrer sobre durante dias mas a verdade é que os The Murder Capital, apesar de não exorcisarem de todo a alma dos Joy Division, Birthday Party e dos The Chameleons de dentro da sua essência, são por si só um entidade singular e única que aniquila em apenas um disco toda a concorrência dentro do espectro post-punk. Um disco de estreia que os atira directamente para alguns patamares acima de algumas das maiores bandas do género desde sempre. Quantas vezes é que dentro da linhagem é que se encontram ainda restos de Tom Waits, de Cohen e de Fugazi? E quantas vezes desde que o século XX chegou ao fim se encontrou músculo e sangue e um pulsar de matéria negra como o dos The Murder Capital? Os irlandeses, a par das Savages, em vez de carregarem um legado demasiadas vezes recriado e clonado, reforçam-no fazendo do post-punk uma linguagem actualizada e imprescindível, emocional e concreta, social e política. Um disco de estreia sem medo dos gigantes do passado, assente nos seus ombros mas de olhos nos olhos com a consciência da sua própria grandiosidade.

#06.  LINGUA IGNOTA – CALIGULA
Profound Lore Records (19 de julho)

Existem discos dos quais não se sai da mesma forma que se entrou… Caligula é um desses discos.  Quem entra aqui entra por sua conta e risco. O terceiro longa duração de Kristin Hayter é uma travessia por contos de terror e horror realistas onde se vivem histórias de dúvida, de morte, de sexo, de violência doméstica, de abuso, de encarceramento psicológico e físico. Caligula é também o disco que, assistindo na primeira pessoa a toda a desagregação e degradação de um personagem, se coloca como a porta sem luz ao fundo do túnel colocando sempre a salvação, a absolvição e a transformação em algo superior como algo passível de ser tornado realidade. A catarse aqui escreve-se entre guinchos, guturais e cantos barrocos e étnicos revestido de farrapos de black metal sem metal, de dark folk ritualista sem uma localização geográfica luminosa ou qualquer tipo de metodologia e propósito divino. Hayter entrega uma redefinição das zonas mais sombrias da música contemporânea e coloca-se lado a lado com o pop industrial de Zola Jesus ou a delicadeza cadavérica dos Sopor Aeternus de Anna-Varney Cantodea, como uma das suas figuras mais notáveis. Devastação soletra-se L-I-N-G-U-A-I-G-N-O-T-A.

#05. Yugen Blakrok – Anima Mysterium
I.O.T Records (1 de fevereiro)

Quem tiver passado pela banda sonora do filme Black Panther em 2018 cruzou-se certamente com as artes mágicas da sul-africana Yugen Blakrok ao lado de Vince Staples em “Oops”, uma parceria que os colocava mais perto do universo bizarro dos também sul-africanos Die Antwoord do que do comum rap do século XXI. Ali ficava clara a diferenciação da rapper de Grahamstown em relação à concorrência da cena hip-hop actual. Os mais curiosos terão ido em descoberta do disco de estreia a solo de 2013, The Return Of The Astro-Goth, onde apenas se davam os primeiros passos e apenas se poderia deduzir com que linhas do destino se iria coser o manto sagrado que Yugen iria envergar em Anima Mysterium. Blakrok rima sobre Anubis, a glândula pineal, banshees, Aries, Libra, sobre a terceira visão, sobre sabedoria ancestral, astrologia, astronomia, mitologia, magia e feitiçaria. Yugen escreve e funde-se sobre os beats de boom bap dos anos 90 revistos, sublimados e seduzidos por demónios e pelos demónios de Kanif the Jhatmaster em ambientologias misticas e futuristas como se ambos soubessem algo mais do que nós, os pequeninos mortais. Se necessário fosse criar paralelos, Anima Mysterium seria um habitante da mesma dimensão de MF DOOM ou o Dr. Octagon de Kool Keith. Mas mais do que uma personagem Yugen é uma figura real com mensagens crípticas mas claras, com muito para dizer. O hip-hop não pode ser mais independente do que isto e se existe uma batalha a ser travada no cosmos estas são as primeiras ondas de impacto a chegar à Terra. Pensemos assim e em sintonia energética: Se Lynch fosse filmar Dune em 2020 isto era a banda-sonora.  Ah espera… hello, hello, Denis Villeneuve, será que ainda vais a tempo?

#04. Jambinai – ONDA
Bella Union (07 de maio)

Monstruoso e outros sinónimos! Serve o presente texto para renomear qualquer uma das palavras que signifiquem monstruoso, seja no Goole Translator ou em outro tradutor que se arrisque a traduzir de coreano para português ou outro idioma conhecido ou desconhecido no cosmos. A banda da Coreia do Sul esculpe até ao seu estado mais genial a fórmula que vinha a apurar desde Différance, disco de estreia de 2012. Os instrumentos tradicionais coreanos haegeum, geomungo e piri continuam a ser a cor na tela post-rock dos Jambinai – o que por si só tinha sido mais que suficiente para fazer do trio de Seul um nome incontornável na cena -, mas algo de divino desceu e tomou conta do processo de composição de ONDA. Ao terceiro disco, os Jambinai são a banda sonora para um apocalipse ou uma elevação ao divino (consoante o teu karma 😉 ) em montanhas nebulosas a oriente do Mundo, talhando tema a tema como capítulos ou personagens que tomam vida sem pedir licença no plano metafísico do pensamento. Mais pesados do que nunca, em ONDA os Jambinai facilitam a subida até um dos kāma loka, os mundos dos sentidos do budismo, arrastando tudo o que lhes surja no caminho – apesar de “onda” significar “vir” em coreano serve como um excelente jogo de palavras -, sejam os formatos pré-estabelecidos do post-rock, do post-metal, da folk e dos (pre)conceitos que se tem sobre a música oriental. Fica a sensação de plenitude quando o silêncio toma conta do terceiro longa-duração da banda e a sede de conhecimento sobre como irão suplantar o que parece ser um disco perfeito.

#03. Dark Morph (Jónsi & Carl Michael Von Hausswolff)Dark Morph
Krunk (10 de maio)

O aparente silêncio que sopra das terras mágicas dos Sigur Rós é só pouco mais do que isso para quem não for visita habitual ao site oficial e às redes sociais dos islandeses. Além das edições de celebração dos 20 anos de Ágaetis Byrjun, da edição de Lost And Found pelo projecto paralelo Alex And Jonsi ou os lançamentos das peças para bailado 22° Lunar Halo e Variations On Darkness, 2019 viu o lançamento quase em surdina de uma das obras maiores saídas da hiper-mente de Jón Þór Birgisson. O homem forte da banda nórdica une-se desta vez com o compositor sueco Carl Michael von Hausswolff para um trabalho único, escuro, inquietante e bizarro. Recorrendo apenas a sons de baleias-corcunda, do pássaro ardeidaes do género dark morph, de morcegos ou de camarões gravados numa expedição às ilhas Fiji e Tonga e aos mares adjacentes, o duo tece um manto sónico de drone, de new age e de electrónicas experimentais. Dark Morph reflecte-se no éter cósmico de forma hipnótica e potencialmente hábil para transportar a mente para estados alterados e meditacionais. Apesar de e graças à sua densidade, o disco de Jonsi e Hausswolf conecta de forma inconsciente a energia humana ao seu elemento mais básico e primário sublinhando a nossa verdade biológica: somos todos o pulsar do planeta!

#02. Angel Bat Dawid – The Oracle 
International Anthem (8 de fevereiro)

“What Shall I Tell My Children Who Are Black”: Angel demora apenas três temas para escancarar o que o seu oráculo lhe segredou alto. Um disco de reflexão sobre o que é ser-se negro em 2019, o que é ser-se negro num país que revela as suas tendências menos tolerantes, o que é ser-se negro à escala global num planeta que revela as suas tendências menos tolerantes e que enverga orgulhosamente os efeitos de se estar em pleno processo de contração do pensamento humano. Figura de relevo na cena jazz e avant-gard de Chicago, a clarenetista, compositora, musicóloga, pianista, poeta, etc, Angel Bat Dawid grava The Oracle no seu iPhone tanto na sua cidade como em algumas escapadas transcontinentais até à Europa e África. Chamem-lhe espirituais negros, jazz, música improvisada, experimentalismo, blues, hip-hop, r&b ou chamem-lhe o que quiserem, o certo é que Angel assina e grava na totalidade todos os instrumentos e vozes do seu disco a solo de estreia (excepção feita à colaboração com o baterista sul-africano Asher Simiso Gamedze) e envolve-o sobre a égide do pensamento filosófico e antropológico da negritude contemporânea. Ao mesmo tempo um registo que sendo tudo é tão simplesmente um álbum impar na história do ano e do pensar musicalmente os conceitos do que é ser alternativo, jazz e elementarmente dream.

#01. American Football – American Football 3
Polyvinyl Records Co. (22 de março)

Os American Football são uma banda que nunca devia ter sido. Convidados por Matt Lunsford em 1998, e já na recta final da faculdade, para gravar o primeiro disco pela Polyvinyl Records – uma então pequena amostra do que seria no novo milénio -, a banda acabaria por se separar ainda em fase practicamente embrionária, depois de terem os canudos na mão e cada um seguir a sua vida profissional. A brincadeira de miúdos tinha chegado ao fim e apenas Mike Kinsella continuava ligado à música, assinando discos a solo enquanto Owen e com os Joan of Arc, Owls ou os Cap’n Jazz. Em 2014, a reedição do disco de estreia dos American Football fazia ressurgir um interesse nunca verdadeiramente esquecido pela banda do Illinois lançando-os, novamente, quase como uma brincadeira de crianças, para algumas datas ao vivo que culminariam, com alguma surpresa, na edição de LP2 em 2006, 16 anos depois do álbum de estreia. Daí em diante é a história de uma banda essencial dos manuais indie a acontecer. O interesse dos fãs de antes alia-se a uma nova frente de seguidores, e os American Football redefinem-se e redefinem tudo deixando tudo na mesma. LP3 é o disco de três miúdos a brincar aos adultos e um disco de adultos que não deixaram de brincar. Há jazz, há emo, há dreampop e até sopros quase intocáveis de um shoegaze e um post-rock concretos… e há um conjunto de canções que se explicam por si mesmo enquanto os mais perfeitos espécimes de canções indie numa era em que o indie se recolhe novamente ao seu lugar nas franjas do mainstream. Delicado, arrepiante, suave e frágil mas seguro. American Football 3 é a idade adulta a saber lidar com as fragilidades emocionais que nunca se arrumam em definitivo nas gavetas certas.