Na 28ª edição, o Prêmio da Música Brasileira homenageou a trajetória incomparável de Ney Matogrosso, um artista que, no alto de seus 75 anos, continua tão relevante no cenário artístico do país como quando iniciou sua carreira. Mas, os convidados que chegaram ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro na última quarta-feira dia 19, logo se depararam com uma mudança na estrutura do evento: a cenografia lúdica e extravagante, um dos pontos mais marcantes da premiação, deu lugar a um palco despido de qualquer artifício técnico que não fosse o telão principal. Em seu discurso de abertura, José Maurício Machline, idealizador e diretor geral do PMB, explicou logo de cara como a falta de políticas publicas para a cultura carioca influenciou na produção da noite. O idealizador do evento abriu a noite com um discurso emocionante e encorajador: “Ainda há solidariedade em um país com tantas desilusões”.

“É uma loucura produzir o Prêmio dessa maneira, mas conseguimos fazer com que ele acontecesse. Esse Theatro é o nosso cenário: exposto, nu e cru”, explicou Machline para uma plateia que reunia a nata da classe artística brasileira. Semanas antes, os mesmos artistas que estavam ali sentados haviam espalhado por todas as redes sociais uma campanha de apoio ao evento através da hashtag #vaiterprêmiodamúsica. O objetivo era criar uma rede de solidariedade à premiação que tanto já havia contribuído para o desenvolvimento da cultura no país e, agora, se viu à mercê de políticas públicas que inibiram qualquer tipo de apoio financeiro à causa. “Descobrimos que ainda existe amizade e solidariedade, mesmo em um país com tantas desilusões”, pontuou o diretor.

E, de fato, foi impressionante ver como, mesmo sem patrocínio direto, o PMB ainda conseguiu reunir nomes como Elza Soares (Melhor Álbum de Canção Popular), Elba Ramalho (representando Alceu Valença como Melhor Cantor e Melhor Áçbum Regional), Zeca Pagodinho (Melhor Cantor de Samba) e Roberta Sá (Melhor Cantora de Samba) por uma causa maior: prestigiar não só os próprios artistas, mas também homenagear toda a liberdade de expressão que a figura de Ney Matogrosso transborda. Ao longo da noite, que foi apresentada por Maitê Proença e Zélia Duncan (também responsável pelo roteiro), nomes como Karol Conka, BaianaSystem (Revelação e Melhor Grupo de Pop/Rock/Reggae/Hip Hop/Funk), Lenine (Melhor Álbum e Melhor Cantor de MPB) e Ivete Sangalo (Melhor Cantora Popular) revisitaram o catálogo de Ney e mostraram que não só as letras, mas também seu estilo performáticos continuam em sintonia com o que acontece no resto do país.

BaianaSystem

BaianaSystem

Alice Caymmi, que saiu de lá com o troféu de Melhor DVD graças ao show “Rainha dos Raios”, dirigido por Paulo Borges, se apresentou ao lado de Laila Garín e foi responsável por um dos momentos mais inesquecíveis da cerimônia quando, ao final de “Bomba H”, as duas se beijaram no palco. O ato foi encarado como uma resistência contra o preconceito pregado em todos os níveis estatais por líderes religiosos que assumiram recentemente o poder governamental no Brasil. Em entrevista à Tracker, Alice comentou: “Com amor, arte e dedicação, a gente é capaz de tudo e qualquer coisa. Fico impressionada com a força que Ney desperta nas pessoas”.

Quem também reconhece o valor artístico e político de Ney é Teresa Cristina, indicada como Melhor Cantora de Samba na premiação. À Tracker, ela disse: “Com todo esse desmonte que está acontecendo na cultura do país, um prêmio para celebrar a música brasileira e o próprio Ney Matogrosso é incrível e essencial”. Os comentários foram ecoados por Baby do Brasil, que compareceu à cerimônia acompanhada da filha Zabelê. “Nós viemos exatamente para isso, para homenageá-lo. É muito lindo vir aqui, conhecer a trajetória de Ney dessa forma e ver como ele continua bem até hoje. Nós temos que prestigiar muito mesmo os nossos artistas. O valor que eles têm é muito significativo”.

A influência da representação libertadora de Ney no palco, com sua figura que já desafiava as linhas “convencionais” de gênero mesmo em meio à repressão da Ditadura Militar no país, pode ser vista na nova leva de artistas nacionais. Liniker, por exemplo, não nega a importância que o veterano exerceu sobre ela: “Antes de eu nascer, ele já estava aí há muito tempo. Só de ser do mesmo país e estar na mesma história que ele já me deixa extremamente feliz. Ele é uma pessoa incrível para a nossa trajetória”.

A cantora, que recentemente voltou de sua primeira turnê pela Europa (“Foi uma recepção muito grande, me senti extremamente lisonjeado”), reforçou a importância de valorizar a cultura em meio ao caos político do Brasil. “Temos que usar nosso espaço de representatividade como forma de protesto. Achei muito importante usar o Theatro Municipal para reivindicar o que é nosso. O que o PMB fez é maravilhoso, porque conseguimos construir uma potência, uma rede e fazer com que, no fim, tivéssemos esses resultados majestosos”.

Vivendo na ponte-aérea entre Brasil e Portugal, Fernanda Abreu também foi uma das grandes vencedoras da cerimônia, que lhe entregou o troféu de Melhor Projeto Visual pelo álbum “Amor Geral”, cujo conceito criativo foi desenvolvido em parceria com Giovanni Bianco, o mesmo nome por trás das recentes criações de Anitta e Madonna. Não coincidentemente, a garota sangue bom abordou exatamente a solidariedade no tema de todo o disco, provando que continua em sintonia com aquilo que movimenta tanto o morro quanto o asfalto da Cidade Maravilhosa. “O amor que eu quis abordar vai além do romântico, é de um tipo mais universal. É algo que vem da coletividade, do respeito às diferenças, sejam eles sexuais, religiosas, culturais ou de qualquer forma”.

Os cortes subsequentes de verbas destinadas à cultura feitos pelo governo do atual presidente Michel Temer, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e o recém-eleito prefeito Marcelo Crivella não passaram despercebidos pela veterana. Este último, por sinal, além da tentativa de exterminar o Carnaval e outros movimentos como a Parada do Orgulho LGBT, também tem imposto suas crenças religiosas em forma de censura a bares cariocas e um frágil “toque de recolher” para a vida boêmia da cidade e o fechamento de teatros tradicionais no circuito artístico. “É muito importante ocupar os espaços,
principalmente quando não estamos tendo nenhum tipo de incentivo. Muito pelo contrário. Eles têm um projeto muito claro de reprimir e oprimir a cultura, mas nós temos que resistir”.

E foi assim, em meio ao clima de resistência e de não apenas respeito, mas celebração à todas as formas de expressão cultural, que o 28º Prêmio da Música Brasileira se encerrou. No palco, “nu e cru”, Ney Matogrosso apresentava “Pro Dia Nascer Feliz”, canção de Cazuza que faz parte de seu repertório há anos. Não foi preciso telões, verba espalhafatosa, pompa ou nada do gênero. O ídolo, apoiado apenas em seu gogó, conseguiu colocar toda a plateia do Theatro de pé e reverenciando aquela mensagem que, mais uma vez, se mostrava tão necessário quanto há 30 anos. Consulte todos os nomeados na página oficial do evento.