Chegamos à velha Calçada do Desterro, uma pequena transversal da megalómana Almirante Reis e descobrimos um pequeno sítio simplesmente apelidado de Desterro. Convidativo e familiar por si, este lugar guarda, entre mesas de xadrez e um delicioso bolo de chocolate, engenhosos segredos ao longo das suas escadarias e corredores. Não tarda que encontremos uma passagem secreta que nos leva a uma pequena sala escura, tão escura como o breu e onde praticamente  a única fonte de visibilidade advém das minúsculas luzes dos vários aparelhos electrónicos. À nossa frente, uma panóplia extensa e espacial de teclados, interfaces, mesas de mistura, botões e sequenciadores tão modernos quanto clássicos. Está instaurado um cenário de ficção científica que seria eventualmente acentuado pela presença de Cowboy Bebop nos projectores e todo o clima incita a uma coisa: a descoberta.

Faz, portanto, completo sentido que assim seja na segunda noite Planetarium da História. Originalmente encarnada no eka Palace em Xabregas, a nave levantou voo para desbravar os novos mundos da electrónica em busca de frequências alternativas e embateu no Desterro numa noite triunfante, acolhedora e populada. Ainda assim, ter uma zona de conforto acaba por ser um bocado uma antítese a este conceito. A missão, através dos artistas que propõe e a vibe que promove, parece querer sempre assentar na transgressão e em evitar o caminho do óbvio na sua demanda pela música digital. A ida a uma noite Planetarium pressupõe uma fuga ao comum e um desafio de adaptação e abertura num ambiente familiar e amigável e apesar de relativamente mais suave que a noite inaugural, esta nova encarnação levou a cabo exactamente isto.

Com os ritmos subaquáticos dos The Positronics, o mecha tribalismo de Random Gods, a elegância techno de Tsuri e Márcio Matos e a extravagância e abrangência de 2jack4u e João Quintela fez-se uma tripulação que combinou veteranos e principiantes a tomar controlo da cabine de navegação até mundos distantes. Com um ligeiro atraso, e um pouco depois das 22h00, foi quando o foguetão começou a queimar o combustível, embora de forma vagarosa e com a precisão de veludo dos The Positronics.

Os ritmos começaram quentes com a fusão simultaneamente tribalista e futurista que são os sons do dub. Muito inspirados no soundsystem londrino, um duo de anfitriões misturava e limava um set que foi maioritariamente suave e extremamente progressivo, com levíssimas nuances a fermentar composições longas e atmosféricas, cujo vento de mudança, de tão lento que era, quase se tornava imperceptível, criando uma falsa ilusão de natureza estática, que apenas embalava. A ajudar, uma cantora (poderia ser uma sereia) que muito pautadamente ia soltando versos soltos de várias canções clássicas que iam ecoando pela sala graças a um hipnotizante delay que trazia vestido na voz. Absorvente e dormente, os The Positronics instauram ambiência e foram um eficaz início para este Planetarium.

Pouco depois do fim do set deste trio, o registo mudou severamente. Estamos agora perante o one man show de Random Gods, rapaz alto, vestido de preto, que com uma aura muito industrial debitou uma fusão realmente bem regada a texturas metálicas e electrónicas em conjunto com uma transcendentalidade que ora ressoava lugares mais oníricos, como outros mais escuros e até satânicos. Munido de um pequeno sintetizador e um microfone banhado em efeitos, Random Gods administrou um set exploratório, abstracto e eminentemente perigoso e variado. Começando a primeira metade com assombrosos cânticos e ásperos drones, passou de uma espécie de meditação das trevas para a luz da tropicalia e dos ritmos mais quentes, como se tivesse encontrado a saída de um túnel escuro e estivesse agora a convidar a dança, que foi algo que plateia acedeu, que agora se ia compondo cada vez mais no meio da camuflagem da extrema escuridão.

Igualmente cativante pela mestria técnica e pelo apelo sensorial, foi uma das propostas mais curiosas deste segundo Planetarium. A música enigmática que construiu evoca sensações de transgressão de curiosidade e algo que se quer continuar a ouvir para se manter a surpresa e exclamar a bizarria do que está acontecer. Todo o cenário sui generis só foi ainda mais evocado graças ao VJ de serviço, Dummo, que já em The Positronics havia trazido uma mística de colagem e perda de sentido com hipnotizantes loops de filmes e imagens a criar uma realidade paralela, sustentável sem contexto e visualmente estimulante.

A seguir, e num acto de espontaneidade que surgiu devido a constrangimentos de tempo, Márcio Matos e Tsuri acabaram por subir às turntables num formato back to back improvisado que viu os dois jockeys a pôr som para uma plateia cada vez mais dilatada. Com um início marcado por algumas questões técnicas, foi feliz ver como esses detalhes se acertaram em prol de um set que se foi construindo e musculando ao longo do tempo. Sob um pano de fundo colorido pelo imaginário anime onde nem faltaram emblemáticas lutas do Dragon Ball Z, Tsuri e Márcio começaram num registo futurista e geométrico, trazendo um techno que até agora ainda não havia aparecido nesta noite e que era todo reminiscente das paisagens de Tron e dos arranha céus maciços de Akira.

Por fim, houve ainda tempo para passar por Chicago e namorar essas correntes de música electrónica numa passada sempre constante e acelerada que primou sobretudo pelo ecletismo, com uma muito bem recebida secção de funk e soul a acolher os passos de dança mais assertivos e soltos da noite. Gingão, variado e animado, o DJ set de Márcio Matos e Tsuri foi um belo carrossel de dança e um precioso momento de clubbing de alta qualidade.

E o techno veio para ficar: é agora hora de 2jack4u, um casal veterano nestas andanças que compõe todo o seu som utilizando equipamento analógico, que entre sequenciadores vintage, um mar de circuitos e nods, traz consigo um Mini Korg para a festa. Muito à base de sequências automáticas e a geometria impiedosa de um arpeggiator, os 2jack4u apresentaram a sua marca de techno agressivo e abrasivo, de som e textura saborosamente analógicos, que só apuravam ainda mais o gosto retro. Os beats agressivos furavam tímpanos e os uivos de synths e de sons modulados foram criando uma paisagem ora distópica ora irreal, tão reminiscente do ciberpunk como do bom e velho techno alemão. Misturando mestria e concentração com raiva e punk rock e mantendo sempre viva a chama da diversão e do “fazer por gosto”, os 2jack4u deram um espectáculo sólido e visualmente estimulante, pela performance muito física dos dois músicos.

O volume está alto e o pique de intensidade ainda não passou, apesar dos derradeiros momentos estarem à porta. Pouco antes das 4h, é a vez de João Quintela subir ao pódio. Muito na linha do que se viu anteriormente com Tsuri e Matos, também Quintela se encontrou com as batidas quadradas e autónomas do techno. Houve special ênfase na velocidade e na vibração dos padrões melódicos e coube ao músico tratar daqueles que ainda não se tinham sentado ou dirigido ao bar para beber um copo. Mantendo o padrão intenso e apostando num ritmo cada vez mais puxado à medida que se ia aproximando do fim, João Quintela carregou a audiência dançarina, ainda numerosa apesar da hora, até ao fim com boa perícia e estilo. Nota para um público especialmente dedicado e motivador, onde nem faltou sequer um experiente MC anónimo do público a debitar rimas em improviso por cima das batidas do DJ. Louco e imperdoável, assim acabou um set que encerra também uma noite.

Seja música para pensar na vida ou para esquecer todo o raciocínio, aquela que aqui se (ou)viu nesta edição do Planetarium é decididamente saudável para todos os ouvidos que afirmam ou procuram ser de fronteiras expandidas, principalmente no que toca às possibilidades da música digital. Depois de uma curiosa primeira edição, a segunda leva foi uma noite de consolidação e progresso passada num belo abrigo e vestida de um interessante cunho de pesquisa. A ir-se para casa fica-se com aquele sentimento excitante da transgressão e com a sensação que se assistiu a algo verdadeiramente provido de valor, baseado na descoberta e na sua partilha. Ainda não se pode falar de constelação a este ponto, mas ficou claro que há aqui energia  e combustível para que a noite Planetarium seja uma estrela bem brilhante na nova noite lisboeta.