O Sofar Sounds chegou a Portugal há quatro anos, depois de tantos outros de muito sucesso no mundo inteiro, onde salas improvisadas recebem alguns dos mais talentosos e promissores nomes da música actual. Ao longo destes anos, Lisboa e Porto são as cidades que têm vindo a presenciar momentos de cortar a respiração e que transportam, para fora dessas quatro paredes, momentos inéditos, únicos e irreproduzíveis, em espaços igualmente únicos, inéditos e tantas vezes impensáveis. No sábado passado, a coisa foi ligeiramente diferente: foram apresentadas quatro bandas que tocaram quatro músicas cada uma, numa clara alusão ao aniversário que neste dia se celebrava.

À hora marcada (entre as 17:00 e as 17:30, já a contar com os inevitáveis atrasos portugueses), a World Academy –espaço escolhido para esta festa -, já se sentia cheia mas as portas do auditório teimavam em não abrir. Pouco passava das 18:00 quando finalmente se pôde entrar no auditório, e a primeira impressão foi que era mais importante era ter um cocktail oferecido pela marca patrocinadora na mão do que tomar de assalto um lugar no chão para que se iniciasse a tarde. A fila para o bar de madeira era grande e parecia interminável, o que ainda atrasou ainda mais os concertos. Mas porque os copos verdes de whiskey também fazem parte da festa, a organização não se mostrou nem um pouco impaciente, respeitando a “vontade” do público.

Guitarradas de Bermudas

Muito timidamente, subiram ao palco os primeiros artistas da tarde, que pegaram nas suas guitarras, cruzaram as pernas e sem demoras abriam a tarde. Diogo Esparteiro fez os primeiros acordes, imediatamente acompanhados pelo dedilhado harmónico de André Parafina. O duo de Lisboa é Royal Bermuda, com as suas guitarras em harmonia que tanto aparentam entoar um fado novo como uma desgarrada cigana, ou até algumas sonoridades mais tipicamente brasileiras, passando ainda pela remota aparição de momentos mais chegados ao metal. Parafina fala pela primeira vez e apresenta o single para o novo trabalho, Paraíso Cafajeste, que soa com melodias nostálgicas em que a ausência de uma parte lírica permite a criação individual dessa história paradisíaca.

Vaarwell: a outra irmã

O nome pode ser desconhecido para alguns mas a menina que dá o rosto e a voz a este projecto certamente não é já novidade para ninguém. Margarida Falcão é a mana mais nova de Catarina, ambas das Golden Slumbers e a actuação que se segue no Sofar Sounds. O concerto começa mais uma vez atrasado – a fila do bar volta a ser grande -, e arranca com problemas técnicos. A falta de munição provoca mais um pequeno intervalo até que se resolva o percalço. Embora tenha desviado a atenção da pequena plateia que rapidamente iniciou o burburinho normal nestas situações, poucos segundos bastaram para que o silêncio voltasse a ser imperador naquela sala.

É certo que Margarida se sente em casa, o que transparece não só no à vontade com que interpreta as suas canções, como na forma como, do centro do palco, vai liderando o trio também composto por Ricardo Nagy e Luís Monteiro. As melodias são comandadas por beats e samples e direccionadas pelas linhas rítmicas imprimidas pelo baixo, para que a voz de Margarida assente na perfeição nestes jardins suspensos,  iluminados pela guitarra que ecoa na eternidade das melodias. É inevitável a comparação com Daughter em todos os aspectos, e é maravilhoso ver o crescimento galopante (ainda que controlado) das duas Slumbers, cada uma ao seu jeito.

O Urso é Bardo e trovador de cordas

A tarde já se tinha feito noite e a noite começava com Urso Bardo, quarteto de Lisboa que apresentou canções de um novo álbum que virá. “Em forma de agradecimento ao Sofar Sounds pelo convite e por ser o quarto aniversário, o nosso presente serão quatro canções novas”, confessou Ricardo Antunes, escondido atrás da sua bateria. Os “Ursos” são exímios no que fazem: basta imaginar os Dead Combo em formato quarteto e juntar umas pitadas de post-rock para se chegar perto do que estes senhores fazem. Senhores, porque a cada canção que tocam, fica bem clara a maturidade e conhecimento mútuo que existe entre os seus membros. As guitarras soam de forma alternada, dando corpo e vida às canções, mas a alma reside na bateria de Antunes. Poder-se-ia pedir um pouco mais de baixo, mas a magia está aí mesmo: em ser o que não se espera que seja. “Vida e Morte de Dª. Antónia” é o tema que encerra a demonstração barda e, segundo os próprios, é aquele que dará nome ao segundo álbum de estúdio da banda.

Casabranca 白い家 @ 4º Aniversário Sofar Lisbon

Viagem à Casabranca

A noite estava prestes a terminar e se o Sofar Sounds fez quatro anos, os seus quatro convidados tinham, até então, 2, 3 e 4 membros, respectivamente, faltando apenas subir ao palco o multi-facetado Diogo Almeida, a.k.a. Casabranca 白い家. O palco despia-se então de todos os instrumentos que outrora o decoravam, permanecendo apenas um teclado, um portátil e uma guitarra. Mesmo antes do primeiro riff, a organização fez-nos um pedido “em nome do músico, ponham-se todos de pé”. Daqui para a frente, a ideia era dançar (ou não se tivesse acabado já com o stock do bar, ainda antes dos Urso Bardo terminarem o seu concerto) e o músico fez o papel dele, levando a plateia até à sua Casabranca, seja ela qual for.

Diogo apresentava os presentes ao seu electro-pop ligeiramente dançante, com uma presença da guitarra que poderia fazer lembrar Bag Raiders ou Metronomy. O público, esse, esteve de pé o concerto inteiro, mas pouco dançou. Pelo contrário, aproveitou o balanço de lá para cá e foi começando a sair.

Embora a noite tenha acabado com o público a sair em fade-out, esta foi uma noite que encheu os corações, uma noite em que as guitarras estiveram no centro das atenções e fizeram esboçar um sorriso durante toda a tarde e início de noite, conseguindo fazer esquecer os percalços do evento. O Sofar Sounds está de parabéns e espera-se uma festa de 5º aniversário ainda mais memorável. Até lá!