Com a semana a pôr-se e uma nova a respirar alvorada, um olhar sobre discos da semana que fogem e se esquivam das observações mais comuns ou mainstream. Sete discos da semana que acaba para se ir ouvindo, dia a dia, na semana que começa.

Numa semana com bastante peso em termos de nomes sonantes do horizonte alternativo com lançamentos de álbuns e EP’s – Stephen Malkmus, Nick Murphy, Noel Gallagher’s High Flying Birds, Anna Calvi, Tricky e Phantogram, por exemplo -, é bom conseguir descobrir tantos mais que passam ao lado dos holofotes, sendo alguns destes discos essenciais do que ano que agora corre.

A nossa escolha de discos que não deves deixar de ouvir segue em baixo com Stian Westerhus, Abigail Lily O’Hara, Disq , Marla Hansen, Metal Preyers, Psychonaut e Honey Harper. Mais uma vez a escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

Stian Westerhus – Redundance (House of Mythology)

Uma construção imponente de linhagem melódica concreta mas de alicerces experimentais e faustosos. O norueguês Stian Westerhus é uma espécie de mestre do caos, que faz tudo encavalita-se em camadas de telas de som e tudo se vai naturalmente encaixando como peças de um puzzle sem imagem conhecida à partida, desafiando lógicas e padrões, mantendo-se paralelamente como uma paisagem única e clara.

Um jogo constante de opostos atravessa-se ao longo do disco: de belo e de louco, de difuso e luminescente, de obscuro e elevatório, um jogo que penetra subrepticiamente sob camadas de pele sensíveis a uma miríade de impulsos distintos e que desobedece a todas as regras que se queiram impor para definir um artista.

Abstrato como poucos mas pronto a servir com uma vénia de génio os mais distintos espectros sónicos. Quando num disco apenas se consegue inserir coisas como a fase Earthling e Black Star de Bowie, a zona melódica em que por vezes Trent Reznor se equilibra, o experimentalismo de Kid A dos Radiohead, o pranto de Anohni e a beleza de Anthony e tantas outras coisas, sem se precisar deles para coisa nenhuma a não ser como farol para a descoberta, é porque do caos se fez nascer uma estrela. Candidato desde já a um dos maiores discos do ano.

Abigail Lily O’Hara  – What is Left of Blue Whirlwind (The Eagle Stone Collective)

A identidade de Abigail Lily O’Hara turva-se em névoas e é uma incógnita. Nem se vislumbra uma referência a quem seja, de onde vem, não existe um rosto a quem ligar as canções. Todas as pesquisas terminam onde começaram; numa tela em branco translúcido, tão translúcido como a songwriter.

Em What Is Left Of Blue Whirwind, O’Hara brinca com o drone como instrumento de corte para uma americana amaldiçoada ambiental povoada de princípios e conclusões perfeitamente aninhadas na identidade étnica gaélica interligada a um imaginário nativo americano. Uma irmã de clã de Emma Ruth Rundle, Chelsea Wolfe, Anna Von Hausswolff e Marissa Nadler com o toque demoníaco de David Eugene Edwards. (review completa aqui)

Disq – Collector (Saddle Creek)

Isto pode ser muito bem aquele disco de indie-rock que salva o indie-rock de si mesmo, o disco de indie-rock mais genuíno e franco que 2020 vai levar na boca. Os Disq fazem música como só aquelas bandas onde os seus membros estão acabadinhos de entrar nos seus 20’s, sabem fazer. De Madison, Wisconsin, os putos estudaram com a atenção de melómanos dedicados durante décadas. E agora contam tudo na sua própria linguagem.

Contam como os Pavement se fizeram catedráticos do slacker através dos seus ritmos semi-atabalhoados, como Kim Deal explicou ao mundo com que riffs de baixo se definem duas das maiores bandas da cena alternativa ou de que forma os Beatles têm culpa nisto tudo recorrendo a uma espécie de psicadelismo ruidoso e pop. Depois atiram com os Devo, Black Lips, Bowie, Bloc Party e Teenage Fanclub para um saco-de-gatos atado com uma corda romba pela mão de Frank Black e Elliott Smith.

Um lugar junto nas grandes revelações do ano já ninguém lhes tira, e se alguém vos disser que os Disq arranjaram logo espaço para se encaixarem, sem pedir licença, numa nova geração de bandas de guitarras, simplesmente acreditem e deixem-nos habitar o mesmo espaço que oferecem aos Sorry, ao Parquet Courts, Soccer Mommy ou aos Shame. (review completa aqui)

Marla Hansen – Dust (Karaoke Kalk)

Quem costumar ler as letras pequeninas nos discos talvez se recorde do nome Marla Hansen nas fichas técnicas de Sufjan Stevens, Jens Lekman e The National. Por terras que não a dela andou tanto tempo que quase permitiu ao esquecimento não mais recordar a sua carreira em nome próprio começada em 2007 com Wedding Day. O casamento com a sua própria música ficou em standby e só agora, 13 anos depois, Marla regressa com um novo disco.

“Dust” é feito de si mesma mas também, e como é natural, do tempo que deu e do que recebeu aos outros. Este é um disco seguro e sóbrio de algo mais do que simplesmente folk. No seu segundo trabalho – exceptuando a banda sonora do documentário The Other Half of Tomorrow -, Hansen reafirma a sua qualidade como compositora que sabe ir buscar ao tradicional, reorganizar as ideias em torno de um violino, de uma viola e da voz e fazer acontecer no fim canções de tranquilidade, de experiência, de consciência absoluta.

O disco termina com Marla a dizer “It’s my…” mas sem dizer mais do que isso. Ela sabe o que dela é, não vai a lado nenhum e nosso é agora, este monumento à arte de fazer canções. Para quem ama Aldous Harding, Kate Bush, Molly Burch e Big Thief.

Metal Preyers – Metal Preyers (Nyege Nyege Tapes)

Sem ilusões, o metal não mora aqui. Aqui mora-se numa savana de máquinas electrónicas pouco suavizadas, de predadores da noite urbana e da selva de concreto em contraste directo com uma africanidade industrial e de pesadelo.

Os Metal Preyers são a dupla do produtor londrino Jesse Hackett e do artista plástico e visual de Chicago, Mariano Chavez. Juntos há cerca de dois anos a trabalhar no projecto visual Teeth Agency, os dois engendraram um plano que consistia em levar o também produtor da capital inglesa, Lord Tusk, para o quartel-general da Nyege Nyege Tapes em Kampala, no Uganda, para darem à luz (negra em todos os aspectos e vertentes) o conceito de Metal Preyers.

Basta toda a atenção do mundo para descobrir ecos de guitarras de metal industrial, ambientes de grime mais escuros que o TON 618, os simples ritmos africanos, a gritaria maquinal dos Throbbing Gristle, mapas-estelares de drone, ritmos de post-punk descontruídos em debulhadoras fabris e ritualismos mágicos africanos. (review completa aqui)

Psychonaut – Unfold the God Man (Pelagic Records)

Agora sim, podem ter as ilusões que quiserem, porque o metal mora aqui. Num templo partilhado, mas mora. Os Psychonaut abrem os portões deste santuário com um cântico religioso que se derrete rapidamente numa barreira de peso, partilhando logo que o conhecimento da banda de Mechelen, na Bélgica, é amplo e abrangente num círculo de poder de peso e guitarras.

Em Unfold The God Man pensa-se em termos de conceito e de forma. Este é um disco de pensamento filosófico e espiritual para meditar sob tempestades apocalípticas de guitarras pesadas, planantes, melódicas, desesperantes. Os Psychonaut conseguem conjurar em pouco mais de 70 minutos os melhores líderes espirituais do post-rock mais pesado, do grunge, do post-metal, do sludge, de música tibetana e inuit, de drone e de algum psicadelismo sublinhando tudo isto.

Um disco para quem pode co-habitar os mesmos mundos dos Tool, dos Alice in Chains, Baroness, Neurosis, Godspeed You! Black Emperor e My Dying Bride. Desde já um dos discos essenciais do ano no que toca a sonoridades mais pesadas.

Honey Harper – Starmaker (ATO)

Starmaker é um disco sobre a viagem que é Starmaker. E isto não é estilo, é facto. Honey Harper, cowboy de rodeos sentimentais no espaço infinito além da exosfera, foi-se observando durante todo o processo de escrita do disco de estreia e faz um disco de country para pessoas que não gostam de country. E sim, a ossatura de que se faz estas estrelas é country, mas são tão apenas uma estação espacial de onde o músico faz decolar tantos outros satélites de amor quanto lhe é astronauticamente possível.

Os satélites de amor de Honey têm um toque plasmático, ganham contornos vários em contacto com o cheio que o seu universo é, enquanto ele vai recalculando as rotas de cada um dos temas consoante a direcção que necessita que a canção tome. Vai polvilhando com as doses de psicadelismo adequadas quando o destino é etereamente cósmico, com recordações levadas de passagens pelo Hawaii numa longínqua fase terrena em diálogo com Presley, com rock clássico da década de 70, com Graham Parsons, Roy Orbinson, com Chicago, até mesmo com a imensidão dos plateaux da era dourada de Hollywood e com homem supremo do espaço, David Bowie, e o seu acólito Brett Anderson. Demasiado bonito para ficar apenas a ver! (review completa aqui)

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