Numa semana em que os lançamentos de Caribou, Soccer Mommy, St. Vincent ou dos Wasted Shirt, novo projecto de Ty Segall, se revelaram potencialmente os mais mediáticos, na sombra que ocupa a maior parte dos lançamentos discos houveram que romperam os tecidos envolventes do óbvio ocupando o seu lugar especial nos nossos dias.

A nossa escolha de discos que não deves deixar de ouvir segue em baixo com Alabaster DePlume, Insect Ark, lié, Pefkin, siamgda, Sol Seppy e a portuguesa Monday. Mais uma vez a escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

Alabaster dePlume – To Cy & Lee: Instrumentals Vol. 1 (International Anthem)

A International Anthem ofereceu-nos em 2019, aquele que foi para a Tracker o segundo grande disco do ano. O álbum vinha então assinado por Angel Bat Dawid, multi-instrumentista de Chicago apostada em encontrar as pontas soltas que ligam o jazz, os espirituais negros e a improvisação a uma abordagem alternativa, por vezes mesmo dreampop. 2020 não se espera um ano menos rico na editora norte-americana e, para já, este To Cy & Lee de Alabaster DePlume segue de forma muito minuciosa, a fórmula sem regras de Angel. Um disco que das raizes jazz se abre para uma copa geográfica emplendorosa que tanto coloca cruzinhas no mapa-mundo através da música tradicional japonesa, da folk celta, de perfumes etnográficos que só a Etiópia sabe fazer nascer da terra, de uma ancestralidade global e daquela abordagem especial de Arthur Russel na fusão do melhor que o mundo tem para dar com a capacidade vanguardista de inserir todo esse globo na música alternativa. O mancuniano Alabaster DePlume, não precisa de palavras em To Cy & Lee: Instrumentals Vol. 1 para dizer ao que vem. E vem para conquistar novos territórios e um lugar para si quando se contarem as armas na altura dos discos do ano.

Insect Ark – The Vanishing (Profound Lore Records)

Dana Schechter tem um curriculo de fazer corar o diabo. Companhia de palco ou estúdio de Michael Gira dos Swans no seu projecto paralelo Angels of Light, dos Zeal & Ardor, dos Wrekmeister Harmonies, entre outros, e criadora dos Gifthorse e Bee and Flower  por onde passaram membros dos Bad Seeds, Iggy Pop, Calexico e Swans, Dana é ainda a força materna dos Insect Ark. Entre 2011 e 2015, este veículo de peso e pluma de pesadelo, foi um projecto a solo da norte-americana, expandindo-se em 2015 para um duo com Ashley Spungin que viria a ser substituido por Andy Patterson dos Subrosa em 2019. The Vanishing, terceiro longa-duração dos Ark, abre-se lentamente para uma paisagem de apocalipse sem oxigénio, sitio maldito que se recusa a definir estilisticamente sobrando apenas as certezas que os Insect Ark são uma pérola negra de maldições post-rock, post-metal, psico-psicadelismo sujo, doom metal de crateras shoegaze. Mesmo incrivelmente doloroso, irrespirável, sofrego e sufocante, um disco que deixa cicatrizes de sonho e beleza distorcida.

liéYou Want It Real (Mint Records)

You Want it Real?! You got it real!!!  Coisas que este disco não é: limpo, arranjadinho, temporalmente ajustado, simpático, complacente, arejado. Coisas que este disco é: bruto, feio, rouco, rude, rudimentar e revolto, fechado em si mesmo e sem vontade de andar a por paninhos quentes naquilo que fizeram do punk; coisa para meninos bonitos e estilosos. As lié são três miúdas de Vancouver que vão já no terceiro álbum, este You Want It Real onde apenas uma música ultrapassa a marca louca dos 3 minutos. São punk como o punk deve ser, são dark como o post-punk e o death rock devem ser, são senhoras para usar o niilismo como nome próprio e o sentido de necessidade de destruir como apelido. Atirem-se as zonas mais furiosas dos Sonic Youth, o riot demente das Babes in Toyland, o delirio bizarro das Lunachicks, a bandeira feminina de barba rija da Savages para dentro de uma betoneira e a façam-na girar ao som das Pussy Riot durante dias e o que sai de lá é este monstro sagrado do punk chamado lié. In Punk We  Trust!!!

MondayRoom For All (Street Mission Records)

Se na semana passada, André Júlio Turquesa se colocava a jeito para um passeio por géneros, tempos e locais no mundo e se assumia com Orgônio como um dos mais estimulantes e preciosos cantautores da nova geração de músicos portugueses, Cat Falcão relembra esta semana porque é, já desde há algum tempo, uma senhora maior da nossa pop de sensibilidade indie e dream. Metade das Golden Slumbers com a sua irmã Margarida, Cat lançou o disco de estreia One em 2018 e desde lá até aqui foi deixando a folk para outros sonhos e redesenhando-se enquanto conhecedora perfeita dos truques mágicos de como se fazer dreampop. Room For All é um quarto para todos, sim, mas para todos que se consigam soltar dos fios que fazem os dias mexerem de forma maquinal. Quase zen num sentido urbano de belezas concretas onde Falcão voa razante pelos telhados da cidade e pousa com a segurança de quem sabe que o céu está a uma canção de distância. Contradizendo os Boomtown Rats de Bob Geldof, “Tell me why
I DO like Mondays”? É por canções como “little fish”, “convictions” ou “i’m sleepy”… sim, em letras sempre pequeninas para não acordar ninguém do sonho por vezes quase cocteautwinsiano.

PefkinCelestial Navigations (morctapes)

Navegar assim é fácil. Não é preciso um astrolábio, nem um leme e nem sequer é preciso que exista um mar debaixo do navio. Para Pefkin, Gayle Brogan para quem navega de perto com ela, só é preciso uma dose de synths e uma rampa de lançamento para cruzar os objectos celestes acessíveis apenas a quem os deuses antigos segredaram as artes e artimanhas de como levantar os véus para o lado de lá. De voz quase sobrenatural em punho, a compositora escocesa abre caminho pelos caminhos impalpáveis do éter recorrendo a violinos, harpas, cítaras, saltérios, objectos  aleatórios, cozendo-os linha dourada em painéis de som montados através de sintetizadores analógicos e gravações de elementos naturais. Gayle Brogan leva já um horizonte sem fim de edições na sua discografia que ultrapassa a marca das duas dezenas de trabalhos desde a sua estreia com Asa Nisi Masa em 2005. Se Julianna Barwick, Grouper, Anna von Hausswolf, Julia Holter e Colleen são parte da vossa tripulação habitual para este tipo de viagens, é arrecadar já Pefkin para a equipa do próximo voo.

siamgdasymbiotic creatures (ant-zen)

Duas palavras: Noise e Yoga. Dois conceitos mais que assimilados, certo? Errado! Siamgda diz que não está tudo assim tão delimitado por conceito pré-estabelecidos e que yoga é possível recorrendo ao noise. Disse-o em 2017 no disco Noise Yoga e reafirma-o em 2020 como este symbiotic creatures, ponto óptimo de visionamento da alma recorrendo a microscópios de ruido, impulsos magnéticos de música do mundo, libertação industrial, espasmos dançantes compulsivos e exorcisantes. O músico electrónico alemão dá vida a um frankenstein laboratorial que tanto se alimenta das noites escuras da Bristol de Tricky e Massive Attack como de pistas de dança em bunkers assombrados por espectros da segunda guerra mundial com Ben Frost ou Tim Hecker ao comando de uma legião de batuqueiros tribais de uma constelação distante de outra dimensão. Electrónica étnica para a ritualização dos corpos simbióticos ou música para meditação dentro de uma tempestade nuclear na boca de um buraco negro. symbiotic creatures é onde a música tradicional de leste a oeste sem monta num roda de ventos ciclónicos. Impressionante exercício para quem arriscar sair da caixa das electrónicas mainstream.

Sol SeppyI Am As You Are, Pt 1 (Gated)

Sophie Michalitsianos só pode ser a singer-songwriter mais outsider de que há memória neste milénio. Verdade que as aparições da sua persona Sol Seppy são mais raras do que os eclipses totais mas a compositora inglesa não dá a cara só porque sim quando não tem nada de gigantesco para dizer. E desde o disco de estreia em 2006, Pssscheeow – como se chamasse baixinho à atenção –  só voltou a sair da sua toque de elemental nesse mesmo ano para contar The Bells Of 1 2. Entretanto Sophie casou, mudou-se para a Austrália, teve um filho, enviuvou, foi para os Estados Unidos para trabalhar com os Sparklehorse, casou novamente e agora está numa pequena aldeia na Grécia a fantasiar canções. Quatorze anos depois, Sol Seppy regressa com I Am As You Are, Pt 1, o seu terceiro álbum. Sophie desliza agora e novamente, sob a ténue luz do sol britânico, por entre a sombra doce e frágil de flores e plantas, por entre uma sensibilidade a espaços barroca, a espaços demasiado ténue e no limar do estilhaço emocional, sempre a roçar uma beleza sem palavras, ocupando um espaço de paz em constante fuga e encontro. Ou como ela bem explica: Deep within these songs is a meeting place. It’s an old home of everyone’s and I hope for it to be an anchor whilst we bob up and down in chop.