E lá estamos nós ainda em casa a ver os dias crescerem uns em cima dos outros e a darem espaço de reflexão e de crescimento emocional e intelectual. O tempo é o nosso melhor amigo em 2020, um amigo que nos dá espaço para ser, escutar, observar e reencontrar aquele espaço que tanta vez vai encolhendo quando a vida corre “normal” para descobrir discos, bandas e novidades que saltam fora do carrossel do hype. Por isso…

São oito os discos essenciais desta semana. Desta vez, escolhemos os discos de Blushh, Jarboe, Lido Pimienta, The Mystery Of The Bulgarian Voices Feat. Lisa Gerrard, The Pack A.D., Shabazz Palaces, Sylvain Chauveau e TONER, como aqueles que não devem deixar de ouvir. A escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

BlushhR.I.P. Apathy (Blushh Records)

Há piadas que correm mesmo, mesmo bem. Shab Ferdowsi escreveu uma canções em 2015 antes de se meter num avião a caminho da Irlanda onde ia passar um mês. Não era giro ter um par de músicas para andar busking pelas ruas de Galway? Era e foi. Mas o melhor mesmo é que Shab ganhou-lhe o gosto e começou a escrever todos os dias até se tornar parte de uma banda de amigos na sua Los Angeles depois de regressar da Europa. Cinco anos depois e dois EP’s na mochila, os Blushh chegam ao primeiro álbum com um copnjunto de canções que se balançam entre a capacidade única de deitar olhares veraneantes à desesperança crónica da juventude usando apenas uma das armas mais antigas de que há memória contemporânea: a força de uma guitarra na frente de batalha. Os Blushh não precisam de descobrir a pólvora para fazer explodir canções que sabem de cor as cores da pop, o rasgar nada mansinho do rock alternativo da década de 90 e a eficácia pura de uma estrutura punk com canções quase sempre a rondar os 3 minutos, umas para cima e outras para baixo. Do som de uma banda de uma banda de amigos numa garagem até hinos do tamanho do oceano que banha a zona costeira de LA, os Blushh sabem fazer de tudo com uma mestria acessível apenas a alguns escolhidos pelos deuses do rock. Para quem ama Wolf Alice, Smashing Pumpkins e Pixies é deixar a apatia para trás e agarrar os Blushh nestes primeiros passos de gigante.

JarboeIllusory (The Living Jarboe)

Falar de Jarboe é apontar na direcção do real significado de vanguardismo. Figura tão essencial – ou quase tão – essencial ao ADN de boa parte da carreira dos Swans de Michael Gira, a norte-americana deixou a sua marca gravada a punhais de sangue e experimentação soturna na obra dos Jesu, de Neurosis, Justin Broadrick, A Perfect Circle ou Kirlian Camera, só para referir algumas das quase incontáveis colaborações que Jarboe La Salle Devereaux tem vindo a coleccionar desde a década de 80. Illusory, a complicada contagem diz que será o 33º ou 34º longa-duração de ou com Jarboe, insiste em dificultar descrições conduzindo as almas audazes e sem medos do sobrenatural, através de uma cartografia de música ritualistica, ambiental, devastadoramente negra, por vezes sacra e espiritual, outras absolutamente pagã ou herética. A viagem parte e termina nos dois pontos mais lineares – ou o mais próximos possíveis de um conceito estanque de canção -, o tema título e “Man Of Hate”, colocando todas as tormentas (experimentais e clássicas) no meio como obstáculos que são necessários ultrapassar para voltar a uma realidade mais ou menos concreta. Jarboe chama os seus fieis para mais uma peregrinação ao lado mais obscuro do real caminho para a irrealidade. Uma odisseia de horrores que a reafirma enquanto feiticeira medular e mãe de sacerdotisas recentes como Lingua Ignota, Zola Jesus ou Emma Ruth Rundle.

Lido PimientaMiss Colombia (ANTI- Records)

O novo disco da canadiana Lido Pimienta pode bem ser a versão 2020 do fenómeno estranho que foi ver Rosalía transcender tudo e todos e atingir o patamar de salvadora, reinventora de um estilo tradicional de um país e senhora absoluta da reapropriação de um género. Não fosse este ano existir já um álbum saído do mesmo laboratório onde Raül Refree fez de Rosalía aquilo que fez – aliás dois, já que o produtor espanhol este ano inventou duas obras-primas, Names of North End Women com Lee Ranaldo e Lina_ Raül Refree onde explica que o fado está no futuro pronto a ser uma nova linguagem -, este seria desde já o disco onde a ocidentalidade se encontra com a música tradicional e transforma ambas na mesma língua. Lido Pimienta inventa formas de fazer as fronteiras da música colombiana encontrarem-se com a pop, com a electrónica, com o jazz. Muito além de fazer sentir que a cumbia e o reggaeton são bases de partida, Pimienta faz acreditar que nada disto da separação de estilos ou leituras faz qualquer sentido. Miss Colombia – título inspirado pelo sketch real que aconteceu no concurso de Miss Universe em 2015 onde a candidata colombiana foi anunciada a vencedora por engano do apresentador -, na verdade, não funde nada porque o todo das partes acaba e termina na vontade e na capacidade de não se impor nem fronteiras, nem limites. Disco do mundo para o mundo reaprender a ler e a ser o mundo.

The Mystery Of The Bulgarian Voices Feat. Lisa GerrardShandai Ya/Stanka (Prophecy Productions)

As Misteriosas Vozes Búlgaras – aquele colectivo de vozes femininas que a 4AD colocou nos olhos do mundo em 3 volumes obrigatórios na história da editora, entre 1987 e 1991 -, estiverem em hiato cerca de 20 anos depois da morte do seu produtor Marcel Cellier. O regresso às novas gravações aconteceu em 2018 com BooCheeMish, disco que contava com a participação de Lisa Gerrard. Uma nova vida era dada a um dos grupos mais influentes tanto na cena da world music como da cena independente – a forma como os This Mortal Coil, Cocteau Twins ou os Dead Can Dance definiram a sua sonoridade tem uma dívida impagável com as Le Mystère des Voix Bulgares –  trazendo as raízes da música e dos instrumentos da Bulgária ao encontro de uma modernidade subtil que não retira nada da avalanche emotiva que caracteriza o grupo, exponenciando ainda mais a complexidade e a riqueza de um legado de séculos. Shandai Ya/Stanka dá continuidade ao trabalho do disco de há dois anos com cinco novas versões de temas de BooCheeMish aos quais acrescentam uma versão de “Rite Of Passage”, de e com Lisa Gerrad, e “Zaidi Sluntse”, uma parceria com o beatboxer SkilleR. A magia é atemporal e este disco é uma página importante e contundente de que o passado está exactamente no ponto do tempo que cada um quiser.

The Pack A.D.It was fun while it lasted (Edição de Autor)

Foi bom enquanto durou, mas foi também um percurso injustiçado. As The Pack A.D., voluntaria ou involuntáriamente, passaram os últimos 14 anos sempre numa sombra que deveria ter sido banhada pelo sol bastante mais do que aquilo que foi. De Toronto, Maya Miller e Becky Black foram descarregando paredes maciças de som, sendo mais uma prova real de que são precisos dois para dançar o tango mas também chegam dois para fazer todo o barulho do mundo. Oito álbuns em década e meia de garage rock, de blues apunkalhado, de pedacinhos de post-punk aproveitado para acinzentar os elementos mais rootsy do rock que o duo espalhava com savoir faire e classe e as The Pack A.D. fazem play no canto do cisne com mais um grande disco, se não mesmo um dos trabalhos mais apurados que lhe saíram dos amps em constante explosão ao longo da carreira. Um adeus agridoce que deixa aquele travo na boca em suspenso à espera de um comeback com muito mais reconhecimento. “It’s Okay” dizem elas… certo, mas até já, sim? Para quem ama The Black Keys, Jack White e Band Of Skulls.

Shabazz PalacesThe Don Of Diamond Dreams (Sub Pop)

O disco novo dos Shabazz Palaces não é bem o disco novo dos Shabazz Palaces. Para clarear a confusão, claro que o disco novo dos Shabazz Palaces é o disco novo dos Shabazz Palaces, mas o que falta aqui para ser o disco novo dos Shabazz Palaces é metade dos Shabazz Palaces. The Don Of Diamond Dreams é o primeiro álbum da banda de Seattle que conta apenas com Ishmael Butler, ficando de fora da escrita e da gravação do disco, Tendai Maraire. E se se nota? Nota, pois. Se é pior? Nem de perto, nem de longe. O ex-Digable Planets agarra no seu dom e constrói um disco de diamantes que se estão em bruto, é porque a mina de Butler dá dos melhores diamantes que o hip-hop que se borrifa bem para o hip-hop – mas só que não – tem para oferecer a um mundo em declínio rápido. O delírio esquizofrénico que vem sendo a espinha dorsal dos Palaces, continua presente apesar de Diamond Dreams se colocar numa posição de fragilidade incomum da qual sai retumbantemente vencedora. Uma sonoridade reduzida a mínimos, produção suja e rude e uma lofiness que assenta a tudo de uma forma inesperadamente rejuvenescedora. O experimentalismo ao serviço da vontade de ser ainda mais experimental sem se perder a rota que cruza os vários territórios da música negra contemporânea. Uma vénia a este Don Of Diamond Dreams.

Sylvain ChauveauLife Without Machines (FLAU)

Inspirado na série de pinturas do abstracionista Barnett Newman, The Stations of the CrossLife Without Machines é um conjunto de breves temas para piano escrito pelo compositor francês Sylvain Chauveau e tocado pela compatriota Melaine Dalibert. Uma meditação minimalista delicada, porém inquebrável, sobre a adição da modernidade pela tecnologia, colocando a humanidade e a vida no planeta como um doente terminal numa sala de cuidados paliativos. A ligação aparente a uma necessidade vital de tudo canalizar através do digital e maquinal é, segundo Chaveau, uma falsa realidade que se vai desmontando aos poucos face à perigosidade da equação que se vai escrevendo no quadro preto do mundo. Máquinas que consomem energia humana e não humana, que requerem um (ab)uso colossal de energia, principalmente nascida dos combustíveis fósseis, cuja combustão envia constantemente CO para a atmosfera. A inevitabilidade do final de uma era e um regresso a um estado natural, orgânico e simplificado da existência face a uma morte anunciada e ignorada. Life Without Machines é feito de 15 temas (14 mais uma faixa bónus) como analogia ao jardim de pedra de Ryoanji, em Kyoto, onde existem 15 pedras, mas de qualquer ponto de vista, só se pode ver no máximo 14 ao mesmo tempo. Em Life Without Machines impera uma beleza misteriosa e silenciosa, um nervoso pequenino, um entendimento ainda quase virgem da força da contemplação. E se um dia tudo se despir desta forma, a forma de tudo volta ao início. Para quem ama Hauschka, Max Richter e Library Tapes.

TONERSilk Road (Smoking Room)

O caminho pela Silk Road dos TONER é feito em tons lineares de shoegaze, de dreampop ruidoso, de sunny punk  e de uma vontade sincera de fazer barulhinho bonito. A herança que eles trazem é a dos Ride, dos Teenage Fanclub e dos Ringo Deathstar, mas é também a de algo que vem inerente àquelas paredes de noise que os Hüsker Dü, os Flipper e os Fugazi ofereceram a uma geração sedenta de revolta. Longe de ser um disco perfeito segundo as normas dos discos perfeitos, os TONER enrolam-se numa produção descomplicada e lo fi transportando todas as bandeiras do DIY em punho enquanto descarregam temas leves e coloridos. Há vozes fora de tom? Então não há! Há guitarras que parece que lhe fugiu a afinação? Claro, é só escutar com alguma atenção. A secção rítmica parece aqui e ali trapalhona? Parece, mas também parece apostadíssima a ser o mais crua e sincera que lhe for possível ao longo de todo o tempo que se demora a conduzir Silk Road afora. Descomprometidos, honestos e com uma vontade cristalina de se divertirem, os TONER surpreendem pela forma como não estão nem aí para nada… e ao mesmo tempo possuem uma capacidade inata de fazer canções com C de Silk.

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