Com a semana a dar o último suspiro voltamos a observar os lançamentos de álbuns dos últimos sete dias. Espreita-se para fora da caixa e dos neons e metendo a cabeça de fora das águas infestadas de mediatismo dos nomes maiores, escolhe-se uma ou duas mãos cheias de discos que não podem ser esquecidos.

Numa semana fortíssima de lançamentos com discos novos de Grimes, King Krule, Best Coast, Agnes Obel, Lanterns On The Lake, Six Organs of Admittance e Guided By Voices é essencial arranjar tempo para se permitir ser surpreendido e descobrir. A nossa escolha de discos que não deves deixar de ouvir segue em baixo com Alphafox, Califone, Douglas Dare, Greg Dulli, Humanist, Lee Ranaldo & Raül Refree, Rebecca Foon e o português André Júlio Turquesa. Mais uma vez a escolha de links para a escuta dos discos recai sempre que possível no Bandcamp de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

Alphafox – La Haine (DOMEOFDOOM)

Alphafox edita o seu álbum de estreia, e de dentro de um estranho cocktail molotov de hip-hop, electrónica, trap e experimentalismo vai desfiando um disco de tensão violenta mas contida, de exploração de elementos sónicos díspares e cinematicamente futuristas. Com a mira nas tensões raciais, na luta de classes, na bestialidade do ser humano, o californiano vai disparando beats e balas de ruído feitas da mesma matéria-prima que ajuda a moldar o trabalho de Oneohtrix Point Never, de DJ Shadow, Flying Lotus, Actress e Blanck Mass. Um disco obrigatório de vanguarda e desconforto. (review completa aqui)

 

André Júlio Turquesa [PT] – Orgônio (Planalto Records)

De Portugal sopram ares de bons ventos de flamenco, de canções infantis de todo o mundo, do amarelo torrado do interior norte-americano, de bossas partilhadas debaixo da frescura quente de Copacabana, de uma Lisboa que se esvai nos tons de final do dia no Tejo, num Porto que se perde na sombra colorida das vielas da Ribeira, de uma dança em Paris com um “Super-herói” ou de um lamento oceânico numa vila piscatória nos Açores. Chegam com tudo isso também os ecos de John Fahey, Scott Walker, Nick Drake, Sérgio Godinho, David Fonseca, Jobim, Manel Cruz, Perry Blake ou Asaf Avidan.  (review completa aqui)

 

CalifoneEcho Mine (Jealous Butcher Records)

Sete anos depois de Stitches, os Califone regressam sem pompa nem circunstância, felizmente e como sempre, mas com a classe e a capacidade de encontrar fissuras no seu livro de estilo para irem forçando mais excelência a uma carreira exemplar e, verdadeiramente, independente. O último bloco colocado pelo agora trio no edifício imponente da discografia dos Califone – além de Tim, fazem parte da banda o produtor Brian Deck e Ben Massarella dos Modest Mousse – chama-se Echo Mine e foi escrito para uma performance de dança de Robyn Mineko Williams, coreógrafo norte-americano. (review completa aqui)

 

Douglas Dare – Milkteeth (Erased Tapes)

Em 2020, o músico inglês faz questão de ainda manter os dentes de leite e continua desviantemente inocente a olhar para tudo o que é dor ou pesadelo de menino – crescido ou não –, com o espanto maravilhoso de uma criança. Milkteeth, terceiro álbum da carreira e na casa da Erased Tapes, Dare recorre pontualmente menos ao piano e à electrónica e equilibra o seu neo-classicismo numa abordagem folk pouco denunciada, filha de uma visão muito pessoal da escrita de canções. (review completa aqui)

 

Greg Dulli – Random Desire (BMG)

O segundo longa-duração de Greg Dulli soa a outra página de um diário sem cadeado: uma página de guitarras de distorção que soam a Dulli, de guitarras folk assombradas pela memória da revisitação ao cancioneiro moderno norte-americano feito Johnny Cash, daquela voz que vem desde os anos 90 a cantar o pecado de tudo com a alma pura de quem não tem crença em nada mais do que as suas canções. (review completa aqui)

 

HumanistHUMANIST (Ignition Records)

O humanista é Rob Marshall, guitarrista dos extintos Exit Calm, e o humanista é um criador por excelência. Um disco onde desfilam uma série de convidados nas vozes, uns mais veneráveis, outros menos, uns do espectro musical, outros de outras artes. O poeta Carl Hancock Rux, John Robb dos The Membranes e fundador da revista Louder Than War, Mark Gardener dos Ride e Ron Sexsmith, são alguns dos nomes desta parada de vozes que tem em Dave Gahan dos Depeche Mode e em Mark Lanegan as estrelas maiores do firmamento que resolveu pintar (quase) a solo. (review completa aqui)

 

Lee Ranaldo & Raül RefreeNames of North End Women (Mute)

Depois de ter dado cabo do flamenco ao lado da Rosalía e do fado ao lado da Lina, Raül Refree agora rebentou com o que vinha a ser a carreira toda de Lee Ranaldo nas últimas 4 décadas. Deus abençoe a destruição maravilhosa que tem vindo a fazer nos últimos anos. (review completa aqui)

 

Rebecca Foon – Waxing Moon (Constellation Records)

Foon é parte dos A Silver Mt. Zion, co-fundadora dos Esmerine, colaboradora de Colin Stetson na Gorecki Symphony of Sorrow, esconde-se por trás da personalidade alternativa Saltland, passou pelos Set Fire To Flames e isto só sem sair da sua rua porque quando saiu já largou a sua arte em discos dos British Sea Power, Patrick Watson, Nick Cave, Carla Bozulich ou Vic Chesnutt. Cansados?! Imaginem ela. E mesmo assim deixa-se afundar sobre a luz encerada de uma lua imperial. (review completa aqui)