São nove os discos que esta semana se perfilaram como os destaques maiores de sete dias de dezenas de títulos que nos cairam nos players. It’s a dirty job mas alguém o tem de fazer 😉 E fazemos com prazer já que mais uma vez, os caminhos com álbuns superiores – três deles com lugar assegurado  desde já na meta dos grandes discos do ano – se cruzaram connosco numa travessia de som e descoberta.

Desta vez, a escolha recai sobre Austra, Caleb Landry Jones, Damien Jurado, Field Works, Ghostpoet, Houses of Heaven, Offthesky & The Humble Bee, Ride e Spheruleus. Como sempre, a escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp – salvo excepções que não estejam na plataforma -, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

AustraHiRUDiN (Domino Recording Co)

A importância de ser cura, A cura. Katie Stelmanis transforma em palavras e notas a vida e pós-vida de um relacionamento tóxico. Não estamos na presença de canções sobre um coração partido, estamos de frente para canções que vão muito mais fundo nas fissuras que uma relação de domínio e humilhação provocam na vítima. Vítima, sim, o termo é vítima. Ao quarto longa-duração, a canadiana envolve-se de forma nua num relato pessoal e intransmissível sobre a dor e o trauma, sobre a luz que emana de dentro depois da força descer e de se abandonar os campos de concentração deste tipo de relações. Musicalmente, em HiRUDiN – um anticoagulante produzido pela sanguessuga que o insere para inibir a dor no processo de sucção do sangue – Austra arrisca, com uma sensação de naturalidade e impulso, amplificar o espectro de estéctica sonora que era linha de trabalho nos anteriores Feel It Break, Olympia e Future Politics. A pop é a pedra basilar, sim, apesar de as canções afirmarem a potencialidade de crescimento que Stelmanis tem desde sempre e arriscarem-se por novos territórios. Sem deixar de usar os ingredientes de french pop, do electropop de 80s e de uma, muito pessoal, capacidade de inserir o operático na simplicidade electrónica, Austra coloca-se agora num mundo de (muito mais) fantasia sonora como antibiótico para obliterar o real. Para facilitar a visão antes de entrar na corrente sanguínea de HiRUDiN diga-se que Katie fecha um quadrilátero onde estão Florence Welch, Grimes e Kate Bush nos restantes vértices.

Caleb Landry Jones – The Mother Stone (Sacred Bones Records)

Disco de estreia de alguém a quem já se conhece o rosto e a voz, mas que pela primeira vez reúne em disco um conjunto de canções que praticamente fazem esquecer a sua carreira no cinema e na televisão. Caleb Landry Jones foi Steven Burnett na última série de Twin Peaks de Lynch, foi Bobby Wiggins em The Dead Don’t Die de Jarmusch, Red Welby em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri ou Jeremy Armitage em Get Out. Caleb Landry Jones é agora Caleb Landry Jones, um exorcista desorientador, exaustivo, axiomático e imponente, compositor de um disco que é, deve ser, tem de ser, não há como não ser um clássico contemporâneo. The Mother Stone – disco de estreia do norte-americano -, carrega em si o peso de décadas de música, o peso colossal da gravidade de mais do que homenagear heróis de antes, ombrear de forma monumental com cada um deles. Parece heresia? Podem acender já a fogueira, mas o que vai arder é as certezas que se podem ter antes de ouvir o longa-duração do actor/compositor editado pela Sacred Bones.

Escrito depois de um relacionamento que deu para o torto, Caleb enfia-se no seu celeiro e começa a escrever e a escrever e a escrever até ter cerca de setecentas músicas prontas, mais do que muita gente tem em discografias de anos, e, confiando nas 11 que Landry alinha neste álbum, nasce para a eternidade um génio. Devedor em tudo à obra de Syd Barret, de Tom Waits, de Bowie, de Captain Beefheart ou da era entre 65 e 68 dos Beatles, Caleb Landry Jones carrega no pedal, acelera e coloca-se um passo à frente da concorrência, ou no mínimo, a coexistir lado a lado com os psicadelistas e reprodutores de memórias passadas de hoje, como Tame Impala e Flaming Lips. Um disco para a história do ano que corre devagar e dos que aí vêm. Impressionante!

Damien JuradoWhat’s New, Tomboy? (Mama Bird Recording Co./Loose Music)

O que há de novo? Bom, na verdade, há pouco de novo, mas Damien Jurado precisa de pouco para fazer muito. As canções de What’s New, Tomboy? parecem uma consequência e extensão natural de In the Shape of a Storm de 2019  – um dos 270 discos de 2019 que devias ter ouvido e não ouviste… ou ouviste? – e de The Horizon Just Laughed de 2018, como uma sequência de praias ou de planícies sem fronteiras em locais pouco usados e abusados pela civilização. Tal como a capa do disco indica, há gente aqui em casa: há uma intimidade caseira, um calor humano que de quando em vez recebe amigos – Tomboy acrescenta bastante mais instrumentos e arranjos do que o seu antecessor, apesar de ainda se manter a usar os serviços mínimos da voz e guitarra de Jurado na grande parte do tempo e nas estrutura essencial dos temas -, e acima de tudo, há uma familiaridade com as questões pessoais e gerais que o músico norte-americano observa de dentro da sua poesia. O que há de novo? Bom… nada, mas nada de novo em Damien Jurado é muito.

Field Works – Ultrasonic (Temporary Residence Ltd.)

São morcegos o que ouves aqui. Sim, morcegos. Stuart Hyatt, a figura central do projecto Field Works, nem precisou quase de sair do quintal para assinar mais um tratado de música feita com base em field recordings. Partindo de gravações de morcegos do Indiana, uma espécie em perigo, o músico e artista multidisciplinar monta um desfile da mais fina flor da cena experimentalista em torno de uma homenagem aos pequenos bichitos. Felicia Atkinson, Eluvium, Mary Lattimore, Jefre Cantu-Ledesma e Sarah Davachi  são apenas alguns dos nomes que criam um mundo de maravilhas de sonho e realidade através do trabalho de Hyatt criando música original através dos ultrasons feitos pelos morcegos. De uma sensibilidade e de uma leveza elevatória, Ultrasonic – e toda a obra de Field Works – é possivelmente, a par dos Dark Morph de Jónsi, figuras exemplares na simbiótica entre a tecnologia e as fontes inesgotáveis de tudo que a Natureza tem para oferecer no que toca ao campo da composição musical. Um disco tocante para quem se sente mais próximo das questões ambientais, um disco relaxante para quem apenas procura um pedaço de beleza bruta, mas um disco essencial para quem tem predisposição para simplesmente estar e ouvir e partir para um estado de mente longe daqui.

GhostpoetI Grow Tired But Dare Not Fall Asleep (Play It Again Sam)

Dez anos como Ghostpoet e Obaro Ejimiwe continua a ser um espectro estranho e não ajustável a lado nenhum. Se fosse necessário encontrar um elo perdido no urbanismo inglês que conectasse o eixo Massive Attack/Tricky aos The Cure e a correntes jazzisticas, o trabalho de Ghostpoet estaria lá para assegurar que as pontas se juntavam em seu redor. I Grow Tired But Dare Not Fall Asleep não é um disco luminoso, mas também não é um disco invernoso, é sim, um disco de reflexões. Sobre a depressão e os estados de perdição, que se debruça sobre os extremismos políticos, sobre estados baixos vibracionais que condicionam a mente humana, sempre por meio de composições despojadas de instrumentações pouco orgânicas e pintando a tons de cinza, negro e vermelho, cores correntes ao longo de toda a obra de Ghostpoet, um estado de alma pessoal e colectivo. A música do novo trabalho de Ejimiwe não rompe em nada com a sua história, mas dá continuidade a uma obra homogénea e a um som que é tão-somente Ghostpoet.

Houses of Heaven – Silent Places (Felte)

O submundo do post-punk e do industrial tende muitas vezes – muito mais o primeiro do que o segundo – a revisitar fórmulas até a um ponto de exaustão que transborda demasiadas vezes para um reaproveitamento vazio de uma fórmula. Os californianos Houses Of Heaven exceptualizam-se a isto, disponibilizando-se como um dos tentáculos mais criativos e crus entre as novas bandas dos dois géneros. Ali, entre a rispidez nublada dos The Soft Moon e a capacidade inventiva de Trent Reznor, a banda de Keven Tecon, Adam Beck e Nick Ott cria camadas de sintetizadores rasgadas por uma poderosíssima capacidade percussiva e incisões de guitarras cirurgicamente colocadas de forma a acrescentar textura a toda a muralha de som que os Houses Of Heaven desenham meticulosamente. Escrito durante os fogos florestais que têm arrasado a California, Silent Places pensa sobre os acontecimentos internos decorrentes do caos da vida moderna. Acrescentando sensualidade e libidinosidade à claustrofobia e a ansiedade, os Houses Of Heaven acendem uma luz negra de presença no panorama synth-punk-industrial de forma a assinalarem-se como um dos melhores nomes da cena actual.

Offthesky & The Humble BeeWe Were the Hum of Dreams (laaps)

We Were the Hum of Dreams é a terceira instalação de um projecto único, a Laaps Records. Nascida das cinzas de um outro projecto similar, a Eilian Recs, a editora tem um ponto de partida e um ponto de desaparecimentos. Cada disco começa onde acaba o seu antecessor e todas as capas se encaixam umas nas outras como um imenso puzzle que só fica completo quando estiverem editados todos os 100 títulos que farão parte da viagem que é a Laaps. Por cada época do ano são editados dois discos, por isso, a estação final está ainda muito longe de ser vista daqui. O primeiro foi ea do The Alvaret Ensemble – com a portuguesa Joana Gama -, o segundo foi II dos Fean, fechando o primeiro ciclo de inverno, e o da primavera desponta com esta peça de filigrana que é We Were the Hum of Dreams., um encontro (repetido) entre Jason Corder, o homem que se transforma em som através dos Offthesky, e Craig Tattersall, a abelhinha tecedora de magia de The Humble Bee. Sempre na constante sensação que algo se vai quebrar, o disco vai-se abrindo de par em par como as pétalas de um sonho naturalista inebriante e indutor de serenidade e beleza. Se quem ama Sigur Rós, a vulnerabilidade mística de muito do catálogo da Morr Music ou Cocteau Twins passar ao lado de Hum of Dreams, não é merecedor do dom de sonhar… acordado ou não. A calma mora aqui, é esticar esta manta de paz e ficar o mais próximo possível do pulsar da Terra.

Ride – Clouds In The Mirror (This Is Not A Safe Place reimagined by Pêtr Aleksänder) (Wichita Recordings)

Os Ride voltaram à carga em 2017 com Weather Diaries, reafirmando-se como um dos nomes fundamentais no estudo das fundações do shoegaze, da dreampop e de alguma neo-pop psicadélica. Dois anos depois editam This Is Not A Safe Place – um dos nossos 270 discos de 2019 que devias ter ouvido e não ouviste… ou ouviste? -, que agora é recriado pelo duo Pêtr Aleksänder do produtor Eliot James e Tom Hobden dos Noah & The Whale. Todos os temas do disco do ano passado da banda de Oxford são transformados em peças completamente novas de paredes de violinos, pianos e electrónicas ambientais deixando para trás qualquer miragem do que eram os originais e colando-se a uma estética habitualmente encontrada em projectos como os A Winged Victory For The Sullen, Library Tapes ou Max Richter, mas mantendo sempre as bases vocais de Mark Gardener. Clouds In The Mirror reflecte This Is Not A Safe Place num mundo completamente distinto e que deixa em suspenso, com alguma excitação aventureira, que os Ride possam no futuro inserir algumas das ideias que Hobden e James desenvolvem aqui sob a sua música.

Spheruleus – Home Diaries 006 (Whitelabrecs)

À semelhança do projecto da Laaps – ver em cima o disco de Offthesky & The Humble Bee -, as Home Diaries são também um conceito com data marcada para desaparecer. A Whitelabrecs, casa de material ambiental plenamente divinal e que merece visitas regulares ao seu catálogo, convida músicos para sonorizarem o seu momento de distanciamento social e lockdown e escreverem álbuns e EPs mantendo sempre o foco no isolamento e na forma como a vida se desenrola impávida e serena apesar de todas as alterações no quotidiano de cada um dos músicos. Home Diaries é já o sexto capítulo desta história de tranquilidade e sossego e leva a assinatura de Spheroleus, o fundador da editora e compositor com edições espalhadas por N outras labels de peso no universo da música ambiental, experimental ou vanguardista. Neste diário de bordo, Harry Towell embarca por ribeiros plácidos de folk peneirada pelas lentes da electrónica e de uma natural fluidez experimental. Para quem ama Sufjan Stevens e Brian Eno.

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