Valha-nos discos assim… e dias grandes para os ouvir! Uma semana de luxo com alguns dos melhores álbuns que ouvimos este ano e com carimbo no passaporte para regressarmos a eles várias vezes durante o resto do ano.

Sem nenhum lançamento daqueles nomes grandes a sair nos sete dias que nos separam da colecção da semana passada e com o tempo ainda todo em aberto para ouvir música e esgaravatar nas franjas, são nove os discos essenciais desta semana. Desta vez, escolhemos Bad History Month, Finlay Shakespeare, fra fra, Marlin’s Dreaming, Moor X Jewelry, Other Lives, zeroh e, em português do lado de cá e de lá (dependendo o lá e o cá se se está em Portugal ou no Brasil), os gigantescos álbuns de ÀIYÉ e Galgo. Como sempre, a escolha de links para a escuta dos discos recai no Bandcamp – salvo excepções que não estejam na plataforma -, de forma a promover a proximidade da compra material do álbum.

ÀIYÉ (BR)GRATITREVAS (Balaclava Records)

ÀIYÉ – na língua yorubá, dialecto basilar das religiões afro-brasileiras, significa Terra ou mundo físico – é Larissa Conforto, e Larissa Conforto não (devia) precisa(r) de introdução nenhuma. Ex-baterista dos Ventre, banda carioca que assinou dois dos maiores discos da cena independente brasileira deste século, Larissa troca o Brasil por Portugal em 2019 depois do final da sua banda. A abertura profunda à umbanda num mergulho essencial na espiritualidade em busca da libertação e da sublimação, descobre novas instrumentações pelo estudo e pelas colaborações e descobre-se, todos os dias, fora das zonas de Conforto.

GRATITREVAS, o disco de estreia da compositora, rompe ordens e sistemas de som, uma espécie de comida de santo ofertada ao mundo concreto e ao mundo que não se vê. Cozinhado sobre uma diversidade de elementos espalhados sobre um horizonte de tanta coisa diferente, Larissa olha olhos nos olhos o Eu e o Tu e o Nós, o globo, a alma, o povo, os líderes (os do lado de cá que queimam as instituições básicas da vivência das suas vítimas e os do lado de lá que encaminham e acarinham os seus filhos), a sabedoria da experimentação e da descoberta.

A música que ÀIYÉ conjura aqui crepita por entre universos e cruza-se com entidades incorpóreas e inspirações terrenas. A percussão encontra-se com a tecnologia, as raízes da riquíssima tradição musical brasileira desbrava o mato da experimentação, uma pop espiritualmente densa dança com uma negritude tribal inerente ao povo brasileiro. Pense-se numa colaboração entre Björk e Criolo ou os BaianaSystem com Zola Jesus e os Massive Attack e temos um novo paradigma evolutivo a nascer pela mão de Larissa Conforto. Mas tal como ela afirma em entrevista à Hits Perdidos: «Filho, quando nasce, já não é mais seu, é do mundo». Gratos pelas trevas!

Bad History Month – Old Blues (Exploding In Sound Records)

Os Bad History Month são essencialmente Sean Sprecher, um contador de histórias, um cantador de canções, uma personagem real transposta para o papel e para as linhas das pautas onde cresce a sua escrita… como heras numa casa afogada em verde e em sensibilidade e compreensão. Um herói quase nada louvado da cena alternativa norte-americana, Sprecher afirma-se ainda mais como tal, num disco onde se dá espaço para se sentir on the blues, todavia em pleno acto de sungazing lá fora numa cadeira de praia velha e rota com vista para uma parede de árvores.

Liricamente Sean, um colega de armas do mesmo tipo de poesia bafejada pela vida verdadeira de Elliot Smith ou David Berman dos Silver Jews e Purple Mountains, expõe-se à aprovação de que a tristeza e a dor estão aqui, são nossas e uma companhia como um Old Blues. É este um disco de folk desorientada, de slowcore um pouco mais acelerado, de geek rock sem muitos amps? É. Old Blues cresce imparável e lento pelas paredes da alma até tomar conta de tudo. Para quem ama Pavement, Sparklehorse, Car Seat Headrest ou Mountain Goats mas, principalmente um álbum para quem tem a capacidade de estar, parar, ficar, fidelizar e ver crescer uma obra individualista na concepção e no objectivo.

Finlay Shakespeare – Solemnities (Editions Mego)

Nervoso, caótico, rugoso e perturbador. O synth-pop não devia ser assim, pois não? Devia, pelo menos aquele que se mantém numa relação fiel com as suas origens minimalistas e mais synth do que pop. Finlay Shakespeare orgulha-se em Solemnities de viver nesse passado e saber lê-lo de uma forma que é tão actual e abrangente quanto a permissão que se dá a si mesmo para não se desviar quase nem um milímetro dos trabalhos iniciáticos que lhe abriram os mundos dos Depeche Mode, P.I.L., Talk Talk e Gary Numan. O sucessor de Domestic Economy de 2019 – um trabalho muito mais próximo do electropop e dos new romantics da década de 80 -, sofre de um síndrome nostálgico fuzilado à queima-roupa em laboratório e trabalhado para se tornar num marco da pop sintética – e não synth-pop – contemporânea. Shakespeare declama arranjos industriais e de electronic body music sem qualquer cerimónia e sem perder, de forma única, uma capacidade de manter a melodia – mais ou menos desconstruída – como linha condutora. Hinos para uma igreja retro-digital para quem ama Boy Harsher, Trust!,The Soft Moon e John Maus.

fra fra – Funeral Songs (Glitterbeat Records)

A música de caracter etnográfico desenvolve-se tantas vezes como pilares do dia a dia de povos e culturas. As épocas de colheita e semeio são cantadas, os nascimentos e as mortes têm sempre uma banda-sonora associada. Seja como gratidão, respeito, temor ou para encaminhar os desaparecidos na direcção do além em questão da cultura em questão, a música é quase tão antiga como a necessidade de um deus, de uma entidade superior que dita as regras de conduta e castigo, tão intrinsecamente conectada às raízes de um povo como os dialetos e as crenças religiosas e espirituais.

Funeral Songs regista em disco os cantos e sons dos fra fra, quarteto da região de Tamale no Ghana, que acompanha as procissões fúnebres da região. A Glitterbeat Records –  que ainda há duas semanas lançou o disco de Orkesta Mendoza de Sergio Mendoza dos Calexico, um dos 10 Discos da semana que devias ter ouvido! -, edita esta recolha feita em território ganês por Ian Brennan, o homem responsável pela gravação do nosso 20º melhor disco do ano, RWANDA, you should be loved dos The Good Ones. Canções que gritam espiritualidade numa envolvência que, mesmo separada do contexto original, continuam a funcionar como testemunho de uma realidade bruta e palpável. Um documento real de um mundo ainda mais que real capaz de se infiltrar pelos poros em busca do centro nevrálgico do corpo que se desliga para experiências meditacionais e hipnóticas. Do mundo lá longe do ocidentalismo para abrir as portas do outro mundo.

Galgo – Parte Chão (Edição de Autor)

A história repete-se, não é?! Primeiro o grande disco de estreia, depois o disco da afirmação e chegas ao terceiro e saltas para a fase da reinvenção. Quantos casos de grandes bandas que fizeram precisamente este caminho? Yah! No caso dos Galgo, os discos Pensar Faz Emagrecer e Quebra Nuvens abriram espaço para a banda lisboeta chegar aqui e usar um Parte Chão para saltar em frente, travar uma batalha difícil e conquistar o que já se desconfiava: os Galgo não são cão manso e domesticar esta besta não vai ser fácil.

Está lá tudo o que fez dos Galgo os Galgo, está lá a matemática nas guitarras a não falhar nem uma tabuada do cruzar na linha de fogo das duas guitarras, está lá o movimento desenfreado da bateria da Joana Batista, está lá a (quase) falta de palavras que caladas dizem mais que muito e está lá a capacidade de ir brincando com montes de coisas diferentes. O que está agora a mais que atira com Parte Chão para um outro patamar? Está lá uma produção ultra poderosa – blame it on Fábio Jevelim e Makoto Yagyu dos PAUS -, e  está uma entrada em cena de camadas de electrónica que até agora era apenas uma flor na pele do bicho. Agora transformada num bouquet de luxo pixelizado para admitir o universo das Nintendos, da retro e synthwave, os Galgo usam a electrónica para carregar na porrada que dão nos instrumentos orgânicos. Ao terceiro capítulo, Alexandre, Joana, João e Miguel partem o chão, partem o tecto e partem tudo para lhes dar espaço aberto para continuar. A viagem está na estrada aberta onde acabaram de ligar o motor.

Marlin’s Dreaming – Quotidian (Edição de Autor)

Já lá diz a canção que o sonho é uma constante da vida. No caso dos Marlin’s Dreaming, banda de Dunedin na Nova Zelândia, o sonho é uma constante quotidiana. Mas não, eles não são uma banda de declaradamente dreampop. Embora o dream seja praticamente transversal a todo o disco, os quatro rapazes preferem sonhar em outros tons que devem, isso sim, muito à capacidade de sonhar através de isto ou aquilo, natural ou artificialmente. O mar convida a sonhar e o surf convida à interacção com os elementos logo, a equação é simples, o rock com inspirações surfers convida a sonhar. O psicadelismo convida ao sonho e à interacção psicotrópica com os elementos, por isso, o cálculo também é simples, a psychedelia convida a sonhar. O que não é assim tão simples é a capacidade de fazer um dream(nemsempre)pop e recorrer a outros livros de estilo com a destreza que os Marlin’s Dreaming o fazem. Experimenta lá colocar em pouco mais de 40minutos o psych dos The Black Angels, o indie brit pop dos The Drums, a ginga dos Franz Ferdinand, o tanto mar dos Beach Boys e, sim, o sonho dos Slowdive a funcionar ao mesmo tempo, e tantas vezes na mesma canção. Tenta, e se conseguires, isso sim, é um sonho! Os neo-zelandeses fazem-no e este disco é, sim, um sonho!

Moor X Jewelry – True Opera (Don Giovanni Records)

Indesmentível que a música de Moor Mother tem nas suas bases uma constante ligação abrasiva ao noise e a uma capacidade de encontrar peso e colocá-lo às ordens das releituras desconstrutivistas sobre o soul e o hip-hop, se é que ela está mais perto desses géneros do que do industrial, mas isso são outras questões. Este álbum de estreia ao lado de Mental Jewelry – o anterior foi o EP Crime Waves -, explica perfeitamente que ninguém é apenas aquilo que hoje é, trazendo para a frente de combate parte das bases dos dois músicos e o passado na subcultura do punk e do hard-core que acabou por ficar para trás. You know, os putos crescem e vão ouvir e fazer outras coisas. True Opera recupera – caso estivesse perdida, mas não está, a obra deles, fora esta colaboração, sublinha-o bem -, que a raiva e/ou necessidade de rebentar com tudo não é uma necessidade pueril, é uma energia vital que, se preservada, pode ajudar a não crescer assim tanto ao ponto de nos esquecermos que nada muda se não nos acomodarmos assim tanto. É punk, é noise rock, é por vezes uma lembrança de Judgment Night OST, um disco que tem sido esquecido quando se escreve e pensa sobre a ponte que foi feita entre o rock e o rap. O punk dificilmente estará morto enquanto houver discos assim!

Other LivesFor Their Love (Play It Again Sam)

O termo cinematográfico usado tantas vezes para adjetivar canções, discos e bandas é subvertido aqui de uma forma especial. Os Other Lives não fazem um disco que pede imaginadas imagens, fazem uma colecção de canções que são elas mesmo um pedaço de cinema cego que deveria ser transposto para um estado novo de arte: uma espécie de filme que se transforma em música, cinema adjetivado de musicográfico!?  For Their Love é uma carta de amor visceral e visual à arte de fazer discos com sentido, para serem degustados como um vinho antigo, envelhecido em barris amarelados ao som de uma bobine que roda sem projectar nada nas madeiras de perfumes almiscarados. Jesse Tabish canta sobre o amor e a perda como um cowboy barroco montado num cavalo de fogo e poesia e vai desaparecendo no horizonte com a alma de Ennio Morricone embalsamada dentro do alforge. For Their Love dos Other Lives parte de estruturas de outlaw folk danado desenvolvendo-se numa possessão de estilos onde cabem demónios de rock’n’roll dos anos 60, o charme decadente de Scott Walker, as maldições de David Eugene Edwards nos tempo de Sixteen Horsepower, tudo soprado pelos ventos místicos das Apalaches. Para quem tem tempo para deixar o disco ser um disco e para quem ama Low, Lanterns On The Lake, Radiohead e The National.

zeroh – BLQLYTE (LEAVING RECORDS)

(Des)Alinhado com um corrente de rappers não confinados aos mandamentos do género, zeroh cancela a vida e reclama tempo a quem se permitir entrar nas ruas dark psych da sua música. Tal como as luzes negras que carrega no título, o novo disco do rapper californiano, amplia os pontos de luz em qual incide mesmo que sejam profundamente claustrofóbicos em grande parte do tempo. Espasmos de r&b futurista e hip-hop experimental são as notas de clareza que rompem pontualmente ao longo de um trabalho em que zeroh desfia um emaranhado de cabos e ligações que conectam alucinantemente a música clássica e o jazz com o noise, a música ambient – por mais tenebroso que seja o ambiente -, o ruído branco e os sons binaurais. Não é música para meditar, muito menos para adormecer, são objectos de desconforto a desfilar sobre um ecrã onde o Apocalipse acontece de forma abstracta e visionária e, de uma forma estranha, bizarramente acolhedora como uma boa trip de ácidos. Para quem ama Dean Blunt, Yves Tumor, Oneohtrix Point Never e Arca.

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