A música tem como intrínseca a comunicação sob a forma de característica essencial. Os Public Service Broadcasting elevam isso ao ponto de usar a palavra, o veículo de comunicação, de uma maneira especial e muito íntima.  Apropriam-se de audio de filmes, televisão e rádio, mas não se cingem a essa relação estética indo ao cerne dessas faixas sonoras, e integrando-nas na música de forma a transmitirem uma mensagem, que geralmente partilha a intenção com o título do primeiro disco, de 2013, Inform-Educate-Entertain. 

Este primeiro disco desvendou um duo inglês ambicioso mas não excessivamente arrojado que, começando a sua discografia com um disco conceptual, prometia desde então um trabalho neste âmbito o que se tem vindo a confirmar. Inform-Educate-Entertain mostrava-se um disco de influência krautrock, com ecos desde Neu! a Ashra, e post-rock, em todas as suas ondas/vertentes, e funciona como uma proposição de carreira ou uma apresentação, deixando bem evidente, logo no título qual é a intenção artística da banda.  

Em The Race for Space, álbum de 2015, o duo apresentou um incrível, cativante e, mais uma vez, ambicioso projecto, retratar de forma activa a corrida ao espaço entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Desde samples de astronautas até a um discurso de John F. Kennedy, a dicotomia investigação/política está sempre presente. A música mantém um registo coerente com o projecto anterior, mas de forma mais maturada e aperfeiçoada. “Go! ” é resumo desta aventura, com os samples que repetem essa palavra convictamente, a música é uma autentica injecção de adrenalina e uma viagem alucinante e sinestésica até à Lua. 

Todo o progresso da banda até ao presente foi uma autêntica viagem recolectora pelo arquivo da British Film Institute (BFI). Em Every Valley, do presente 2017, essa viagem faz-se ponderada à partida de uma forma focada e minunciosa. Every Valley traz-nos a historia do crescimento e seguido declínio da industria mineira do país de gales. Esta realidade, apesar de especifica e localizada, é facilmente transposta para outras comunidades que contribuíram, prosperaram e enriqueceram os seus países e que hoje se encontram negligenciadas e ao completo abandono; Que se tornaram totalmente dependentes de multinacionais  e foram vitimas de uma globalização e robotização desmedidas. A parte crítica do álbum é universal e resume-se à forma como a História do país se desencadeou no sentido da divisão, da diferenciação social e da má gestão que implicou inúmeros problemas sócio-económicos a centenas de famílias. É um recurso à historia como forma de lembrete de que ela é cíclica e que os erros não devem ser repetidos em qualquer circunstância.

É evidente que este é o álbum mais trabalhado dos Public Service Broadcasting. A investigação intensiva inerente a este projecto é de louvar infinitamente. As entrevistas necessárias somam horário de trabalho, os depoimentos dos ex-mineiros e dos historiadores foram seleccionados e analisados pormenorizadamente mas o trabalho não é exclusivo ao nível do conceito mas sim à própria música. Every Valley é logo à partida um prelúdio intenso, crescente e cada vez mais sufocante, como um primeiro capitulo de uma epopeia. A adição de camadas sónicas faz-se de forma gradual, sendo elas tanto rítmicas como mais melódicas. A evolução para “The Pit” funciona como um regresso e um ganhar de energias. Utilizando percussões e sopros fortes, o carácter epopeico do disco ainda é acentuado. Tracyanne Campbell dá voz a “Progress” que constitui um momento fresco no disco, com um ritmo tranquilo, um vocoder suave, os samples vocais do BFI mas que evolui para uma fantástica secção de sopros que se acumulam progressivamente imprimindo uma textura rica à música.

Também o galês James Dean Bradfield, dos Manic Street Preachers, contribui para este disco mas desta vez em “Turn No More”, uma canção mais simples e construída sob uma estrutura rock mais tradicional. “They Gave me a Lamp” é também uma faixa colaborativa com Haiku Salut, e mostra um carácter progressivo e uma identidade bem mais feliz e animada do que aquilo que podíamos pensar reconstituindo as noções que temos de gruta e trabalho mineiro. “You+Me” é um slow bilingue cantado em dueto por um dos elementos da banda, J. Willgoose, Esq. que canta em Inglês e por Lisa Jên Brown que canta em galês. Apesar de integrar um bom elo na corrente conceptual do disco, parece quebrar outro no que toca à coesão musical, sem no entanto comprometer a entrada e evolução “The Mother of the Village” a faixa seguinte. Sem interrupções flagrantes e com transições dinâmicas, o álbum acaba de forma emocionalmente estrondosa, com “Take me Home”, uma música cantada por um grupo coral Galês tradicional, reforçando todo o esforço etnográfico que foi fazer este disco e a sua urgência e pertinência artística. 

Os Public Service Broadcasting são acessíveis, simples e fogem das espalhafatosos personagens criadas em torno de imensos músicos na contemporaneidade. Não são virtuosos nem complexos a nível criativo ou em termos de composição, não são vanguardistas nem reinventores e é refrescante que assim sejam. Já deram provas suficientes de que são músicos exímios, executantes perfeitos mas não se tornam reféns disso mesmo. É crescente a relevância do novo disco, assim como é a relação que cultivamos ao ouvi-lo, como uma pequena árvore num qualquer monte de Cardiff, em estado latente, dependente de atenção mas totipotente depois de ser regada e bem tratada. Mestres da comunicação e da acessibilidade, mantêm-se verdadeiros com o que se propuseram desde o primeiro disco e esperamos que assim continuem, mas com a continua a vontade de que arrisquem mais e que se excedam imensuravelmente.