Princess Nokia, o alter-ego artístico de Destiny Frasqueri, porta bem o seu nome. Tendo crescido em vários bairros difíceis de Nova Iorque – entre os quais o Harlem espanhol e o Lower East Side –, Frasqueri é o resultado desta mistura de culturas, etnias e mentalidades, que ajudaram a formá-la enquanto mulher. Foi com a dureza digna dos velhos telemóveis Nokia que teve que enfrentar a vida e as suas adversidades, o que se transcreve agora no seu trabalho: eclético, feminista, multicultural e impiedoso.

Depois de vários anos com projetos de nomes e estilos diferentes produzidos de forma independente, começou a colaborar cada vez mais com pessoas de horizontes diversificados, como o rapper Mykki Blanco, os Show Me The Body ou até o português Branko. O grande salto de Princess Nokia deu-se em setembro do ano passado, com o lançamento da mixtape 1992. De um dia para o outro, o seu nome emergiu como um dos nomes mais proeminentes do panorama rap nova-iorquino. Através deste surto de popularidade, foi notada pela poderosa editora Rough Trade Records, casa-mãe de The Strokes, Sufjan Stevens, Jarvis Cocker, que se apressou de lhe apresentar um contrato para assinar.

“G.O.A.T.” – acrónimo de “Greatest Of All Time” –, é o primeiro lançamento da rapper na sua nova casa musical, e representa um pontapé na porta de entrada do recreio dos grandes. Agora presente numa plataforma que lhe oferece uma exposição muito maior, Princess Nokia sabe que esta é a oportunidade para dar o salto para o mainstream. Neste single, a artista deixa clara a sua intenção e afirma-se como uma força da natureza única pela sua diversidade, com uma confiança obstinada refletida nos versos iniciais:

Hate to burst your bubble
Bitch I’m that weird girl that’s runnin’ shit
I’m a boss bitch runnin’ big shit.

O uso de beats lentos e ponderados, um baixo bastante acentuado, uma guitarra exótica, onde as palavras se encaixam e fluem por cima do instrumental de forma intuitiva e natural, são uma composição de marca da nova era do hip-hop experimental. Sente-se muito este ambiente underground de Nova Iorque espalhado pelo tema, não só na musicalidade do mesmo – produzido por Wally West –, mas também pelo seu vídeo, divulgado no fim do mês passado.

No clipe, a artista – que o realizou em parceria com Milah Libin –, passeia pelas ruas da Big Apple a bordo de um peculiar Polaris Slingshot, fazendo poses e simultaneamente movimentos típicos de rappers do fim dos anos 90/inícios dos anos 2000, misturando assim dureza e sensualidade. Os tremores de câmara revelam algum amadorismo, mas mais do que isso, revelam sobretudo que este é um trabalho de coração de uma artista que está habituada à sua independência:

I got my own movement
I do this, I move shit
I change rap forever, man.

No entanto, não é só de revolução que vive Princess Nokia, fazendo referências a pioneiras femininas do hip-hop como Gangsta Boo – dos Three 6 Mafia – ou La Chat, das quais se inspira e demonstra o seu respeito. No seu todo, este trabalho também se marca pelo tom politizado que pretende adotar, feminista e multicultural.

“G.O.A.T.” é parte integrante do próximo lançamento de Princess Nokia, uma reedição da sua mixtape 1992 intitulada 1992 Deluxe, que irá também conter novos temas. Atualmente, a artista está a meio de uma digressão mundial de apresentação com o mesmo nome, que está a passar pela Europa antes de regressar à América do Norte a 12 de julho.