O tempo não é nada mais que matéria prima para o molde de emoções, uma plataforma para se construir o sonho, um veículo de transporte para a concretização ou acomodação do ser. O tempo é segundo a segundo um instrumento de uma tão complexa simplicidade quanto a afirmação gasta de “o tempo é aquilo que fazemos dele”. Ou será que nós somos o tempo e aquilo que ele faz de nós? Para A Banda Mais Bonita da Cidade o tempo é um objecto cruel, vítima da dicotomia amor e ódio, uma tela onde passa a vida numa corrida sem tempo demasiado rápido que se pretende a correr, mas devagar. Quantas vezes matamos o tempo para depois pedir “Tempo, posso te pedir um segundo? Fique um pouco, fique um pouco mais”.

E é assim mesmo que a banda de Curitiba apresenta com tempos lentos e flutuantes o terceiro disco de originais, terceiro capítulo de um percurso de canções assentes na folk independente pintadas de dream-pop e com os dois braços em volta tanto do cancioneiro brasileiro e da MPB, como do mundo todo. Canções sensíveis e sinceras, humanas e globais, e carregadas de um sentir tão tipicamente brasileiro.

Desde o primeiro disco homónimo em 2011, A Banda Mais Bonita da Cidade mudaram-se de malas e bagagens para um lugar bonito, especial e único tanto na cena indie brasileira como naquela lista infindável de compositores de excelência no caldeirão colorido, heterogéneo e hiper-rico que atravessa de forma ímpar o Brasil e atira lá para dentro um enxame de nomes e talentos inquestionáveis.

“Tempo” é o bilhete postal para De Cima do Muro Eu Vi o Tempo que sai a 17 de junho e apresenta um lado menos luminoso, questionador e contemplativo de A Banda Mais Bonita da Cidade, um rosto que não sendo completamente novo na obra da banda de Uyara Torrente, Thiago Ramalho, Vinícius Nisi, Marano e Luís Bourscheidt, surpreende pela escolha como single de apresentação do longa-duração. Ou não, já que De Cima do Muro Eu Vi o Tempo vai caminhar por ambientes mais densos, reflexivos e existencialistas e irá absorver influências de percussões indígenas.

De Cima do Muro Eu Vi o Tempo é sucessor de O Mais Feliz da Vida, disco editado em 2013. Este é o lindíssimo vídeo para “Tempo”, realizado por Biel Gomes e Giulia Góes da Bloco Filmes.