Batendo às portas do Hard Club encontramos um pequeno gigante, furioso e trabalhador, com 6 anos apenas mas com a verdadeira prova de que ainda há festivais feitos por gosto pela música. Chamam-lhe Amplifest… E é com este pequeno gigante que esperamos viver mais momentos como o que antevemos este ano com grandes estreias, grandes regressos, enormes veteranos e jovens promissores. A identidade dele é tão forte que só trabalha com quem quer. E é por isso que o Amplifest sempre nos habitou tão bem com as suas brilhantes escolhas: desde GY!BE a Swans, de Maybeshewill a Cult Of Luna, de Amenra a Wovenhand. Suspiramos… guardamos no coração momentos como estes, sempre assinados pelo amor e devoção da Amplificasom, pai e mãe deste rapaz que, não nos esqueçamos, nem a nós abandona o resto do presente ano, garantindo-nos já 65daysofstatic e NOTHING. Enquanto este menino espera à porta, as promessas sónicas em disco já se ouvem há uns tempos e não podemos assim deixar de destacar NEUROSIS, com a sua carreira de 30 anos sem uma única passagem por Portugal.

NEUROSIS – Souls At Zero (1999)

Nós sabemos, não é um álbum recente, não é o que vamos ouvir com mais incidência no concerto, mas é intemporal e um dos álbuns mais texturados de que temos conhecimento. Do industrial ancestral ao vanguardismo nos campos do post-metal, todos esses nomes nos parecem pouco para caracterizar NEUROSIS e, em especial, o amor que temos por Souls At Zero. Até o mais pequeno pormenor foi pensado, permitindo-nos encontrar uma coesão gigante ao longo de todo o registo. É este disco que muda a mentalidade de dezenas de músicos, que transforma o género e que leva a banda californiana àquela designação merecida de “Os Pais do Post-Metal” com toda a consciência de que são mais do que isso. Fazer-se a história merecida nesta estreia de Scott Kelly, Steve Von Till (em dose dupla) e companhia em solos Lusos.

Anna von Hausswolff – The Miraculous (2015)

A música de Anna tem capacidades únicas. Ao ouvirmos The Miraculous, levitamos ao som de teclas densas, de influência folk, abstracta, industrial e de uma voz angelical. “Come Wander Mith Me/Deliverence” tem uma secção que podia ser tanto ouvida no Hard Club como um pouco mais acima, na Torre dos Clérigos. É com esta capacidade estonteante que a música da artista sueca galga territórios e deixa salas esgotadas pelas suas digressões. O disco é altamente viciante e, em parte, remete-nos para o mesmo tipo de sensações que recebemos com “My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky” dos Swans. Não tendo uma estética parecida nem uma parecença evidente, o crescimento da tensão progressivo, as secções rítmicas imprevisíveis e o caracter ambiental experimental de alguns momentos transmitem-nos sentimentos parecidos em determinados momentos.

Minsk – The Crash An The Draw (2015)

Depois de um pequeno grande sono de seis anos, os Minsk apresentam o seu terceiro disco The Crash And The Draw. O post-metal atmosférico é grandioso pelas paisagens sónicas deste colectivo americano e, neste disco, somos submersos em composições que se aproximam ao psicadelismo com toda a força que sempre imprimiram nas suas faixas. Drones poderosos e crescendos pujantes fazem deste disco um dos melhores do género de 2015.

Steve Von Till Amplifest

Steve Von Till, ilustração por Francisco Oliveira

Mono – Rays Of Darkness (2014)

Os Mono calçam luvas brancas antes de tocar. Tanto pela delicadeza no seu trato como para nos dar violentas chapadas emocionais. A fluidez do seu post-rock leva na algibeira elementos neoclássicos e, neste álbum, pela primeira vez em 15 anos, leva também elementos orquestrais densos e criadores de tensão. O seu reverb ecoa-nos na cabeça, sempre, a cada segundo e, para além do concerto, temos a oportunidade de ouvir em primeira mão o mais recente disco da banda Requiem For Hell, um dos mais aguardados do ano. O choro nas guitarras de Taka e Yoda, o baixo presente de Tamaki e a tensão na bateria de Yasunori Takada prometem um dos melhores momentos desta edição.

Caspian – Dust And Disquiet (2015)

A dicotomia, o paralelismo e a sensação ambígua é frequente na música dos Caspian. É sublime mas intensa, triste mas reconfortante, equilibrada mas quase perturbadora, e é a esta característica que a banda de Beverly deve o seu protagonísmo. Dust And Disquiet é a prova derradeira daquilo que já era sabido: a carreira dos Caspian enquantra-se em quarto crescente, sem excepção. O experimentalismo aumenta, com ele a minúcia na descrição dos ambientes e a precisão do traço das paisagens que vão esboçando. De “Separation No.2” à faixa homónima passam melodias e harmonias geniais é, sem dúvida, o álbum mais bem conseguido da banda.

Steve Von Till – A Life Unto Itself (2015)

Steve aparece nesta lista pela segunda vez, agora a solo num registo diferente. A força neurótica não está apagada mas sim convertida a um registo folk negro e denso. A sua voz grave, rouca e cheia é, neste álbum, acompanhada apenas pela sua guitarra acústica, de uma guitarra de colo, de uma viola de arco e percurssões. A textura abrasiva da voz do músico norte-americano enche-nos os ouvidos de melancolia e força, e a produção do disco potencia precisamente isso. A fluidez das cordas quase nos faz esquecer que ouvimos um dos frontmans de NEUROSIS. Um grande disco a ser apresentado no pequeno palco do Passos Manuel.

Tiny Fingers – The Fall (2015)

Directamente de Israel chega The Fall assinado pelo colectivo Tiny Fingers. Flutuando num território intersticial entre o post-rock, o dubstep, a electrónica experimental e outros géneros, esta formação israelita vai dar certamente que falar. Durante a queda de The Fall criam-se espirais sónicas que nos envolvem num headbang ligeiro inevitável. Já pelo passar do Outono dentro do disco, aproximando-nos do final, cresce a intensidade e o ambiente psicadélico. As transições tonais são sublimes, repletas de eco e brincadeiras com dissonâncias que texturam a música e lhe acrescem o interesse. Uma boa razão para irmos mais cedinho no domingo para o antigo Mercado Ferreira Borges.

Estes são os sete álbuns que, para nós, mais preparam uma das grandes experiências sónicas do ano. O pequeno gigante de que falávamos já está à porta do Cave 45 e, não tarda, com toda a sua pujança e genica, vai abri-la. A partir daí, o ambiente a preto e branco, a atmosfera densa, o peso musical sobre os ombros, os olhos semicerrados de quem os quer fechar sem perder o que acontece diante deles é garantido.

Amplifiquem-se, o Amplifest vai começar.