Volvidos mais de dois anos desde a última performance na capital – altura em que apresentaram ao vivo a sua versão para “Autobahn” dos Kraftwerk, os Riding Pânico estiveram de volta a Lisboa e ao Sabotage Club em particular, onde deram um concerto que esteve à altura das expectativas mais exigentes.

Com um set fortemente baseado em Homem Elefante, o seu segundo e mais recente álbum editado no já longínquo ano de 2013, o grupo foi direto ao assunto ao debitar um rock musculado, como o trio de guitarras e secção rítmica apuradíssima assim o determina, mas sem descurar o lado exploratório inerente ao post-rock que os caracteriza desde sempre, com os teclados ora suavemente borbulhantes, ora efervescentes de João “Shela” Pereira a aligeirar o peso monolítico da banda e a facilitar a catarse sónica e sonhadora das almas que encheram o clube mais roqueiro do Cais do Sodré.

Modelo desta dupla habilidade foi, por exemplo, “Zulu”, a bordo da qual entrámos até em território stoner, mas não antes de uma demonstração de solidez rítmica na forma do groove que terá, certamente, levado alguns pares de pés a sucumbir à quase-dança. E por falar em dança, nada naquela noite nos surpreendeu como “O2”, tema inédito que se destacou pelo tom tropical da guitarra de José Penacho ao dar o mote para uma composição que abana ancas melhor que qualquer outra malha de Riding Pânico, antes de fazer um desvio para o território espacial já bem engendrado pelo sexteto, seja na montanha-russa de ideias (boas) que é “Código Morte”, ou no pesadíssimo convite ao headbanging de “E Se A Bela For O Monstro”, resgatado do primeiro longa-duração, Lady Cobra. Nesta última percebe-se bem a dimensão das explosões prolongadas de energia que a banda exterioriza como que uma supernova a detonar em câmara lenta, a par do portentoso arsenal de guitarra já referido capaz de submergir o público em distorção benigna ao comando de uma batida de tarola.

Que os Riding Pânico eram capazes de tal força em conjunto, já era sabido: o acelerado “Blueberry Surprise” logo a abrir, fortaleceu precisamente essaa ideia, assim como da geral desenvoltura com que cada um aborda o seu instrumento – em “Dance Hall”, precisão foi a palavra de ordem – mas, mais importante que a diligência técnica, e algo que se notou ao longo de todo o concerto, assim como na troca de olhares e sorrisos, foi a cumplicidade e genuína felicidade por estar a fazer música em conjunto que os lisboetas mostram. Para além de importante para a coesão musical do grupo, é também respeitável que assim aconteça numa banda cujos membros fazem parte de projetos díspares, desde os PAUS a Marvel Lima, passando pelos Quelle Dead Gazelle.

Para o fim, ficou um tema dos primórdios da banda, composto em 2005 ou arredores, segundo Makoto Yagyu: nem mais nem menos que o épico “Volvo”. Tocado hoje, é uma mistura saudável de tudo o que define a banda – o peso, expansão, exploração e explosão. Donos de um culto assinalável e capazes de agradar desde metaleiros a melancólicos, os Riding Pânico mostraram esta noite que continuam a ser, por excelência, A banda de post-rock portuguesa.

Os Riding Pânico pela lente do Carlos Mendes aqui.

Riding Pânico @ Sabotage Club