Igual a si mesmo, é o que podemos esperar de Rock N Roll Consciousness. Thurston Moore não deixa esquecer a sonoridade que o tornou conhecido, a si e aos seus velhos comparsas Sonic Youth. Os seus 58 anos ainda o fazem soar a jovem. Ouvir sem nada temer.

Quando se vê a tracklist do disco, pensa-se porque virão tão poucas músicas. Pode-se pensar que até poderá ser curto, mas engana bem. Este longa-duração rompe com aquilo que se pode esperar de apenas 5 músicas, mas mostra o quão expansivo Thurston se está a tornar e isso reflecte-se na sua música. E começa logo com “Exalted”, a faixa mais longa do disco, com os seus quase 12 minutos de duração, em que metade dos quais é tomada por uma enorme introdução e uma sequência de loops na guitarra que servem de ligação com o álbum anterior: The Best Day. Apercebe-se o desapego crescente de Moore em relação às palavras – coisa que desde que começou a solo tem vindo gradualmente a acontecer. Pequenas linhas, frases soltas mas suficientes para se perceber o sentido. As letras não são apenas dele: Thurston conta com a preciosa colaboração do poeta Radio Radieux.

“Cusp” vem quebrar logo à segunda música. Uma avalanche imensa de ruído e guitarras, sem pausas. Steve Shelley – o seu companheiro dos Sonic Youth –, eterniza uma autêntica marcha na bateria, uma guerrilha em fast foward. A lembrar Isn’t It Anything dos My Bloody Valentine ainda antes de descarregarem aquelas manchas sonoras distorcidas. No entanto, é acompanha por uma letra que, segundo entrevista de Thurston à The Quietus, representa a primavera. É neste contraste de agressividade sonora e beleza lírica que vive este disco. “Turn On” não fica atrás. A segunda maior faixa de Rock N Roll Consciousness é a que mais se aproxima de algo que já conhecemos. As constantes mudanças de intensidade, crescendos num rodopio de riffs de Thurston e James Sedwards e o exagero de dissonâncias que, apesar de tudo, soam lindamente.

Thurston Moore

Thurston Moore

Dos dois singles lançados, “Ceasefire” e “Smoke of Dreams”, apenas o último faz parte da lista. Seria esta uma faixa para os Sonic Youth tocarem, não haverá dúvidas. Lembra “I Love You Golden Blue” numa versão ainda mais contemporânea e sem os sussurros de Kim Gordon. Um sonho conturbado, que leva numa nuvem de som até onde se quer. Numa viagem que se pensa descansada, mas que quando damos por ela, já não sabemos onde estamos. E volta ao início com a mesma rapidez com que nos tirou de lá. A fechar como começou, “Aphrodite” faz-se com uma potência acumulada de solos, um baixo de Debbie Googe a pesar do início ao fim e de um venerar das Deusas da Dissonância. Se tal coisas existisse, Thurston estaria a cargo de compor as suas bandas sonoras para a eternidade.

Não será talvez para toda a eternidade, mas Rock N Roll Counsciouness cresce a cada audição. Cada vez mais despegado do lado catchy com que se faziam algumas das suas faixas anteriores, mas cada vez mais experimental e exploratório. Não fosse ele um dos percursores das guitarras sujas da cena indie dos anos 90 – a par do seu companheiro Lee Ranaldo, J. Mascis ou Kevin Shields. O disco está cá fora, é agarrar, ouvir e esperar que o vejamos ao vivo em breve.