A Austrália tem sido, em especial na última década e meia, um solo particularmente fértil quanto ao florescimento de novos projectos sonoros e um pólo de atracção notavelmente sedutor para outros tantos. Se a geografia se encarregou de colocar o país numa distância bastante respeitosa em relação ao resto do globo, posicionando-o numa órbita solitária dentro das suas fronteiras e forçando-o a alimentar-se maioritariamente do seu próprio universo das artes – uma periferia que facilmente poderia continuar a abafar o continente numa quase inevitável invisibilidade aos olhos do resto do mundo, excepção feita a colectivos como Nick Cave & The Bad Seeds ou Dead Can Dance -, a verdade é que a tecnologia, a ânsia das novas gerações de explorar outros continentes e a evolução natural das coisas fez o resto. A Austrália, essa ilha gigante, já não é hoje tão insular assim.

Noutros tempos, seria impensável cidades fora do eixo Melbourne/Sydney produzirem qualquer espécie de artefactos artísticos de renome internacional; nos dias que correm, outros locais se alinharam numa frente de batalha que compete com os mais vibrantes centros urbanos do país: o isolamento de Perth, por exemplo, não evitou que se tornasse numa espécie de incubadora do psicadelismo, ao oferecer viagens mais ou menos conscientes, mais ou menos reais e tangíveis por esferas psicotrópicas a bordo das naves caleidoscópicas dos POND ou dos Tame Impala, que fizeram eclodir um big bang de proporções cósmicas do género um pouco por todo o país e pelo mundo. E enquanto Perth trippava no embalo lânguido do psych, levando por arrasto cidades como Brisbane, Melbourne deixava-se também contagiar por paisagens suaves e sonhadoras, responsabilidade atribuída em grande parte aos King Gizzard & The Wizard Lizard, repartida com Courtney Barnett. Em paralelo, quase como numa realidade alternativa, surgia um outro fenómeno naquele que é o epicentro cultural do país, que ia despindo gradualmente a sua pele mais rock e se ia afirmando como o olho do furacão da electrónica.

Cut Copy, Ben Frost – que entretanto se mudou para uma Islândia mais condizente com as suas construções sonoras misteriosas, sombrias e gélidas -, e Nick Murphy, outrora conhecido como Chet Faker, fazem, com todas as idiossincracias e especificidades que lhes são pertença inequívoca, parte de uma Melbourne rendida aos micro-organismos electrónicos, à miríade de botões, aos synths, à era do digital, e a uma identidade que nos últimos anos se electrizou. Se antes Nick Cave cantava, entre outras coisas, a tristeza, embrulhada tantas vezes num rock alternativo soturno e denso, hoje cantam-se as mesmas mágoas, abrem-se as mesmas feridas, saram-se as mesmas cicatrizes através de paredes de samples, teclados Hammond e drum kits, ditadores de ritmos pulsantes catalisadores de atmosferas electro profundamente nebulosas em grooves tão catárticos quanto enganadores.

Os melburnians Slum Sociable inscreveram o seu nome nesse clube restrito de artistas que usam varinhas de condão electrónicas para mesclar orquestras digitais e sonoridades íntimas da soul, r&b e trip-hop, sons que se insinuam a ambientes sonoros artificiais, que não obstante, propagam-se como matéria quente e emocional. Com apenas um EP – TQ tem seis temas e foi editado em 2015 – desbravaram um caminho repleto de sensualidade, como no tema “Always”, abrindo estradas sobre uma base que se ia solidificando naquilo que veio a ser a concretização de um registo de longa-duração de estreia, materializado oficialmente a 24 de novembro passado.

“Don’t Come Back Another 100 Times”, o single de avanço para o álbum de título homónimo editado pela Liberation Records, imprimia na dupla composta por Edward Quinn e Miller Upchurch um novo universo que se permitia submergir em ambientes mais sofisticados, aveludados e de texturas aquosas. Embora mantendo as mesmas linhas lustrosas irrigadas de r&b por todas as veias, o tema antevia uma colecção de canções imbuídas de atmosferas mais densas e carregadas em relação ao EP anterior. Uma mutação degenerativa já antes protagonizada por Nick Murphy, nos momentos imediatamente posteriores à queda do pseudónimo.

Bonito, lindo até, mas nada que preparasse inteiramente o terreno para o que aí vinha. “Castle”, o segundo tema revelado, continuava o trilho tonal de corpo inteiro de todo o trabalho anterior, mas subia uns quantos patamares e elevava os Slum Sociable a uma nova condição. O ADN impregnado de electro-soul  registava agora uma delicadeza hermética, quase claustrofóbica, rematada por arranjos fugazes de orquestras minimalistas e detalhes da música tradicional indiana que, surpreendentemente, não só não destoam, como tornam a harmonia ainda mais quente e sagrada.

Uma construção sonora geograficamente localizada na Austrália e musicalmente criada algures entre a substância misteriosa dos Rhye de Mike Milosh e a composição electrónica de tecidos mais musculosos de Nick Murphy, os Slum Sociable herdam a evolução sonora de uma cidade que se tornou, de forma quase imperceptível, num centro de uma corrente artística estruturada sobre beats e synths. Será Melbourne o novo berço da electrónica mundial? Veremos.