A perceção musical provoca invariavelmente experiências diferentes em cada um de nós, não só em termos físicos como emocionais. A capacidade auditiva, o desenvolvimento pessoal, a interação cultural são factores que moldam a maneira como ouvimos esse conjunto de sons, essa cadência de ritmos, barulhos, timbres que podem não ter nenhum significado lógico, mas que o ser humano tem necessidade de reproduzir como forma de se manifestar e mostrar aquilo que sente, a que damos o nome de música, e o que dela mais tarde retiramos.

Oliver Sacks, o neurocirurgião especialista em música, dizia no seu Musicofilia que era estranho ver uma espécie inteira – milhões e milhões de pessoas –, empregando boa parte do seu tempo a tocar ou a ouvir padrões tonais desprovidos de significado. Se se desconstruir o conceito música, observa-se que se trata essencialmente de conjunto de sons que de alguma maneira o nosso cérebro assimila de uma forma que para ele faz sentido de forma bastante subjectivo. Interessante é lembrar como esse “sentido” é por vezes tão díspar: o que alguém entende como melódico, pode ser para outro indivíduo um som monocórdico. Em contrapartida, o que uns entendem como sendo ruído, barulho que fere os ouvidos, para outros esse mesmo som pode ser ordem no meio do caos.

É aqui que entra Pharmakon: a música que cria produz reacções que vão do choque ao êxtase e o som noise e industrial que nos apresenta é o estímulo que faz sobressair respostas tão diferentes que observar o público acaba por ser tão interessante como ver o concerto em si. E foi isso que aconteceu na Galeria Zé dos Bois no passado dia 3. Finalmente à terceira presença em Portugal, o alter-ego de Margaret Chardiet estreou-se na capital. Depois de duas presenças no Porto, a artista veio dar a conhecer a Lisboa o seu último trabalho Contact, e em nada desiludiu num concerto que apesar de curto, serviu para que o público se deixasse guiar no caos sonoro que Pharmakon tende a criar.

A sala claustrofobicamente pequena da ZDB ficou submersa na habitual escuridão regada com uma pulsante luz vermelha sangue e coroada pela aparentemente singela presença de Chardiet em palco… até começarem as suas guturais vocalizações. Mergulhados naquele ambiente carregado e sombrio, 30 minutos de concertos foram mais do que suficientes para que fosse possível afundar-nos no caos em que Margaret nos quer afogar. Porque nem tudo no mundo é áureo e porque o “outro lado” também faz parte das nossas vivências: as criações sonoras de Chardiet apelam muito aos sentidos pelo choque, recheadas que são de samples fortes que retumbam na caixa torácica. Mais que um concerto e mais do que a apresentação de um disco, a ZDB assistiu a uma uma performance.

pharmakon vera marmelo

Pharmakon by Vera Marmelo

Sendo a primeira apresentação em Lisboa, Pharmakon trazia três discos e um EP na bagagem, e a quantidade de temas era tal que foi um concerto muito pouco literal, em que praticamente nenhuma música foi tocada na íntegra. Ainda assim, conseguimos percorrer e acompanhar todos os estágios dos discos, viajando com Margaret pela sua tentativa de perceber de onde vimos, quem somos e para onde vamos. Com temas líricos fortes e um tom musical ainda mais poderoso, Margaret aborda sempre o lado mais obscuro da vida numa espécie de ensaio filosófico musical que ao longo da sua carreira tem vindo a explorar a essência de “ser-humano sob de um ponto de vista tanto biológico como psicológico.

Esta apresentação ultrapassou a barreira do concerto, migrando para a de performance quando Chardiet saiu do palco e entrou pelo meio da plateia, sempre em plena actuação, vocalizando a angústia da sua música expressada nas vocalizações mais aflitivas e apresentando em sala aquilo que havia transcrito para os discos, fazendo literalmente jus ao nome do último álbum – Contact – e estabelecendo essa mesma relação com os seres que a rodeavam, navegando por eles. Se nos dois últimos álbuns o tema se revolvia em torno do ser, da pessoa, do corpo, da fragilidade e da decadência do mesmo, em Contact Margaret confronta-nos com as ligações que se estabelecem entre o nosso ser e todos os outros que nos rodeiam, e na forma como essa interação atinge o desenvolvimento enquanto indivíduo: o contacto enquanto forma de evolução e simultaneamente de contaminação.

Mesmo que num intervalo temporal relativamente breve, foi possível conhecermos uma Margaret que não se preocupa com o palco: esta peça decorativa do cenário representa um mero poiso para aquilo que lhe permite apresentar o seu verdadeiro espectáculo. Para aqueles que não acompanhavam a trajectória discográfica de Pharmakon, foi uma viagem aos infernos que lhes permitiu submergir na sonoridade sufocante da banda. Para quem já o fazia, certamente teve o que esperava: um concerto pulsante, bruto, cruo e angustiado que cativou não só pela qualidade musical, mas também pela parte performativa, perfeito para sair da caixa e experienciar o que é viver rodeado de caos absoluto. Nem que seja por 30m.