Os outonos são assim. Ou deveriam ainda ser assim. Os outonos deviam saber a um algo mais fresco que aquece e encadeia os olhares por entre o sol ainda crepitante, ainda torrado, ainda suficientemente brilhante para tingir os dias e as memórias e os momentos a sépia. O outono da alma devia ser sempre assim. Um espreitar do parapeito da janela para subtilezas delicadas por mais que sejam elas finais. Ou como dizia Corgan e os Pumpkins em 1997, the beginning is the end is the beginning. Não há retornos sem partidas, não há começos sem despedidas, e não há pontos máximos sem haver as rodas do tempo que demoram tempo a rodar por entre as primaveras e os outonos da vida, as transições, as explosões que finalizam e as implosões que brotam vida. Na música é assim, na composição é assim, na forma de estar por entre os sons sejas tu um criador ou um contemplador de canções. Há canções e gente que as monta como representantes de estações, de épocas e de emoções. Toda a sorte do mundo para quem cumpre na passagem por esta passagem planetária esse papel, feliz por toda essa sorte do mundo tocar todo o mundo que se cruza com sorte com pessoas assim.

Os irlandeses All The Luck In The World são pessoas assim; nascidos no quarto de Neil Foot, crescidos no pátio da escola onde conheceu Kelvin Barr com quem mais tarde viria a conhecer Ben Connolly quando ambos estudavam música em Dublin. E se há coisa que a Irlanda há-de oferecer sempre é pessoas com capacidade de escrever canções que não se distanciam da ligação com os fluxos naturais da terra, com os sons especiais do campo, com formas folk e ternas, e ao mesmo tempo urbanas de contar histórias. Em nada se encontra a surpresa quando se passeia pelas estradinhas de terra e pelas ruas de pedra molhada pela chuva onde crescem as canções dos All The Luck In The World, pois são as mesmas por onde se encontram as marcas dos passos dos Villagers, de Lisa Hannigan, de Damien Rice, Foy Vance ou James Vincent McMorrow.

É de canções simples que se trata aqui, é com canções simples que se trata a intensidade dos dias e das lições que se ganham nas horas que ontem foram de dores. São minutos de intimidade, são sopros de proximidade e de reconhecimento fácil a cada um que habita o lado dos contempladores de canções. Estivéssemos ainda nos anos de ouro do indie-folk guardados na gavetinha da lembrança com as etiqueta do período entre 2009 e 2012, e estaríamos a encontrar os irlandeses entre os grandes. Ou melhor, entre as letras grandes e gordas das revistas que tecem as modas. Mas a folk dos All The Luck In The World chegou tarde para ser subaproveitada, chegou tarde para ser banalizada e chegou mais do que a tempo para crescer enquanto entidade maior pelas suas próprias finas linhas que tecem canções cheias de orvalho e ouro. Como um outono que ainda deveria ser como era… de dias mais curtos e luzes confortáveis.

Um disco de estreia homónimo em 2014 e quase quatro anos de silêncio. Um disco demasiado belo para não ser recordado e um novo tema que permite recuar até a esse disco. Os All The Luck In The World anunciam o segundo longa-duração para o começo de 2018 mas não desperdiçam o outubro para dourar o outono com o primeiro dos temas que virá a fazer parte de Haven. “Golden October” é uma canção sobre separação e moving forward, sobre saber reunir as páginas do passado para ler aquilo que somos no presente e, apesar de se olhar à distância para quem se era, saber construir na leitura dos capítulos antigos um novo ser em constante evolução. O som, esse, é o que se espera que seja: a fragilidade de sempre de quem sofre, o crescente acrescentar de detalhes às pautas e o final que respira um novo ser, um novo dia, porque the beginning is the end is the beginning.

Won’t you take this and make something good out of it.

O vídeo esse é de uma simplicidade cúmplice e tão próxima. Fotos de viagens e momentos a dois, o passado que se arruma na caixa certa para ser aquilo que é, um passado e uma página a mais naquilo que somos… em tons de dourado e nostalgia.