Este ano o Outono não acompanha o Jameson Urban Routes como mandaria a tradição, e assiste do lado de fora à décima primeira edição do festival com que se costuma brindar habitualmente nos últimos dias de outubro. É também verdade que se alinham as evidências que nem o Jameson Urban Routes trará o Outono, independentemente daquilo que dizem as estações cronográficas registadas na colecção de dias que se vão substituindo no calendário. Facto imutável e indesmentível é que começa já amanhã, dia 24, um dos eventos mais esperados do final do ano na cidade de Lisboa e, simultaneamente, um dos mais vibrantes e eclécticos que passam pela capital desde 2006 e que dominam durante cinco dias o ponto de encontro do costume: o Musicbox Lisboa.

Com um formato redesenhado desde a edição anterior, que consagra agora vários concertos diários repartidos em 13 sessões distintas que visam espelhar nessa chaveta temporal as várias dimensões sonoras que a sala da Rua Cor de Rosa oferece durante o resto ano, o Jameson Urban Routes derrama em 2017 uma amálgama de sonoridades e de convidados que desfilarão no tapete vermelho do festival ambiências e tendências tão díspares com o hip hop, a psicadelia, o stoner ou a electrónica sob a insígnia tanto de nomes já mais que firmados no cenário nacional e internacional, como de projectos ainda em fase de crescimento e consolidação que decoram o evento. O cartaz de 2017 reservou os dias 24 a 29 de outubro e estes são os destaques da Tracker Magazine.

Surma – 28 de outubro

Ainda nem há um mês, Surma subia ao palco do Musicbox com a primeira apresentação pública – embora reservada à imprensa -, para Antwerpen, o disco de estreia recém-editado pela Omnichord Records. A leirense, menina de sorriso largo que desenha nuvens macias e intangíveis com teclados e sintetizadores que orbitam em esferas electrónicas denunciadores da influência das latitudes mais a norte – sobretudo as que trespassam o norte da Europa -, regressa agora num dos percursos sonoros mais suaves do Jameson Urban Routes a um palco onde já deu vida aos tecidos etéreos e aos ínfimos microorganismos musicais que imprimem detalhes cristalinos num universo de sonho. Um universo onde as palavras se diluem numa matéria digital e emocional, aquosa e flutuante. Surma actua no último dia do festival, a 28 de outubro.

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Austra – 28 de outubro

Na mesma noite em que actua Surma, e numa estreia absoluta por vias lisboetas após passagem pelo Milhões de Festa em 2013, a canadiana Katie Stelmanis traz à capital três discos que vão buscar ao synthpop, ao dreampop e à darkwave uma matéria-prima de carácter minimalista com que rega os seus manifestos políticos de timbre electrónico sob o pseudónimo Austra. Future Politics foi editado em janeiro deste ano pela Paper Bag e revela uma Katie que desembaraça uma electrónica que se torna facilmente dançável e que solta uma voz absolutamente distinta a roçar em muitos momentos o operático, na qual sobressaem inflexões místicas mergulhadas em eco, muito à semelhança do que acontece com a norueguesa Susanne Sundfor.

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O Terno – 26 de outubro

Se os Boogarins são talvez a face mais reconhecível da música brasileira contemporânea de raiz psicadélica, O Terno trazem com eles uma tropicalidade retro alicerçada fundamentalmente na década de sessenta onde orbitam harpas e orquestras mescladas com baterias opulentas, guitarras tibubeantes e música de salão de baile a puxar a bossa nova. A expanção da sua sonoridade faz-se num oceano de influências psych, com o seu terceiro e último disco – Melhor do Que Parece foi editado em 2016 -, a consumir-se de um delicado conforto nostálgico ao mesmo tempo que se presta a ambiências regadas a blues e a outras tantas a explorar horizontes mais beatlescos. O vídeo do tema “Volta”, tem a particularidade de ter sido rodado em Lisboa, paredes meias com os murais de azulejos da zona de São Bento. O Terno actuam com You Can’t Win Charlie Brown no dia 26 de outubro, a poucos dias de ser conhecida a sua participação no próximo álbum de Cícero.

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Black Lips – 27 de outubro

Numa carreira quase 18 anos e 8 álbuns, já são muitas as incarnações – e incursões – sonoras dos Black Lips, que andaram já um pouco por todas as esferas que fazem das poderosas muralhas de guitarras o seu elemento principal. Pelos norte-americanos já foram calcorreadas as linhagens mais indomáveis do rock, quer em explorações psych punk ou excessos garage a pender para um stoner regado a blues, sempre encarados de forma psicotrópica e com um atitude confrontacional especialmente desabrida. Psychobilly, rock&roll, algum punk com alma de baladeiros e gravações muitas vezes lo-fi, os Black Lips aterram em Lisboa com um novo álbum – Satan’s graffiti or God’s art? lançado em maio deste ano -, e certamente com um dois truques na manga.

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Scúru Fitchádu – 25 Outubro

Com quantos sons se constrói uma muralha punk?! Para Sette, é com as que vierem entre os sons pesados e marginais do subúrbio – que neste caso é a margem Sol mas que podia ser qualquer um -, e as memórias de uma África improvável. Pense-se nos Prodigy, Atari Teenage Riot ou nos Dead Kennedys numa festa bruta e brutal em torno de uma fogueira numa praia ou numa rua de Cabo Verde onde o funaná é desenvolvido e relido através do travo do Pontchi, do bafo quente do Grogue e atirado sem dó nem piedade para um moshpit avantgard que não deixa tradição nenhuma por ser reinventada. Apenas um EP homónimo no ano passado escreve a caminhada de Marcus Veiga, a.k.a Sette Sujidade, mas palcos começam a acumular-se fortemente por debaixo dos seus pés. Puxa por essa concertina, acelera esse triângulo de ferro e bota Sujidade nesses beats, Sette.

O Jameson Urban Routes faz-se também nesta edição, entre outras, com as actuações de Stone Dead, do já repetente Xinobi com Da ChickBlack Bombaim & Peter Brötzmann. O preço dos bilhetes para as diferentes sessões varia entre os €12 e os €20 e dão direito a entrada livre para os concertos a decorrer depois das 3h. Os bilhetes diários situam-se entre os €20 e os €27 e o cartaz completo com os horários das actuações pode ser consultado no site do Jameson Urban Routes.