Há uma respiração que se aconchega como um ente celeste a cada uma das teclas pretas do piano e há um sorriso franco que se senta entre cada silêncio ausente das teclas brancas desse mesmo piano. Douglas Dare, o inglês que se torna paulatinamente um dos novos rostos incontornáveis tanto da Erased Tapes – lado a lado com Nilhs Fram, Kiasmos e Ólafur Arnalds –, como de uma geração de compositores descomprometidamente clássicos, musicalmente sem porto seguro e de navegação primordial e emocionalmente feita em terrenos tempestuosos, é o espaço fino entre essas teclas. Dare é a luz nas sombras de histórias pessoalmente desarmantes, um exorcista bem sucedido que deriva das canções solenes e desalmadamente tristes – I enjoy sad songs, diz ele algures durante a noite –, para um menino seguro e sorridente que conversa no imponente salão com uma plateia escondida no escuro como se brincasse nos jardins reais com os menos afortunados de um qualquer palácio inglês indiferente à sua posição nobre e às suas vestes imponentes. Dare chega até nós pela primeira vez assim. Enorme e magnânimo nas canções, simples e descomprometido no ser.

«Take in a breath and treasure the light, don`t let them see you move you’ve got nothing to prove». “Lungful” abre inconscientemente as vias respiratórias da noite e, ao mesmo tempo, representa os primeiros bafos de oxigénio do Respira! O Piano Como um Pulmão, o novo ciclo do Theatro Circo dedicado ao instrumento que tinha como actores ao lado de Dare, Wim Mertens, Dakota Suite e Rufus Wainright. Sem nada a provar, e movendo-se entre as frágeis e monumentais notas do piano, o menino da cidade marítima de Bridport, South West England, faz chover emoções. Não há uma tempestade mas há uma chuva que acompanha daqui em diante todo o concerto. Uma chuva de histórias e de reflexões pessoais e colectivas, uma noite de chuviscos constantes na alma do mundo porque o sol quando chove é para todos… mesmo que sentados em frente à ignorância de “Doublethink”.

Um passeio sempre húmido segue por entre as cadeiras de Braga em direcção a outras paragens e respostas. De “Nile” a “New York” vão milhares de milhas de distância e meros minutos de palavras e de piano. Dare pondera e medita sobre a morte dos amores. Recupera momentos e memórias, partilha-as. Não como um lamento mas como um relatório sentido de falhas e aceitação forçada, “The Explorer” desmente em marcha fúnebre e agradece a dor e a sapiência inerente… a chuva entretanto trata do resto.

Douglas Dare @ Theatro-Circo Braga

A surpresa de Dare em relação à sala que o recebe e ao número de pessoas que enche o espaço vai além das meras palavras. Duas covers justificadas por Douglas pelo facto de ninguém conhecer, segundo ele, a sua obra, e que tocar músicas de pessoas que o influenciaram podia ser uma forma de quebrar o gelo. Afinal, Douglas Dare é simplesmente um de nós, inseguro e frágil e com heróis. A noite prossegue com “Lionsong” de Björk e as mesmas considerações sobre o amor e a perda. Dare despe Björk beat a beat, linha de violino a violino até pouco restar nos recantos da memória imediata da islandesa, passando o leão a ser um homem frágil de mão direita suspensa no ar como uma maestrina de uma mão esquerda que avança saltitante entre as teclas negras e brancas; o ser e o parecer, a chuva e a iluminação. Mais tarde, Douglas voltaria a mais uma cover e a mais um momento de sublime recriação e apropriação da obra alheia.

Dare conversa e desafia para um meet depois do concerto. Douglas, miúdo franzino de genialidade na ponta dos dedos e na voz, conta histórias por entre as músicas; histórias sobre como ignorou as sugestões de Paul McCartney sobre “London’s Rose”, histórias sobre o relacionamento difícil com o pai e as mentiras que o convenceram a vir tocar a Portugal – sobre o sumo pontífice, o sol e o bronze que levaria daqui. Nem Francisco estava na sala e nem o sol se aproximou de Braga durante o dia… apenas a chuva que Dare parece trazer também nas suas canções.

“Oh Father” é a conversa sincera de Dare com o pai, sem poesias nem artifícios. Directa, intensa, sem leituras nas entrelinhas, cantada com a melodia que falta a Cave mas com a mesma religiosidade evangélica. De volta às cidades e à cidade escolhida por Douglas Dare para viver, “London’s Rose” é provavelmente a canção mais pop e de menos chuviscos nos tons, seja da noite seja da carreira de Douglas. Desenganem-se: por detrás da maior leveza dos acordes existe uma solidão e um olhar desencantado sobre a civilização e o ser humano. Mas como qualquer criança, Dare olha além e ainda acredita. «Were alive down here, Take us back up to the tall». A arte, sempre a arte, a fazer-nos vir à tona. Obrigado, musa. Obrigado, Dare.

“Swim” e “Caroline” fecham a noite. Ambas do disco de estreia de compositor britânico – Whelm de 2014 -, e ambas a cantar a saudade e a insegurança, a ausência e a lembrança. Pelo meio, a segunda cover da noite. “Daydreaming” dos Radiohead, my favorite band, diz ele. O risco que se toma ao avançar para uma canção destas é absolutamente dantesco. Um tema de curta vida – “Daydreaming” faz parte de A Moon Shaped Pool do ano passado – que ganhou automaticamente o título de uma das mais queridas músicas pelos fiéis da causa de Thom York. Além de carregar em si o peso do nome da banda, carrega no ventre a desesperança, a descrença de um mar de pessoas encarnadas em York e nas suas palavras. Pessoas que sonham demais, que sentem demais, que vivem demais até não haver mais nada a viver, e até os sentidos e os sentimentos deixarem de responder ao comando da alma e do cérebro. Douglas faz dela novamente algo de seu. A imagem de Thom a atravessar as 23 portas do vídeo e a andar sem rumo passa a ser apenas a de Douglas e o seu piano e uma sala de lustros ostensivos e pele arrepiada. Pelo meio da cover outra cover, “Ain’t No Sunshine” de Bill Withers… e não, nem a luz nem a chuva conseguiram cair sob este momento. Lindo e desolador e impenetrável.

Vem o aplauso, cai o pano que não existe, e Douglas sai. Vem o aplauso, levanta-se o pano que não existe, e Dare entra. A surpresa novamente vai além das palavras e abraça a atitude. Vem a oferta: o que é querem ouvir porque eu não sei! Chovem pedidos: “Venus”, “Whitewash”, mas é da última voz que vem a escolha de Douglas. “Rex” fecha a noite tal como fecha Aforger, o disco de 2016 e o segundo da carreira. A intensidade de sempre, as palavras certeiras do inglês que enchem a sala. As teclas negras vencem o dueto, as brancas ficam perto como reminiscências de um bom amigo e Douglas sai de Braga com uma noite para relembrar. Uma noite com um compositor especial de canções directas e sem curvas subliminares. São histórias passadas por entre dias de chuva fina e constante, são observações e conversas entre amantes e amigos íntimos debaixo de um mesmo guarda-chuva. Canções para relembrar que a chuva não dura para sempre… e nós também não.

See how your people waste away
The only way to save them is truth.

Douglas Dare @ Theatro-Circo Braga