A elegia sensorial e as multicamadas de 'Necrospace' dos tētēma de Mike Patton
92%Overall Score

Mike Patton é um artista inquieto. Entre as idas e vindas de sua banda mais famosa, o Faith No More – não fosse a pandemia eles sairiam em tour pela Europa e Estados Unidos já no início de Maio -, e uma reunião com os Mr. Bungle após quase duas décadas sem se apresentarem ao vivo, além, é claro, de seus inúmeros projetos, Patton ainda encontrou tempo para trazer de volta à vida sua empreitada menos palatável os tētēma.

O projeto formado em 2014 é esteticamente sem precedentes na profusão de bandas criadas pelo vocalista. Se no Mondo Cane a proposta é reinterpretar standards da música romântica italiana, e nos Peeping Tom e Tomahawk Patton demonstra sua verve pop, aqui há uma disrupção com elementos estabelecidos pelas experimentações oriundas do jazz.

A estreia veio com Geocidal, um álbum feito de amálgama de variações tanto nas arquitetações melódicas quanto na lírica quase espiritual dos cânticos repletos de reverbs e efeitos proferidos por Patton. “Ten Years Tricked”, tema com colossais 7 minutos, é a mais contundente prova disso. Entre silêncios e evocações de insanidade ritualística, é como se embarcássemos com David Lynch e Alejándro Jodorowski numa carona sem rumo. A parte instrumental é um desfile de criatividade ímpar!

Cinco anos após o debut, o antes duo formado com o músico australiano Anthony Pateras e agora banda com a adição do violinista Erkki Veltheim e o baterista Will Guthrie, lançou nos primeiros dias de Abril Necroscape, sucessor que traz em seu conceito o que os próprios integrantes definem como “rock eletro-acústico modernista”. Se a definição soa estranha, espere só até ouvir o disco!

Com 13 faixas, Necroscape restabelece o que foi iniciado em 2014, mas ganha musculatura com sua nova formação e constrói uma paisagem sonora que tem em suas multicamadas um convite à elegia sensorial. Por entre labirintos de paredes dissonantes, as nuances vocais de Patton colocam o ouvinte em estados alternantes ora de conforto obliterado, ora de onirismo sufocado. Não há qualquer possibilidade de indiferença.

Já na abertura, a faixa-título traz o requinte de melodias que poderiam muito bem terem saído de uma composição de Nick Cave e seus Bad Seeds. A jornada de leveza com que os vocais complementam os arranjos é o mais próximo da linearidade que a música pode chegar. Na sequência, “Cutless Eye” é o contraponto pesado e extremo com uma virada fantasmagórica de pitadas industrial noise. Já em “Haunted on the Uptake”, por entre sussurros e gritos primais, toneladas de cacofonia escorrem dos instrumentos e desaguam em uma poesia repleta de concretismo. O disco segue seu caminho sinuoso e surpreendentemente intrigante/instigante.

Destaque para “Funerale di Un Contadino”, tema composto por Chico Buarque e Enio Morricone que ganha releitura repleta de experimentações e resume muito bem a experiência surreal e desafiadora proposta pelos tētēma.

Necroscape foi lançado em LP e CD a o3 de abril pela Ipecac Recordings, gravadora capitaneada por Mike
Patton, e já está disponível em todas as plataformas de streaming.