Por entre o azul de presença das luzes que cobrem o palco do Maus Hábitos, já se esperava que algo sombrio pudesse emergir. E a verdade é que uns minutinhos depois da hora marcada, lá subiram muito sorrateiramente ao palco os nova-iorquinos The Men. A sala previamente pouco povoada foi-se preenchendo com a aparição do quarteto, e não demorou a que se enchesse com o rugido criado por estes homens. “Killed Someone”, do mais recente álbum que vieram apresentar a Portugal – Drift, editado este ano -, quebrou o gelo instantaneamente com uma ferocidade inerente à sonoridade dos norte-americanos.

O tal lado negro dos The Men foi-se transformando em todo um produto proveniente de um caleidoscópio vivo, marcado pelo grande ecletismo presente na discografia da banda. Apesar disso, o set foi fortemente marcado por Drift, editado este ano, o álbum que vinham mostrar à plateia portuguesa (e não só, pois não era apenas o português o único idioma que se ouvia entre o público), acompanhado pelo álbum anterior, Devil Music, de 2016. Um disco que teve lançamento pela própria banda, no meio da discografia etiquetada com a insígnia da Sacred Records, em que se inclui também o mais recente.

A meio do set houve espaço para Nick Chiericozzi largar a guitarra e se agarrar ao saxofone, uma presença notória em Drift, dando uma dinâmica mais abrangente ao som dos The Men e sentenciando de vez o argumento que esta banda não é apenas mais uma no universo punk: os norte-americanos apresentam algo de diferente, transcendente a muitas fatias do complexo espectro musical. O volume e duração dos aplausos da plateia ao longo do concerto, teve uma progressão crescente à medida que se ia desenrolando, tendo a balada “When I Held You In My Arms” atingido um dos picos mais altos da noite. Mas a apoteose foi mesmo reservada para a música que fechou o grande corpo do set, “Maybe I’m Crazy” que, curiosamente, faz o papel de tapete de entrada para o mais recente álbum. O público ficou rendido à performance do quarteto, enquanto um a um iam abandonando o palco com um loop de um piano a gritar uma melodia que encaixava bem numa OST de um bom filme a preto e branco.

Era óbvio para toda a gente presente no Maus Hábitos que aquele palco não iria ficar vazio de alma por muito tempo, e uns minutos depois os quatros homens de Brooklyn reapareceram para mais uma dose de punk. Rich Samis calou o piano que ainda pairava nas colunas e deu a batida frenética para lançar o encore. De seguida, lançaram para a audiência a mais macia “Rose on Top of the World”, com a qual pretendiam fechar o espetáculo. Já com as guitarras encostadas e após insistentes pedidos da plateia, os olhares dos The Men entrecruzaram-se e acabaram por se decidir desenrolar mais uma canção para brindar quem não arredava pé, acabando o baixista por frisar “This is really the last one”, uma das poucas intervenções da banda para além dos habituais “thank you”.

Ao fim de cerca de uma hora, aquela sala escura coberta de luz azul foi imersa num caleidoscópio de tonalidades sonoras que os The Men teimam em transmitir no seu vasto e diverso reportório. Valeu a pena para quem apareceu. Fotogaleria completa aqui.

The Men @ Maus Hábitos

The Men @ Maus Hábitos