We have wasted History like a bunch of drunks shooting dice back in the men’s crapper of the local bar – Charles Bukowski

Desde que Portugal seguiu as pegadas das outras capitais europeias e incluiu todos os dias da semana no seu calendário cultural, que se pode rechear qualquer agenda sem o desespero de ver o fim-de-semana acabar e ter de ficarmos relegados no sofá durante os restantes dias.

Foi assim numa agradável segunda-feira de finais de Novembro, que o rebanho tresmalhado de fãs de Father John Misty ocuparam os arredores do Coliseu de Lisboa para assistir à sua nova e intensa homília. Um concerto que se ansiava ter lugar fora do âmbito dos festivais – celebração decorrida já nos palcos do NOS Alive e Paredes de Coura em anos anteriores -, para, quem sabe, comungar num ambiente mais íntimo e pessoal, tanto com Josh Tillman como com a sua Persona de Palco.

Nas mãos surpreendentes de Weyes Blood ficou o difícil encargo de abertura do espectáculo. Natalie Mering surge em palco com uma candura e uma intensa alegria, deliciando a crescente plateia com um sorriso fácil e uma estimulante comunicação logo desde o primeiro minuto. Na sua música está impressa uma melancolia e um lirismo profundo que evoca a fragilidade das relações através da trágica doçura da sua voz. O ruído de fundo foi desmaiando aos poucos, e o primeiro embrião de estado hipnótico do público foi-se instalando.

O Coliseu tornou-se um veículo para as belíssimas texturas de sons saídas do álbum Front Row Seat To  Earth, um enorme exercício de observação e análise da humanidade sem julgamentos ou imposições morais. Canções como “Diary”, “Generation Why” ou o colossal “Do You Need My Love”, embalam e quase despem a alma pela letra desarmante e pela dicotomia de tons que Natalie empresta nas variações de sentimentos dentro de cada uma. E se por um lado o público se viu embrulhado num casulo de emoções enquanto Weyes cantava, no minuto seguinte ia deixando escapar um jorro de risadas com mais uma das suas diatribes ou piadas.

O momento alto de Weyes Blood terá sido quando, de forma entusiástica, falou da sua actuação anterior na Galeria Zé dos Bois, em que elogiou na altura a entrega do público português, referindo que nesta noite o calor era ainda mais abrasivo. Esta habilidade em criar um contraste entre a sensibilidade de letras capazes de destruir muros e usar pequeninas jactâncias sarcásticas nos intervalos, surpreenderam e encheram a alma de uma plateia não habituada a mostrar clemência nos primeiros actos do concerto principal.

Weyes Blood Coliseu

O ambiente ficava assim já pavimentado com uma aura de felicidade e um frenesim de antecipação para o homem do momento. À hora estabelecida, as luzes apagavam-se e a banda de Father John Murphy posicionava-se nos seus respectivos lugares, iluminados por imagens projectadas no imenso ecrã que ocupava a traseira do palco. Chegava a hora do tão esperado rendez-vous com o filho bastardo de Nick Cave e Iggy Pop, que nos vem trazer uma sarcástica e introspectiva visão filosófica de uma sociedade contemporânea perdida em labirintos de vaidade, futilidades, desejos, dúvidas, instantes de auto-depreciação e momentos frágeis de uma honestidade acutilante.

“Pure Comedy”, tema-título do seu mais recente trabalho, serviu de arranque para quase duas horas de actuação em que uma pitada do efeito extenuante de uma longa tour mundial se fez notar aqui e ali numa menor incidência da sua expansividade física e interacção entre músicas. Um apontamento quase irrelevante nos momentos em que lançava um olhar ou um sorriso sarcástico para a plateia, de mãozinha no bolso com o seu bambolear à la dândi. Na enorme tela de fundo, as imagens iam servindo de ilustração para as melodias ou para pontuar de forma visual a acutilância de uma ou outra letra. Os jogos de luzes e refletores surgiam amiúde para banhar de cores quentes o palco ou dar relevância em contra-luz à figura de Father John Misty, de guitarra empunhada a disparar palavras íntimas como na poderosa “Balad Of A
Dying Man”:

What he’d give for one more day to rate and analyze 
The world made in his image as of yet
To realize what a mess to leave behind.

As canções sucediam-se de forma disciplinada e irrepreensível sem as habituais surpresas ou discursos explosivos, deixando a plateia atenta ao essencial e àquilo que deveria ser sempre o abandono total à experiência de ouvir um dos grandes artistas contemporâneos, um que arrebata uma audiência inteira graças a um carisma inato que transcende a necessidade de matar momentos mortos num concerto de duas horas.

O alinhamento escolhido para esta tour vai-se metamorfoseando pelos três álbuns, sendo de esperar que quando os primeiros acordes de “Château Lobby #4” indicavam o começo da viagem por I Love You, Honeybear – o álbum mais aclamado de Father John Misty -, a energia de uma sala cheia transformou-se em êxtase absoluto. Canções como “Nothing Good Ever Happen At The Godamn Thirsty Crow” ou “Bored In The USA” levaram o público a soltar as gargantas e cantarem em uníssono. E sem ninguém ter dado por isso, o tempo abriu uma brecha na cápsula protegida pelas orações de Father John Misty, as despedidas estavam a ser feitas, os músicos abandonavam o palco e o assombro segue o sumiço das luzes.

O encore não se fez esperar, com um divertido momento em que Josh Tillman saltou do palco e estabeleceu uma pequena conversa de circunstância com o público e, para gáudio de tantos, leu um ou outro cartaz, acedendo a que lhe toquem na barba e soltando depois o seu tão conhecido lado jocoso e sarcástico. Um sorriso caloroso rasgou-lhe as feições ao agradecer ao público a generosidade e a energia que recebeu e, saltando imediatamente para o palco, serviu-nos os momentos mais inesquecíveis de um concerto até aqui já memorável.

“Holy Shit” e “The Ideal Husband” levaram ao rubro todas as almas cambaleantes, lado a lado com uma deslumbrante e intensa interpretação de “So I’m Growing Old On Magic Mountain”, interpretada com uma voz capaz de quebrar o mais empedernido dos corações. Duas horas de magia, duas horas em que a trágica comédia da condição humana e os temas a ela associadaos, o amor, a morte, Deus e a frivolidade e o tédio contemporâneo, foram atirados de forma certeira e com a rara capacidade de Father John Misty de enfiar um acorde ou uma frase potencialmente fatal num vulcão de emoções que controla de modo asséptico. Esperamos de forma ansiosa o próximo capítulo das orações catárticas de Misty com as lembranças vibrantes de um concerto que ultrapassou todas as expectativas.

Father John Misty