Que o mundo é uma bela e variada aventura capaz de nos trazer as mais belas surpresas, já poucos de nós duvidam. Que nele cabem as mais incríveis surpresas e tesouros musicais, também pouco se desconfia. Contudo, daí até à premissa de vir conhecer toda a música e todo o som, vai uma missão bíblica de contornos impossíveis e inimagináveis. Assim, é sempre de louvar e de aproveitar quando as oportunidades de viajar para fora e conhecer aquilo que fica para além da barreira das coisas até agora tangíveis se dão a proporcionar. O passado serão de quinta-feira na Galeria Zé dos Bois foi, certamente, uma ode ao alargamento desse círculo e dessa aventura ao nele se ter arranjado um encontro inesquecível que nasceu precisamente da viagem e do intercâmbio.

Frequente visitante do Japão em excursões musicais ao vivo Norberto Lobo, já de si uma personagem única no nosso quintal musical bem como no do resto do mundo, teve a oportunidade de conhecer e colaborar com os músicos que nessa noite se juntam a ele e que, vindos até nós desse exótico mundo, por si só trazem uma fértil e mágica unicidade que, felizmente, se deu a mostrar em Lisboa. De dois pólos distintos (onde também se junta o pianista Giovanni di Domenico), a ZdB reuniu dois conjuntos em duas performances que foram, na verdade, um plano sequência. Entre o intercâmbio de membros, os sorrisos cúmplices e uma aventureira excursão sónica no seu todo, naquele palco coube um mundo sem fronteiras ou nacionalidades.

Inaugurando o caminho, sobe ao palco Eiko Ishibashi e os seus companheiros. Com Sudoh Toshiaki no baixo e Tatsuhisa Yamamoto no kit, a multi instrumentista e vocalista lançou-se ao seu posto bi-forcado entre o Fender Rhodes e o piano de parede de entranhas à mostra. Em concentrada sintonia e num quase formal profissionalismo, que sem nunca parecer intimidante ou distante aguçou a curiosidade do método dos artistas e das suas impenetráveis pautas, o conjunto lançou-se então à música. Essa, que ao longo de 40 minutos soou como uma operática mostra de funk matemático, tão exótico como clássico e tão transgressor como pop.

O formato canção é um dos muitos géneros aqui abordados por Eiko mas isso ainda não seria visível no concerto que se iniciou num fluído build up feito de drones de teclado e uma matemática salva de ritmos de bateria, que foi impressionando com a leveza perita que usava para se fazer sentir. Como um barco que se prepara para sair do porto ou uma torre de Legos que lentamente se constroí, também a música do grupo teve o seu momento para lentamente montar as suas peças e aquecer os seus motores, criando um lindo espectáculo estético e sonoro no processo. A cadência de geringonça, com as proverbiais rondalanas, pistões e rodas dentadas musicais, veio a desaguar eventualmente numa auto-estrada molhada de notas e curvas longas quando o espacial baixo entrou para a proiminência e guiou as texturas mais rígidas numa trilho mais felino e maroto.

Do outro lado a bateria respondeu, endurecendo para um formato quase hip hop à medida que a ponta de lança deste trio de ataque se voltou para o piano (que por vicissitudes de um palco saturado de equipamento teve de ficar de costas para nós na maior parte da actuação). Sob a égide dos gatafunhos da pauta e dos martelos que visivelmente foram acusando a cadência visual das notas, fomos lançados para um caldeirão de epicidade e técnicos “sobe e desces” das cintilantes teclas à medida que o tom do som foi atingindo lugares cinemáticos. Não na portentosa maneira à Tecnicolor, mas de uma forma fantasiosa e imaginativa, tão inocente como humana. Irrompe de repente um dialecto incompreensível através de uma doce voz coral, e agora Eiko pode estar a cantar aquilo que nós quisermos imaginar consoante para que lado rebentem as ondas musicais que o grupo vai controlando.

Tirados da pressão da intelectualização ou compreensão destas palavras, as canções do grupo soaram ainda mais livres quando tudo quanto se ouvia era som puro e não significado literário. Uma aventura inocente entre os ritmos gordurosos do baixo e um piano irrequieto e ágil puseram-nos a imaginar estórias de romance ou odes à bela paisagem virgem da natureza. Os riachos das notas agudas lembraram os fantasiosos riachos nipónicos, enquanto os pulos da bateria éramos nós próprios a saltar de pedra em pedra para passar para o outro lado e explorar a próxima clareira sónica onde a Eiko Ishibashi Band nos levava. Na sua mistura hábil entre a pop vocal, o registo de piano clássico e as linguagens mais matemáticas do rock, o grupo fez-nos viajar no assento e explorar de forma virgem e descomprometida uma música que em toda a sua expansão foi técnica e precisa. Eventualmente, deixaram de haver mais folhas para virar e o grupo fazia agora uma vénia não muito convicente, como quem quer sugerir que não tarda nada estará aí a voltar. Esse facto, como haveriamos de ver, estava para ser comprovar mais cedo do que tarde.

Tatsuhisa Yakamoto, que teve esta noite a particularidade de se encontrar depedente de uma muleta a suportar uma lesão na perna, foi o primeiro a regressar. Será ele o epicentro conductor entre os dois espalha brasas de Denki Udon. Giovanni di Domenico, compositor italiano que, de resto, já está habituado a Norberto Lobo, trouxe amigos e haveria de também tomar os seus postos neste caldeirão mágico que se tornou numa autêntica unidade de som. Lobo lançou recentemente Maxuma, o seu mais recente disco, e com ele as novas texturas que foi desenvolvendo desde Fornalha que também foram fazendo uma aparição num concerto bem regado em exploração sónica. Para lá daquilo que é o som convencional, o grupo preocupou-se em criar cuidadas vibrações sonoras tão espontâneas como pensadas e completamente livres de género.

O teclado soou a mil coisas; desde distorção grave, de trovões até guitarras; do outro lado, ouviram-se harpas, violinos e garrafas de águas a ressoarem do kit de Yakamoto. Enquanto isso, o homem das cordas já se via de arco na mão e pedais na outra. Entre imitações mágicas de concertinas, brincadeiras com feeback e outros efeitos, entre a demasiada riqueza sonora para se conseguir enumerar, o grupo foi construíndo e dispondo toda a sua exploração num leio sensorial e físico que nunca se propôs a soar cerebral, parecendo realmente confiar nas mãos e na alma para organizar toda esta estranheza em lindo concerto. Com os Denki Udon, tivemos o privilégio de descobrir música que nunca tinhamos ouvido soar. Desprendidos de regras, standards ou métodos, os músicos inventaram as suas próprias técnicas e criaram som que é a concepção musical de ser verdadeiramente livre, sendo realmente libertadores para quem os ouviu no processo.

Por fim, a guitarra teve de ser pousada, e o barbudo luso tomou o lugar junto do seu parceiro italiano. Partilhando o mesmo banco, vimos agora Norberto, inigmaticamente de folha e microfone entre as pernas, a tomar o teclado, enquanto o seu colega se concentrava no piano. Palmas e sorrisos irrompem quando o resto da ensemble de Eiko Ishibashi (ela própria incluída) se reune mais uma vez em palco para um último trecho de uma performance que, já por si, se sentia tão saborosa. Agora, misturando a aspereza e psicadelia dos segundos com a delicadeza vívida dos primeiros, uma autêntica fusão musical nascia em sintonia gloriosa e assim se viu a preconização de dois concertos que foram na verdade, um.

Abraçados pela virtude do mútuo entendimento, os cinco músicos explicaram, mais uma vez, o que é a liberdade musical, com cada um a ter a oportunidade de mostrar o seu estilo e a entregar a sua unicidade enquanto artista sob a égide de uma democracia e sintonia que os juntou a todos, revelando apenas a melhor das qualidades que as canções tiveram: humanidade, escape e aventura. Para encerrar, e numa partilha de três por um banco enfiado num dos cantos da sala, surge o belo e sorridente momento em que Eiko Ishibashi dá musicalmente a mão a Norberto Lobo num dueto vocal em que a voz de um acompanha o outro em protectora cumplicidade. Inspirador, para se ser conciso, este foi um serão daqueles que se guardará. Aguardamos o próximo encontro.

Eiko Ishibashi + Denki Udon @ ZDB

Eiko Ishibashi + Denki Udon @ ZDB