Está aí para quem quiser ver o poder de sucção da electrónica nos 10’s do novo milénio. Se para alguns a evolução foi gradual, infiltrando-se paulatinamente disco após disco, canção após canção, e até algo previsível – caso dos Bloc Party ou dos Kasabian -, noutros a mudança sentiu-se como um arrombo de porta, num verdadeiro êxodo do interior pastoril e rural que não resistiu às bright lights da cidade e se renderam aos synths após anos de sons exlusivamente ou na sua grande maioria orgânicos, como Bon Iver ou, de forma ainda mais agressiva e marcante, James Vincent McMorrow.

Os irlandeses Villagers de Conor O’Brien alistam-se naquele catálogo de bandas que não resistiram ao magnetismo da electrónica; aquela electrónica citadina, burguesa e que desperta aos primeiros azuis mais carregados do lusco fusco; aquela electrónica das teclas agudas e experimentais, pianizadas e minimalistas, dos sintetizadores que pingam, matematicamente certeiras, numa órbita onde habitam outros que lançam uma tapeçaria ambient que rapidamente se alastra e impregna de luz e vivacidade os delicados tecidos sonoros que no seu tear de sons vão entrelaçando.

Os Villagers alistam-se nesse catálogo, sim… mas foram ainda mais longe; não renegaram as suas raízes bucólicas assentes no indie folk e tiraram, como sempre, a sua viola do saco, dando um toque orgânico de ancestralidade, bem assente na terra poeirenta, que não compromete o passado e não compete com o futuro no novo single intitulado “Fortunate Child”. Não estrangeiro à equação é o traço indelével e indissociável do compositor clássico contemporâneo Nico Muhly – que ao longo da sua história musical se rodeou de nomes como Philip Glass, Grizzly BearAntony and the Johnsons ou Glen Hansard -, que faz o tema elevar-se a uma esfera tão etérea e longínqua quanto palpável e humana

As paisagens sonoras incrustadas nas texturas macias e delicadas de “Fortune Child” – fruto da relação magistral e magnânima dos Villagers com Muhly e materializadas nos moldes urbanos com que se fazem as cidades representadas no vídeo com a linha de horizonte de Nova Iorque -, cravam-se num tempo manipulado e traduzido em pequenos instantes inolvidáveis que marcam e afectam estados de alma nos 6 minutos de duração da composição que, invariavelmente, serão muitos mais num loop infinito de beleza inesgotável. Se é desta forma que se processa a capitulação do purismo da folk ao encantamento electrónico, que seja traduzível numa infindável sucessão de próximos capítulos.

Sobre o trabalho com Muhly, O’Brien confessa:

Creating ‘Fortunate Child’ with Nico was a very intuitive process. The chord structure and frequencies of Nico’s initial soundscape really spoke to me and allowed me to go with the first draft of those string-of-consciousness lyrics. It’s gradually unpacking itself and I hope you enjoy.

Os Villagers encontram-se de momento a trabalhar no seu quarto longa-duração de estúdio, sendo “Fortune Child” uma composição independente que não deverá fazer parte do disco.