a Jigsaw - No True Magic
90%Overall Score

Começamos por criar um personagem. Chamemos-lhe “Cave, Cohen & Cash”. É um revólver. Podia ser um Winchester M1873, ou um Colt Peace Maker, mas este dispara de outra forma, em palavras e ambientes e sons que não são nossos: são distantes e tresandam a whiskey, morte e corpos largados no chão. A “Cave, Cohen & Cash” pende no coldre podre e sujo de outro personagem. Um homem. Será um homem ou um demónio de chapéu de coco e voz de trovoada? Aquelas distantes no horizonte de um deserto com vista para um saloon apocalíptico. As portas rangem, mas entramos na mesma.

Sem magia, mas com um misticismo quase religioso e um amor sem fronteiras pela morte e outras mentiras, os a Jigsaw deambulam em passos firmes e sentimentos disformes ao longo dos onze temas de No True Magic. Onze temas que são becos e ruelas de horror, são nocturnos sem Chopin. A esperança passa fome acorrentada à lua, a uma luz de lua vermelha de sangue.

A “Cave, Cohen & Cash” dispara… cai um corpo, um espectro nasce e desacreditam-se os milagres. É a primeira bala do disco e avisa já quem entra na cidade fantasma que aqui não há magia… Ela, aquela que é a última visão antes do fim, entra porta dentro vestida de negro. Ouve-se uma voz que quase ilumina no tom, mas destrói nas palavras. Carla Torgerson dos Walkabouts dispara a segunda bala debaixo de uma “Black Jewelled Moon” que brilha da mesma forma que os Walkabouts e os Midnight Choir. Os violinos suspiram a herança irlandesa da americanidade e o banjo bebe as palavras. A frase «All your dreams will fade» desfaz todas as dúvidas e a linha melódica – a mais bela deste apocalipse – desenhada num piano e na voz mais Cave que Cohen e Cash de João Rui, faz cair outro corpo no chão. Sem nome nem dono.

“Without The Prize” e “Midnight Rain” são canções de bar e banda sonora southern gothic de uma crónica dos bons malandros. O amor mortífero que não salva, mas engana por momentos. Abstrai-se o assassino, já morto, entre copos coçados e amarelados pelo malte e a silhueta irreal dela… Ela, vestida de negro e sapatos vermelhos de nenhum verniz, entra porta dentro para o levar para a chuva, onde a sepultura já aberta reclama um corpo, com uma voz mais Cohen do que Cave e Cash e canta «São balas, senhora, são balas». São as “Them Fine Bullets” da “Cave, Cohen & Cash” que repousam algo menos que tranquilas no bolso do casaco rasgado que leva para o caixão. Sem flores, nem dores, nem remorsos, nem cores. O bom malandro do homem-demónio de chapéu de coco tem truques. São feitos com fumos, cartas e espelhos, as mentiras e punhais dos blues poeirentos de “The Greatest Trick”… ela faz-se encantada e casa-se e deita-se com ele, vestida de negro e feitiços, mas só enquanto não chega o maior dos invernos e as suas correntes de trompetes e harpas subtis de “Tides Of Winter”, uma peça maior sobre submissão e paixão. Depois… depois ela arrasta-o para o silêncio. E a voz mais Cash que Cohen e Cave abre, de par em par, as portas do saloon do inferno em “The Gates Of Hell”. Ele clama de joelhos pela morte!

Em “Make Straight The Way” e “Bring Them Roses” os Bad Seeds descarregam as últimas balas de prata da “Cave, Cohen & Cash” no corpo já mal tratado da criatura danada e aproximam-no de Deus. É hora de pedir perdão… não. É hora de ser condenado e escorraçado para sempre do reino dos céus, porque Deus não é misericordioso e muito menos ela perdoa, vestida de negro e sapatos vermelhos de nenhum verniz e um leque feito de noite e vingança.

De hoje em diante há um caminho eterno entre os véus dos mundos que separam o deserto do inferno de Dante. “Hardly My Prayer” toca em fundo e não há oração que lhe valha nunca mais.