Para aqueles que não sabiam, fiquem a saber; Yael Naïm é especial, e foi por entre o encantamento da guitarra, do piano e do xilofone que fez magia. Acompanhada pelo parceiro David Donatien e pelo baixista Daniel Romeo, a franco-israelita fez desfilar um concerto intimista numa sala mais que cheia, onde não houve lugar para máscaras nem adereços. Mergulhando numa imensidão de sentimentos e significados, Naïm acabou da melhor forma possível uma tour que tinha iniciado em 2015, num evento em que não se cansou de brindar o público com algumas confidências.

Yael Naïm entrou silenciosamente em palco, acompanhada por Donatien. A roupa negra que vestia era contrastada apenas pelos brincos e o colar de um dourado incandescente que ostentava. Pegou na guitarra e os primeiros acordes interromperam o silêncio, começando com um Father used to take me to a long walk. “If You Could See” iniciou assim o concerto, aquele que seria o último da tour ‘Older’. Naïm sentou-se de seguida ao piano, durante o segundo desfilar de acordes da noite, mas não sem antes seduzir com o seu xilofone, a quem se juntou Donatien, que passou para a bateria, e Romeo, no baixo. “I Walk Until” foi a música que se seguiu. O tema, originalmente gravado em colaboração com a francesa Camille, arrancou movimentos irrequietos a quem assistia. As luzes baixaram para o instrumental de piano, gradualmente adoptando o ritmo da bateria e, quase num dois em um, Yael continuou na sua senda confidencial: You can make a child, but you’re gonna have to dive through, abrindo assim espaço para que “Make a Child” continuasse também a contribuir para o movimento do corpo e vontade de dançar.

Mas o colorido de Yael haveria de mudar de tom e com ela o sentimento, em “Dream In My Head”. Uma versão mais calma e experimental ganhou assim vida diante de uma plateia que ouvia atentamente cada um dos acordes do piano e notas vocais que lhe saiam do corpo. O ritmo aumentou assim que os restantes músicos a ela se juntaram. A voz distinta de Yael elevou-se ao cantar, a cappella I no longer need to hide. No final, dirigiou-se pela primeira vez ao público com um sentido Thank you so much. Hello everybody, we’re so happy to be here tonight.

Yael Naim @ Theatro Circo

Completamente sozinha em palco, Yael soltou um “I miss my friends and my guitar”. Os agudos excepcionais e a repetição de “coward” num loop angustiado e dramático, ecoaram pela sala. Bastaram as 4 palavras de baby can’t you see? para o público jubilar. “Toxic”, tema original de Britney Spears, e reinterpretado por Naïm em estúdio, tomou conta da sala, com a compositora a aproveitar o momento para incitar o público a cantar consigo. A I think you’re ready o público respondia now.

Naïm dirigiu-se ao público, pela segunda vez, mas agora de forma mais aberta e profunda, à medida que ia fazendo revelações e pequenas confidências. A cantora começou por explicar a origem do álbum que a trazia a Portugal e à cidade minhota: I lost someone very close to me and I became a mother for the first time… and now for the second time, apontando para a barriga que já se fazia notar, so we’ll see what music it will bring. Explicou, também, que chegou a uma fase da sua vida em que percebeu que um dia tudo iria acabar, acrescentando: I was not very happy to discover that one day it will be the end, so I try to enjoy a bit more what I have now, the present… Interrompida por David, de riso aberto, Yael explicou: Dave is laughing because, just before I walked on stage, I was crying… I think it was the hormones”, arrancando gargalhadas ao público, também.

Da plateia, alguém pedia “Far Far”, mas foi com “Trapped” que o concerto continuou. Sem violinos, nem violoncelos, uma versão minimalista mas bela que encheu as medidas ao Theatro. Batendo palmas e os pés no chão, com um ritmo que o público prontamente acompanhou, Yael deu início a “Walk Walk”, um tema a fazer lembrar o r&b dos 60’s e que acabou por se tornar no momento alto da noite. Dividindo o público em dois, atribuiu, a cada um, um tom diferente para que cantassem os versos “walk walk high” e “walk walk by”. Sentando-se na borda do palco e com a voz do público a servir-lhe de apoio, Yael continuou: “You’re gonna take my road, gonna make this road”, afastando o microfone do seu corpo e fazendo-se valer unicamente da sua poderosa voz. Logo de seguida, soltou um “get up, get up“, enquanto fazia sinal ao público para que se levantasse. Não só se levantaram, como dançaram, uns com mais jeito do que outros, enquanto a sala era decorada por palmas.

Yael Naim @ Theatro Circo

Seguia-se “New Soul”, o single que lhe deu reconhecimento mundial e um dos temas mais aguardados da noite. Desta vez era Romeo que dava o ritmo ao público para acompanhar. Num momento de clara alegria e satisfação, o público juntou-se a Yael para o la la la final. Para o encore, Romeo já não voltou. O momento ficou reservado para Yael e Donatien, que entre o amor, a crença e a harmonia que partilham, criaram um dos momentos mais bonitos da noite. Afinal de contas, it’s been 12 years since we’re doing music together”, como Yael fez questão de relembrar, a dada altura do concerto.

No centro do palco, foi colocada uma mesa com o xilofone para onde Donatien se deslocou. Naïm não se fez esperar e, ao seu lado, voltou a pegar na guitarra. “Crazy”, tema original de Gnarls Barckles, soou pelo Theatro mas numa versão mais calma e introspectiva que o público, vertiginosamente, abraçou. O momento que se seguiu ficou marcado pela nostalgia com Naïm a recuperar “7-Baboker”, tema presente no seu álbum homónimo de 2007. A canção, totalmente cantada em hebraico, foi acompanhada pelo timbalão dominado por Donatien, fazendo vibrar a plateia com uma imensidão de ritmos e batidas.

O concerto parecia chegar ao fim; Naïm e Donatien fizeram uma vénia, acenaram e saíram do palco. Mas o suspense não tardou a ser interrompido. Havia tempo para um segundo encore, este ainda mais especial. Para o finalíssimo, Yael reservou “Ima”. This song, you can sing a little bit with me or in some parts do mmm”. O público sorriu, percebendo logo de que música se tratava e acedeu de bom grado ao pedido. Sozinha em palco com o xilofone, Naïm desvendava um pouco das suas raízes francesas e israelitas. A música, que se assemelha a uma doce canção de embalar, encantou toda a plateia.

Para terminar em beleza chegou “Older”, tema que dá nome ao álbum. Yael trocou, pela última vez, o xilofone pela guitarra e Donatien mostrou que o piano era mais um dos instrumentos que dominava. Numa última ovação de pé, Yael distribuiu beijos pelos técnicos, músicos e pelo público. Abraçou e beijou Donatien e o público aplaudiu ainda mais alto. O concerto superou expectativas e confirmou o porquê de Yael Naïm ser considerada, actualmente, a melhor artista feminina francesa e uma das melhores do mundo. E é, de facto, uma artista verdadeiramente talentosa, capaz de transformar o mais ínfimo dos sentimentos em sonoridades poéticas e ricas.

Yael Naim @ Theatro Circo