A última vez que nos cruzámos com Moses Sumney não foi assim há tanto tempo. Entre a despedida do verão e os primeiro esgares do outono de 2016, Moses lançava Lamentations – um EP auto-editado -, e emprestava a voz carismática de sereia-homem negra aos The Cinematic Orchestra em “Too Believe”. Menos de um ano depois, Sumney encontra um lar para os seus hinos delicados e assina pela Jagjagwar para a edição do seu primeiro longa-duração ainda sem data marcada mas que fica desde já como uns dos debuts mais aguardados do ano.

Nascido em San Bernardino, Sumney muda-se para o Gana aos dez anos e regressa anos mais tarde, prosseguindo estudos em escrita criativa na UCLA. Autodidacta, tímido, admirador confesso da irrealidade – I love Instagram because it’s a curated reality, dizia ele à Issue Magazine em 2014-, calmo e observador. Sumney deixou já a sua marca em termos de composição e voz em trabalhos de gente como Beck no disco Song Reader, “Show Me Love” dos Hundred Waters, Local Natives, Solange, Andrew Bird e Son Lux entre outros, colocando as probabilidades de já se terem cruzado com ele, inconscientemente ou não, em alerta vermelho. Biografias à parte, o facto é que Moses Sumney é um daqueles casos raros de compositores que deixam marca aos primeiros toques na pele de quem ouve as suas canções frágeis, etéreas e desesperadas.

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De forma a oficializar o casamento com a Jagjagwar, Moses lança o vídeo para “Doomed”, o seu primeiro sinal de vida sonora no decorrer de 2017. Realizado por Allie Avital, com quem já tinha trabalhado em “Worth It” de Lamentations, “Doomed” é um conto visual enigmático, flutuante e negro de contornos alienígenas que remete para a origem de tudo, para um local de nascimento onde o líquido amniótico é aquilo que condena a todos a uma vida de solidão e isolamento. Moses não retira nem uma vírgula ao registo que lentamente tem vindo a construir, e lança mais uma canção de contornos electrónicos e soul noir únicos muito mais próximos do fantasma de Jeff Buckley do que de Stevie Wonder. Para quem ama Buckley, Benjamin Clementine, Bon Iver, James Blake e Antony and the Johnsons ou, simplesmente, para quem acredita que o sonho é a melhor das maldições. Profundo, enigmático, este é Moses Sumney.

Moses Sumney - Doomed

Moses Sumney – Doomed