Sentimentos de descontentamento e de eterno desconforto de que na nossa contemporaneidade são poucas as coisas que demonstram a qualidade do que foi produto das para sempre eras de ouro, são sempre impulsionadores de sentimentos de nostalgia. Ver ao vivo uma banda que nos apaixonou mas que, por envolvimento do fado, não nos foi possível estar presentes no momento áureo da sua carreira, é em absoluto um catalizador recorrente dessa nostalgia. Ouvir The Chameleons em pleno 2017 é a culminância da aurora boreal desse sonho. Para quem já os viu e viveu na altura em que se formaram, ou para quem apenas se cruzou com eles já durante este novo milénio, as diferenças serão poucas no que toca a assumir essa saudade irreal.

O início da tour europeia deste ano da reencarnação viva dos Chameleons começou em Portugal, na Invicta. O Hard Club recebeu a pulmões cheios os heróis da sua infância, um dos marcos do post-punk e as músicas de uma vida. Com uma sala lotada, as gerações cruzaram-se no espaço em que a música reúne realmente o equilíbrio da vivência humana.

We are all The Chameleons” é a frase que dá nome à tour e é também uma forte declaração que Mark Burgess, vocalista e baixista do grupo de Manchester, faz questão de partilhar com os presentes nos concertos. A incapacidade de querer que as faixas da formação original da banda lhe pertençam a sí só é de louvar. Quem o acompanha agora faz parte da história da lendária banda: são a sua continuação e é com espontaneidade que se fundem com as músicas pesadas e sombrias dos Chameleons primordiais. “Swamp Thing” abre as cerimónias com o seu riff, indiscutivelmente reconhecível, começou um percurso que até agora era audível ao vivo apenas no imaginário de muitos e nos caminhos de reencontro para várias mãos cheias de seguidores que continuamente continuam a estar presentes em todos os concertos que a banda de Burgess tem trazido a Portugal nos últimos anos.

Ainda é de admirar com tremenda estupefação a forma como os Chameleons não alcançaram um sucesso maior, embora diante desta audiência, nada provaria que isso era verdade, apenas que estávamos diante de umas das mais influenciadoras bandas de todos os tempos. Todos os aplausos de um recinto cheio e letras cantadas em uníssono provavam isso. As guitarras surgiam com um som limpo e afiado, numa nuvem quimérica estupenda que acompanhava o fumo que habitava o palco. Apesar do período rico em muito boa música que vivemos, a viagem temporal e espacial de estarmos perante as melodias camaleónicas que se poderam ouvir no Porto é indelevelmente um privilégio. “Soul in Isolation”, a cover de “Eleanor Rigby” dos Beatles, “In Shreads”, “Perfume Garden”, “View from a Hill”, “Less Than Human”, “Up The Down Escalador” ou “Monkeyland” são agregadoras de vozes e harmonias numa ligação que não se vê entre o palco e o público, mas que dispensa todas as descrições ou imagens visuais para se fazer sentir que efectivamente somos todos Chameleons.

As camadas sonoras que as guitarras criam formam uma atmosfera única nas músicas dos The Chameleons Vox e são um dos aspectos que os tornam tão singulares no que fazem. Além de instrumentais que provocam uma sensação de ascensão, as letras aparecem como uma sombra dos demónios que os perseguem com ecos das suas perturbações a ouvirem-se em várias faixas. Pensamentos tão recorrentes e que se escondem no nosso presente, mas que aqui são claros e meios fáceis para nos perdermos nestas odes a uma melancolia saudável.

O cântico de “Second Skin” foi entoado com exaltação quando a banda sugeria um fim, que não era de todo aceite pelos presentes que esperavam um dos maiores sucessos do grupo. A humildade no sorriso e agradecimento de Burgess perante as palmas que se faziam ouvir valeu a pena a angústia do termo próximo do concerto.

Belgrado @ Hard Club, Porto

Belgrado @ Hard Club, Porto

Antes dos The Chameleon Vox, os catalães Belgrado assumiram o estrelato no Hard Club. Em palco, a hipnotizante Patrycja Proniewska deixou os presentes fixamente agarrados aos seus movimentos. Em sintonia com as suas músicas, a vocalista cantou em polaco enquanto se movia meticulosamente e captava a total atenção para a sua presença. A banda de post-punk de Barcelona apresentou o seu novo Obraz, distinto dos seus trabalhos anteriores pela mistura com dub e sintetizadores. Nostalgias ou viagens no tempo à parte… “We are all The Chameleons”.