“Recordar é viver”, já diziam os nossos avós, e por isso vamos recuar aos divisivos 80’s, mais precisamente ao ano de 86’. Roy Orbison acaba de gravar Class Of 55 como tributo a Elvis com a família da Sun Records (Johnny Cash, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins); Bob Dylan volta às raízes judaicas depois de um passeio pelo cristianismo e recupera forma e vigor artístico após um pequeno deslize que só as lendas entendem; depois de escrita a sua autobiografia I Me Mine e da perda do seu irmão Lennon, George Harrison lança Cloud 9 (1987), reconciliando-se com a crítica (não que precisasse) e volta aos charts; Jeff Lynne ajuda na produção do álbum do ex-Beatle e na do seu camarada Tom Petty que por estas alturas quebrou o coração dos Heartbreakers e lançou Full Moon Fever (1989) a solo.

É neste conjunto de eventos e peripécias que se cruzam caminhos, criam-se amigos e fazem-se álbuns com eles. Roy, Bob, George, Jeff e Tom lançam Volume 1 em 1988 sob o pseudónimo The Travelling Wilburys. Orbinson, que faleceu semanas depois do lançamento do disco, não teve a oportunidade de participar no segundo e último LP, Volume 3. E é nesta linha de camaradagem que se lança um novo Volume 1, mas desta vez deixamos as lendas de lado e abrimos caminho para a miudagem fresca e vigorosa dos BQNT (Banquet). Eric Pulido e o seu grupo Midlake convidaram Alex Kapranos dos Franz Ferdinand, Ben Bridwell dos Band Of Horses, Fran Healy dos Travis e Jason Lytle dos Grandaddy para se reunirem e averiguarem em que resultava este encontro complementar.

A ideia começou a florescer no ano de 2013, mas é só este ano, a 28 de abril, que o supergrupo indie lança o longa-duração, conciliando idas a Denton (onde foi gravado), com sessões através de videochamadas. E este é um álbum que, apesar de não ter uma forma conceptual unificada, está intrincado de boas canções, que são capazes de sobreviver sozinhas. Este é um disco curioso, tanto pela conjunção de elementos que à partida não se esperaria que se agregassem, mas também pela visão que nos oferece. A forma que todos os músicos arranjaram para se esquivar (uns mais que outros) às teias limitativas que podem ser os anos passados ao lado das mesmas bandas, prova a versatilidade e a vivacidade destes artistas.

E caso disso é Eric Pulido, o cabecilha deste supregrupo. Quem ouvir qualquer música de “Antiphon” – último álbum dos Midlake –, e de seguida escutar as duas faixas compostas por Eric, vai entender o que queremos dizer. Se “Antiphon” é, por um lado, um álbum premeditadamente introspectivo e cuidadoso na produção, por outro a primeira canção do álbum dos BNQT é uma faixa explosiva e imponente. Propositadamente ou não, não deixa de ser irónico que umas das faixas mais circulares e redundantes tenha o nome de “Restart”. É indiscutivelmente uma ótima maneira de arrancar com um disco.

Com uma batida ainda enérgica, mas pintada de cores diferentes, Pulido compensa a impetuosidade com slides suaves e instrumentos de sopro crescentes arrancados de um hino nórdico em “Real Love”. Com um início muito beatlesiano, a voz de Pulido vai-se sobrepondo com a ajuda de Bridwell e Kapranos nos back vocals que juntos criam uma paisagem fresca e arejada. Contrariando o paradigma de Pulido, Lytle compõe duas faixas com personalidades semelhantes, ainda que peculiarmente distintas. Por um lado, “100 Million Miles” é alicerçada numa batida incisiva e soturna, com um refrão capaz de nos transportar até à estratosfera.

Voltamos a bater de cabeça no chão com o refrão, mas é com o solo de guitarra e refrão seguinte que voltamos a descolar. Fica-nos a impressão que Lytle se poderia ter atrevido um bocadinho mais em tons de acompanhamento espacial. Por outro lado, “Failing At Feeling” é uma viagem que nos mantém sempre no céu, em que acompanhamos Aladino no seu tapete voador numa viagem ao mundo em 4 minutos e meio. Os instrumentos de sopro contribuem brilhantemente nessa excursão onírica, assim como os back vocals e a voz de Lytle que canta repetidamente “I’m failiing at feeling”, como um mantra.

Quando vemos o nome de Fran Healy nos BNQT, ficamos logo a saber que o álbum terá pelo menos um suspiro melodramático e melancólico. Vestida visceralmente de cores reflexivas e tristonhas, o elemento dos Travis engana-nos com um falso final em “Mind Of A Man”, que é logo mergulhado em vocais prolongadamente graciosos e delicados. Até aqui tudo bem. O que não sabíamos era que Fran tinha uma besta rock n’ roller dentro dele… apesar de domesticada. Num formato simples, com uma guitarra pintada de blues e com os back vocals sacados dum estúdio da Motown dos 70’s, abre-se pista para Healy que poderia ter aproveitado melhor a pujança que a música comporta.

E se falamos em ousadia, o nome que nos salta à vista – mas só a meia altura –, é de Alex Kapranos. “Hey Banana” é uma faixa que demonstra um atrevimento inicial interessantíssimo, com um diálogo sensual de Kapranos com a dita banana, mas que no refrão acaba por seguir a fórmula previsível de crescendo, circular e frouxo. E esta é, infelizmente, a doutrina seguida pelo supergrupo que parece só ter explorado a ponta do iceberg quando tinham todo um monumento glaciar para aproveitar.

Referindo-se à fusão improvável dos BNQT – ou não -, Bridwell sobe a montanhas de ar puro com teclados para lá construir uma casota confortável com a ajuda de sopros leves e com uma voz mais baixa que o normal. “Unlikely Force” foi a segunda música a vir ao mundo e veio com os ares ancestrais dos 70’s. Se esta criação nos transmite uma alegria epicurista, “Tara” é definitivamente das faixas mais cativantes do 1º Volume. Com contrapontos extremamente certeiros, tudo está no lugar certo à hora certa. Porque a magia cria equilíbrios, crescendos, complexidade e espontaneidade. Se acontece termos apenas uma guitarra acústica a marcar o ritmo, passados 10 segundos entramos num turbilhão instrumental em que uma flauta trilha o solo até perder a alma, apenas para os mais atentos. É aqui que todos os instrumentos se benzem perante os de sopro que formam uma melodia aguda final insaciável. Para fechar o álbum, Kapranos desenha mais uma balada existencial, numa divagação acerca da sua relação com o mundo, com travos de guitarra e sintetizadores desolados.

Pulido já tem planos para um segundo volume, mas desta vez com integrantes diferentes. Os nomes falados são Rufus Wainwright, Norah Jones e John Grant.