Difícil será a tentativa de definição precisa de um álbum dos King Gizzard & The Lizard Wizard sem a noção que nem eles próprios se levam assim tão a sério – mesmo sem ignorar a complexa teia de composições instrumentais velozes e solos fogosos. E o que salienta ainda mais essa aleatoriedade e a filosofia um tanto ou quanto blasé e paradoxalmente focada é o conceito subjacente a cada álbum que os australianos editam. Murder Of The Universe, o nono álbum de estúdio da banda que chegou a 23 de junho, narra as aventuras de um cyborg que inventa uma máquina de vómito para aniquilar o cosmos. Sim. Isso. Se isto não justifica cabalmente uma boa dose de randomness, o que o fará?

Nonagon Infinity, aquele que foi sétimo álbum da discografia dos rapazes de Melbourne, editado em 2016, opened the door (trocadilho intencional) para que esta banda com um nome um pouco ou tanto trava línguas entrasse nas bocas do mundo, e se esperassem com altíssima expectativa, os cinco álbuns anunciados para 2017. A prolificidade desta armada de sete bestas em palco – e que marcou presença na edição deste ano do NOS Primavera Sound -, tem vindo a ser comprovada com o lançamento de nove discos em seis anos de existência. Numa linha nem sempre condutora de conceitos e estilos no decorrer da carreira dos King Gizzard & The Lizard Wizard, Murder Of The Universe surge como uma ode a Nonagon Infinity e uma espécie de seguimento na sua complexidade.

Murder Of The Universe ganha essência e legítima a sua existência e forma em três capítulos de uma narração sci-fi psych e krautpunk que nos arrasta para uma aura conceptual onde uma insanidade saudável se debruça sobre a temática da decadência da humanidade, e não oferecemos resistência ao poder de sucção do disco e da forma emocionante como a banda a incorpora nas suas músicas. Com um seguimento notório no decorrer da sua audição, Murder Of The Universe interliga as canções em estruturas lineares como se uma música fosse decomposta aos poucos e aperfeiçoada ao longo do tempo, fornecendo também uma imagem imaginada com exímio detalhe.

Numa entrada que resgata um ambiente muito Blade Runner, o primeiro capítulo “The Tale of the Altered Beast” principia esta odisseia rock na narração serena e arrepiante na voz da cantora e compositora Leah Senior. Já não é novidade para a malta de Melbourne o interesse em spoken word – um elemento primordial que faz parte da brilhante “Eyes Like The Sky” do disco com o mesmo nome de 2013 – e que penetra no disco e lhe confere um lado mais sombrio e mórbido. Mas nesta primeira e segunda parte, a narrativa feminina casa bem com a melodia que não é impingida: é mais um complemento da exploração de um conto onde o tom angelical emana pinceladas de frigidez.

Em “Altered Beast IV”, os versos So crooked and curled is your point of view / There is no other creature more malicious than you expõem a humanidade na versão crua e real da sua crueldade, desprezo e crescente espírito malévolo, e quase que nos diz como um monstro carnívoro pode possivelmente retratar a mudança dos comportamentos do Homem na sua vilania. Esta faixa surge como a mais tenebrosa, até no seu clímax onde a guitarra aparece mais pesada e imponente. A linha do baixo de tónica bastante funky transporta este conjunto de tonalidades fortes em guitarra, synths em que os teclados se prolongam no espaço e harmónicas explosivas nesta espécie de suite de 20 minutos que é “Altered Beast”, com uivos poderosos por parte do vocalista Stu Mackenzie.

Como qualquer álbum odisseico, este registo dá voz a personagens, que neste caso nos desenham uma metáfora do colapso ecológico que poderá ter consequências apocalípticas. No segundo fascículo, a ação passa para uma batalha fatal entre um “Lord Of Lightning” e um “The Balrog”. Com acenos a riffs de Nonagon Infinity contidos em “I’m In Your Mind Fuzz” e “Paper Mâché Dream Balloon”, esta segunda parte tem nonagon’s repetidos, cantos guturais e mais vestígios de jazz integrados. “The Lord Of Lightning” aparece como uma surpresa a meio deste disco, com mais alterações de sonoridades e experimentações que terminam com duas tempestuosas baterias descontroladas mas certeiras. As criaturas são apresentadas como se fossem opostas, enfrentando o olhar uma da outra num ring de boxe. É em “The Balrog” que se ouve o maior número de faíscas psicadélicas com sintetizadores à mistura, com harmónicas e as flautas mais condizentes com Flying Microtonal Banana.

Culminando na destruição do universo por um cyborg homicida, a terceira parte chega como aquela que carrega maior peso: “Digital Black” é um tema que nos fala dos abusos da tecnologia e da inteligência artificial, e é neste capítulo que conhecemos Han-Tyumi, o cyborg que pretende aniquilar o universo  através da expulsão de vomitado, e ouvimos as passagens mais absurdas e hilariantes. É inegável que todo este trabalho em estúdio tem aspetos muito ambiciosos que transcendem as criações anteriores da banda australiana, mas é nas últimas faixas, narradas agora por esta voz robótica e em género de “Thriller”, que o spoken word soa a demasiado. Não chega realmente a conjugar-se com a musicalidade extraordinária dos temas dos King Gizzard e parece que queremos “calá-la” de forma a apreciar os solos na sua totalidade.

Depois de Flying Microtonal Banana, editado no início deste ano, Murder Of The Universe é um deleite para os fãs mais dedicados da banda e partidários de um psicadelismo modernista revolucionário, e confere uma neblina desorientadora onde paira o absurdo. Audacioso, é uma obra que prova como os King Gizzard não irão descansar em nenhum momento próximo.