Nota do redactor: A seguinte história e subsequente captação de imagens para o seu conteúdo ocorreram no Ateneu Comercial de Lisboa e no estabelecimento cultural Primeiro Andar, graças à boa vontade dos responsáveis por cederem o espaço. É importante frisar a vitalidade que um espaço histórico como o Ateneu Comercial de Lisboa tem para a cultura da cidade, nomeadamente pelo facto de ser quase exclusivamente o único espaço de intervenção cultural e social no pleno centro de Lisboa. Presentemente, o futuro do Ateneu permanece incerto a favor da venda da infraestrutura imóvel e seguinte reconversão para um negócio turístico. Isto levaria a que espaços como o Primeiro Andar, presentes no Ateneu, encerrassem e deixassem de existir. Como agentes de divulgação cultural e promotores da cidadania, consideramos esta uma situação de risco e plenamente negativa para as artes e a cidadania em Portugal. Assim apelamos a atenção para a seguinte causa e petição. Informem-se mais clicando aqui.

Um obrigado pela atenção.

Tens vinte? Então ainda és mais novo que nós!” – Exclama-me Miguel Figueiredo, o guitarrista cabeludo dos Galgo que eventualmente faria 22 anos um dia depois da nossa conversa no court de basketball no Ateneu Comercial de Lisboa (Parabéns, Miguel). “Juventude” é uma palavra demasiado redutora para definir a essência dos Galgo, mas certamente é uma componente muito vívida e charmosa no ADN da banda . Este animado grupo constituído por Alexandre Sousa, Joana Batista, João Figueiras e Miguel Figueiredo concordou em encontrar-se comigo e com o Pedro Almeida, o homem da lente para esta história, no acima mencionado espaço (emblemático todos os novembros por ser um dos palcos com mais carisma do Mexefest) para falar sobre Galgo. De caminho houve ainda tempo para parar no Primeiro Andar para fotos.

Os Galgo são provenientes dos soalheiros lados de Oeiras, preferem a azáfama real ao mundo virtual, não se importam se alguém manda um “prego” em concerto e nos últimos tempos têm-se tornado numa presença relativamente incontornável na cena da música lisboeta. Tendo batido terrenos como o Reverence Festival Valada, o Nova Música (que se passa na casa académica de Miguel, a Nova SBE) e o NOS Alive!, e ganho a edição do transacto ano do Oeiras Band Sessions, os quatro garotos estão lançados num bom ritmo mediático e apreciativo que já lhe conferiu uma vistosa e energética base de fãs, numerosa nos concertos. E isto tudo para quem ainda está para lançar um début. Mas a visão deles é mais modesta e até, digamos, distraída desta imagem:

Eu acho que sempre que as pessoas são novas nunca pensam nisso…” (que estão a ser bem recebidas), diz entre dentes Joana, a dona do kit. “Eu penso sempre que ninguém nos conhece”, acrescenta Alex, vocalista e guitarrista. A azáfama do concerto mantém-nos um bocado alienados do que está a acontecer em palco (no caso de Miguel, acrescenta, também há o cabelo), mas até parecem gostar de não terem de estar a discernir tudo: “Eu até gosto de continuar nesta cena de pensar que as pessoas não me conhecem e estarem a dançar porque estão surpreendidas, remata Alexandre.

A completar o quarteto está João Figueiras, o baixista que traz o groove a um grupo que já de si emana o seu próprio tipo de groove específico. Todos estudantes universitários (cuja rotina académica serve como um instrumento de organização pessoal entre os assuntos da banda e os restantes projectos), são um grupo de jovens que se junta para criar esta amálgama colorida chamada Galgo onde cada um se destaca pela sua individualidade. Joana é a pragmática do grupo (e a pessoa que juntamente com Miguel, se gostava de levantar cedo para ver os pontos históricos durante a viagem a Budapeste), balançando com o relaxo de João. Miguel e Alex oferecem um tempero à base do calor e do entusiasmo. É da mistura entre eles que vem o combustível que acende este Galgo, que para além da brincadeira também se alimenta de dedicação: “quando é para trabalhar cada um tem a sua característica assim forte que vai puxando para que [isto] aconteça, por isso é que tem funcionado tão bem e por isso é que também somos amigos”, diz Joana.

Cada um de nós é divertido e depois juntos somos ainda mais divertidos e na música acaba também por transparecer isso” – Alex refere que a música é feita de diversão mas esta também está visivelmente pairando no ar do Ateneu Comercial: Aproveitando todas as pausas numa sessão fotográfica que eles próprios ajudaram a conceptualizar, para brincarem e meterem-se uns com os outros, a jovialidade e a cumplicidade dentro dos Galgo são palpáveis imediatamente no espírito leve da sua postura e na descontracção latente que demonstram. Um cariz que provavelmente é explicado por Galgo ser essencialmente um fruto de amizade. Miguel e Alexandre por exemplo, conhecem-se desde o 5º ano. Mas tudo começa posteriormente, quando Miguel sai da escola em Linda-A-Velha para fazer o 12º ano em Miraflores na turma onde conhece Joana. “Ela tocava bateria e eu estava a dar os primeiros toques na guitarra. Começamos por ter um projecto”.

Da esq. para a dir.: Alexandre, Joana, Miguel, João (fotos por Pedro Almeida)

Da esq. para a dir.: Alexandre, Joana, Miguel, João (fotos por Pedro Almeida)

Projecto esse para o qual brevemente Miguel chamaria o seu já conhecido Alexandre (ou só Alex), que por sua vez havia crescido a ouvir música com João Figueiras, “O Baixista”, para usar o referente que o seu fiel /guitarrista vocalista foi utilizando para falar dele durante a entrevista. Mas a história de João “O Baixista” Figueiras nos Galgo estaria para nascer apenas posteriormente a este trio, fruto de uma conversa com Joana numa viagem de finalistas para Barcelona, onde também esteve: “Sentíamos falta daqueles sons graves e perguntei se não se queria juntar. Acho que já tinha havido essa ideia antes, mas pronto, foi a partir daí que ele se juntou”.

Surge então a cave do Miguel e as sessões de ensaios que viriam a encubar um quarteto com uma configuração ainda bastante diferente daquilo que são hoje os Galgo. O grupo originalmente começou por tocar covers. “Éramos os Fool The Raccoon. Era clever”, recorda Alex, com um sorriso. Foi como estes enganadores de ladrões, como a banda explicou acerca do nome, que os quatro jovens músicos partilharam as suas influências e foram crescendo musicalmente entre eles. Foi também de onde eventualmente surgiram os primeiros, “ingénuos”, temas originais.

Essas influências reflectiam-se no repertório de covers que incluía bandas como Arctic Monkeys, The Black Keys ou Strokes. “Era o indie rock”, diz Joana Batista, num tom brincalhão de como quem recorda a inocência dos miúdos. Tirando para Alex e João, que já tinham tido uma ou duas bandas juntos, esta foi a primeira grande experiência musical para Miguel e Joana e uma fase obviamente vital para a consolidação dos eventuais Galgo. Essa transição potenciou-se em novas dimensões quando todos os seus intervenientes se viram na posição de estarem a fazer um 13º ano. Foi uma altura onde puderam consolidar a sua relação e estarem mais tempo juntos para ensaiar. Foi desse tempo que começaram a surgir os primeiros originais e posteriormente a serem plantadas as primeiras sementes para o projecto Galgo. “Foi um pulo enorme”, diz Joana.

Mas dos primeiros concertos metade covers/metade originais até às alturas vertiginosas da “Torre de Babel”, o pulo que os Galgo fizeram foi feito acima de tudo, de uma forma instintiva, sem grandes planificações no horizonte. Num verão em que já se sentiam “desesperados” com falta de concertos, de uma imagem e de um nome, eis que tudo aparece de repente. Originalmente destinado a ser o nome de uma música, “Galgo” passou a ser o nome do conjunto depois de Joana ter escrito a palavra no quadro e esta ter chamado a atenção aos restantes colegas.

Tendo em conta a sonoridade da banda, uma pessoa poderia facilmente levar-se a convencer que toda a imagem e o próprio nome tinham sido relativamente planeados, como se a própria banda girasse à volta de um conceito que fosse muito descritivo da velocidade mecânica transmitem. Alex desmistifica essa noção, afirmando que foram “só” várias peças soltas a convergirem de uma forma realmente muito bonita, aliadas pelo eterno amigo da banda, o instinto. “Se calhar no princípio foi um bocado ingénuo. Na altura ficamos, olha é um bom nome soa bem… mas depois começamos a ver e tinha tudo a ver connosco. Galgo, a cena da música estar sempre a galgar… Acabamos por encontrar um conceito bem definido numa altura em que também éramos mais maturos e começamos a pensar duma maneira diferente em termos mais de conceito, onde tudo tinha de se ligar”.

Entretanto, nasce a mascote canina e toda a iconografia “Egipto-encontra-a-ficção científica” da amiga Rute, colaboradora da banda e contribuinte para a componente visual de Galgo, que, inspirada pelo que ouvia num ensaio, aliou o som da banda a uma dimensão mais descritiva. É muito curioso verificar como os dois meios convergem tão bem, e como a imagem nos Galgo consegue ser tão fiel à música que banda toca. O casamento entre os rosas e esverdeados fluorescentes e a figura do cão de caça produz uma sinestesia com as guitarras afiadas e agudas que deslizam por entre os padrões circulares velozmente mecânicos e quadrados. Simultaneamente modernista, mas vincadamente tribalista, é assim que este Galgo se veste.

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Passamos então para os tempos presentes, pós-concursos de bandas que os levaram ao Sziget Festival na Hungria e para o lançamento de EP5 no outubro passado. Baptizado assim como uma fuga ao número quatro (“somos 4 e estamos sempre a fugir ao 4/4”), é um trabalho composto por quatro músicas quase instrumentais que se podem genericamente colocar na linha de um math rock vibrante banhado a um afrobeat primordial e calibrado. Um pouco como as dinâmicas rítmicas gerais, também a textura dos temas dos Galgo se faz no balanço. Um balanço entre a ferocidade e o perigo, e a diversão e a dança, como exemplarmente demonstra “Trauma de Lagartixa” onde o grito de guerra que dá título à canção ecoa sobre um rasgão pesado de guitarras que eventualmente se dissolve numa dança entre repetitivos padrões de notas, que fazem as cordas um instrumento de ritmo, aliado à bateria que empurra a música para a frente.

Vibrante e colorida, há uma certa “pica” canalizada a sair da música dos Galgo, que ao vivo não sai de apelos como “vamos lá, pessoal”, mas sim da genica apressada dos instrumentos que parecem dizer isso mesmo. Um concerto ao vivo dos Galgo é sinónimo de movimento e dança que deve tanto à nuvem eléctrica futurista como à natureza rudimentar e inconsciente do tribalismo rítmico, que vai directamente para os músculos do corpo. “É uma pilha de nervos, e depois há os stresses de logística e estarmos atrasados e termos técnicos de som chateados connosco”, conta, risonho, João Figueiras.

Esta pilha de nervos acaba por ser um catalisador explosivo para a receita ao vivo dos Galgo, segundo Alex, que fala de “bué adrenalina”: “Depois quando nós entramos em palco com isso tudo acumulado [os stresses dos preparativos técnicos] e com a música que tem bué pica, um gajo fica completamente com uma descarga total, sei lá, de tudo e mais alguma coisa”. Joana resume a coisa de forma pragmática: “Basicamente stress de soundcheck é bom para o concerto”. É uma tensão saudável e controlada que é cada vez mais um esforço uníssono e uma engrenagem irracionalmente sintonizada, que já permitem que cada um “esteja a curtir a cena”, sem terem que estar muito auto conscientes do que estão a fazer. “Entramos assim numa espécie de hivemind, entramos todos na mesma vibe”, resume o João.

A certo ponto, apetece-me confessar: “A minha impressão pessoal do vosso concerto ao vivo, é que é tudo uma sessão gigante de passadeira rolante no ginásio. É um instinto de velocidade e exercício”, recordando o Jameson Urban Routes, no passado outubro. “Pode ser, pode ser, dá para perceber!” – a banda ri-se e parece entender onde eu quero chegar. A sensação de cronometragem e de constante balanço são dois elementos bastante responsáveis por essa adrenalina tanto para a parte de quem assiste como quem toca. Joana vê-se a imaginar com seria um concerto de Galgo com toda a gente a correr na passadeira, e refere que aquilo que mais gosta de tirar das performances ao vivo é o movimento dos corpos: “Eu tenho o desejo enorme de quando estou a tocar que as pessoas estejam a dançar”. E dançar é certamente uma das coisas a esperar de um espectáculo ao vivo de Galgo. Acompanhar-lhes o passo também é outra.

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Voltando a lembrar o Jameson, nesse concerto dava-me também a impressão de estar a ver Alexandre a fazer a função muito mais de treinador de fitness do que propriamente vocalista. Havia algo nas suas letras surreais, de métrica extremamente rígida, que lhe davam a textura de incentivo a correr mais (ou dançar mais, neste caso) e que pareciam funcionar mais como elemento rítmico e instrumental do que propriamente lírico, uma camada que tem sério encanto na vibe vitaminada da banda, que “se aparecer, aparece, se não aparecer não aparece”. Miguel concorda comigo: “Nós vemos [a voz] bastante como um instrumento e uma maneira de passar não tanto uma mensagem mas se calhar mais uma emoção ou uma melodia ou um ritmo. Utilizamos uma voz muito rítmica porque achamos que faz sentido com a música”.

Por acaso agora temos vindo a dar mais [importância] e temos estado a pesquisar mais sobre esse universo da voz. Agora há mais microfones no estúdio”, atira para o ar Alex, dando a entender que mais uma vez, tudo poderá ser regido pelo instinto, que a este ponto, parece ser a força motriz e criativa da banda. E é aqui que chegamos aos preparativos para o primeiro disco, que já está praticamente composto, e para onde o tempo livre do grupo será investido com a vista a melhorá-lo e a fazê-lo crescer. Dos tempos dos Fool The Raccoon até a este ponto, todos parecem concordar que juntamente com objectivos um bocado mais concretos, também surgiram métodos de trabalho mais fixos.

Ainda assim, a maneira de fazer as coisas dos Galgo continua a basear-se centralmente num esforço colectivo de troca de ideias e muita experimentação, por vezes mais concisa, mas sobretudo exploratória e aérea. Muitas das vezes, a saída de uma encruzilhada ou o caminho a seguir para um tema, surgem por mero acaso: “É um bocado à toa, entre aspas” – explica Joana. Essa tendência poderá vir a aguçar-se e a agilizar-se agora que o grupo conseguiu arranjar um 4-track para ter na sala de ensaios e mais facilmente se poderá lançar na senda da experimentação, agora mais sábia depois da concepção de EP5.

 “[O EP] ensinou-nos muito. Percebemos que é um bocado difícil produzir e gravar o nosso som e temos de ter mais cuidado e estar mais atentos”, adverte Alex. Por outro lado, Joana refere a importância que teve o facto de a banda ter acompanhado o processo de masterização das gravações para lhes conferir o “palavreado” técnico essencial para expressarem e entenderem o que lhes interessa em estúdio, antevendo até uma certa vontade da banda eventualmente se tornar mais auto-suficiente no que toca à produção dos seus discos: “Já conseguimos perceber o que é que nós podemos fazer”.

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Neste momento a banda está focada em criar e em melhorar o que já tem para depois eventualmente levarem o primeiro disco a estúdio, pelo que ainda não conseguem aferir objectivos e caminhos muito concretos em termos de composição. A direcção geral do disco surgirá com as mãos da criação dadas com as mãos da produção e o tempo mais acrescido que o grupo agora tem tido está canalizado nessas questões e progressos. Entretanto, vão surgindo algumas luzes sobre o trabalho em curso, que a banda tem vindo a descobrir e a desvendar por ela própria.

As músicas que estão fora do EP estão a ficar um bocadinho mais surpreendentes. Com ainda mais variações e um bocado mais progressivas. Acho que estamos a evoluir nessa direcção mais dinâmica”, comenta João. [Ainda assim] “é mais numa lógica de continuação do EP, do que uma afirmação assim muito grande. É um seguimento. Não é o do género ‘está aqui o EP e agora é que somos nós mesmo a sério’. Vamos continuar a amadurecer”. Miguel fala também de uma vibe ainda mais dançável e um processo que passa por muito por uma progressiva obtenção de capacidades e confiança.

Mais interessados em ir descobrindo até onde a própria força motriz das circunstâncias (semelhante aliás, àquela que rege as suas músicas) os vai levar do que propriamente procurarem delinear detalhadamente um caminho, os Galgo provavelmente partilham menos o instinto caçador do titular animal do que conservam a sua agilidade e constante sede por movimento e exploração. Descobrir de que formas o Cão se mutará no presente e futuro é algo que estará para breve e que se irá estender para outros meios: Está também na calha o lançamento de um documentário sobre a banda feito por uma equipa norueguesa que os encontrou através de uma amiga portuguesa de Erasmus em Oslo e que seguiu o grupo nas suas rotinas diárias. Sobre o filme, Alex apenas tem um esclarecimento a fazer: “Eu não fumo”.

Entretanto o que está à vista é uma jovem banda em curso num caminho fluido e lançado. Por enquanto focados na restante composição do disco e em tocar uma teia de datas pelo país, onde vão aproveitar para testar material novo, os Galgo continuam a encontrar recepções calorosas onde são encontrados, com plateias entusiasmadas e risonhas que sempre fazem questão de se manter no ritmo quente e afiado do grupo. Por entre o ritmo, a dança, a velocidade e as cores fluorescentes, o mote da banda é o da diversão. “Quando estamos [os quatro] juntos podemos sim ser um Galgo”. A julgar pelo apelo que parecem transportar, o número de gente a galgar é para ir crescendo.