“Amor e Verdade” é a canção plantada à entrada de Luís Severo. Podia não querer dizer nada, resumindo-se apenas a mais uma cantiga, mas “Canta, voz, canta/Dá-me uma esperança/Nesta cidade/Se o medo já se alevanta/Canta de amor e verdade” antecipa algo maior, como uma declaração de intenções à porta de um disco que não parece ser homónimo por acaso. Esses intentos foram concretizados na passada quarta-feira perante a plateia esgotada do Teatro Ibérico. As paredes austeras e atmosfera fria do ex-convento foram aquecidas pelas vozes de quem canta o que lhes vai na cabeça, na alma ou no coração. Desde que seja verídico, aqui vale tudo.

Falamos em “vozes” porque, apesar da noite ser sua, Luís Severo não veio sozinho – Lucía Vives, da família Xita Records, abriu as hostes com um set curtinho, tal como o EP produzido por Severo que lançou em Fevereiro. Acompanhada apenas pela guitarra eléctrica, as canções de Lucía são bedroom pop que se recusa a sair com toda a força, de lírica adolescente e directa ao assunto. Os refrões orelhudos sobre dedilhados circulares nas cordas revelam potencial que, infelizmente, morre na praia da execução – o sussurro monocórdico e a escassez de expressividade simplesmente não mexem a agulha.

 

Luís Severo @ Convento do Beato

Lúcia Vives @ Teatro Ibérico

 

O que Lucía partilha com Luís Severo é, no entanto, a vontade de manifestar com pouco ou nenhum filtro o que lhes der na gana. Tal como aos grandes que o fizeram ao longo das décadas, a nossa atenção será sempre devida. De figura franzina, especialmente comparando com o imponente piano de cauda que o acompanha durante grande parte do serão, Luís Severo surge por detrás das fartas cortinas do teatro e dedica-se desde logo a servir canção incrível atrás de canção incrível. Se não o fossem, não sobreviveriam neste formato ambicioso, sempre mais arriscado que em banda, por muito ou pouco electrificada que seja. Claro que não é obra do acaso que os arranjos requintados em disco se traduzam de forma tão bela nas teclas.

Mesmo quando não era o centro das atenções, o som corpulento do piano serviu de base perfeitamente complementar à voz de Severo: mais dinâmica ao vivo, mas sempre subserviente aos belos poemas, fórmula que prendeu a audiência desde o princípio. Ocasionalmente, o cantautor permitiu a indulgência em trechos mais instrumentais, mesmo sem chegar a níveis de virtuosismo técnico, tudo a favor do bem conseguido equilíbrio palavra – música.

 

Luís Severo @ Convento do Beato

Luís Severo @ Teatro Ibérico

 

Já as palavras, essas, merecem mais destaque que nunca, pois o segundo álbum de Severo representa um subir de patamar assinalável em termos de escrita. Seja em forma de quase-diário como em “Olho de Lince”, ou na sinceridade agridoce de “Escola”, Luís canta com o peso que só carrega quem sente verdadeiramente o que lhe sai pela boca. Esta osmose com o que o rodeia é também a justificação do Lisboa-centrismo de agora e de antes. Na prática, é só mais uma âncora na realidade que torna ainda mais convincentes as peripécias amorosas e conflitos internos típicos da transição para a idade adulta sobre os quais nos confessa.

O jeito natural para as melodias doces, no entanto, era já bem conhecido desde Cara d’Anjo – ainda bem representado no alinhamento -, desde o irresistível “Canto Diferente” até à belíssima “Lábios de Vinho”, a fechar a noite à guitarra acústica com direito a um brinde em forma de coro – uma de várias ocasiões –, da cortesia do público. O ambiente sentido era de facto de aclamação. “Ainda assusta pensar no homem que um dia posso vir a ser”, canta Severo. Quanto ao músico, não restam quaisquer dúvidas. Enorme.

 

Luís Severo @ Convento do Beato

Luís Severo @ Teatro Ibérico