O tempo costuma frequentemente encarregar-se de ir amenizando a dor de vários pedaços gélidos de vida, feitos a partir de deambulações por memórias menos felizes, e de tantas vezes as ir metamorfoseando em recordações repletas de fantasias carinhosas com pouca ou nenhuma correspondência com a realidade e a história das coisas. É um desconforto que se vai apagando, uma dor que vai desvanecendo, uma angústia que vai suavizando e que vai dando gradualmente passagem a uma ilusão. Não raras vezes, esse mesmo distanciamento temporal, conjugado com novas e frescas camadas de vivências, neutralizam a sensibilidade em relação aos fracassos, mágoas e frustrações, construindo-se novas experiências sem o peso atormentador do que já lá vai; noutras, o presente saboreia-se insosso à fria luz do dia e perde sempre em comparação, pondo-se longe do conforto tão frequentemente irreal das memórias de outros tempos.

Fink fez uma canção precisamente sobre a sombra e o papel do passado no desenvolvimento pessoal de cada um, embora faça questão de transmitir que o novo tema não é de todo de sentimento triste, e que a sua condição desafiadora não renega a uma linha lírica optimista e persistente. A música de Fink desenha-se, desde os seus momentos seminais enquanto artista, com o que de mais profundo existe na humanidade, sem remorso e sem vestígios de resignação, com a particularidade de ressoar de forma quase biológica e metafísica, seja na sua encarnação desafiadora da gravidade, oscilante entre os recantos mais escuros dos oceanos e a vastidão oca do cosmos, seja nas suas pautas balouçantes entre a simplicidade desarmante das acústicas e a experimentação transgressora do trip hop, e tantas vezes a aliança entre essas duas realidades sonoras tão paradoxais.

“Not Everything Was Better In The Past” resgata um passado sonoro que não é, definitivamente, pior do que aquilo que nos lembramos dele; consegue encadear a tão familiar viola acústica de Fink com uma atmosfera criada a partir de elementos electrónicos. Leve mas carregada, melancólica e reflexiva, o novo tema faz parte do álbum Regurgam que será lançado no próximo dia 15 setembro deste ano via R’COUP’D, pertencente à Ninja Tune, mesmo a tempo da actuação do britânico em Lisboa, no Teatro Tivoli BBVA, no dia 6 de Novembro, e no Porto na Casa Da Música logo no dia seguinte.