A perspectiva descontruída da world music pela electrónica industrial dos Metal Preyers
100%Overall Score

Sem ilusões, o metal não mora aqui. Aqui mora-se numa savana de máquinas electrónicas pouco suavizadas, de predadores da noite urbana e da selva de concreto em contraste directo com uma africanidade industrial e de pesadelo.

Os Metal Preyers são a dupla do produtor londrino Jesse Hackett e do artista plástico e visual de Chicago, Mariano Chavez. Juntos há cerca de dois anos a trabalhar no projecto visual Teeth Agency, uma amálgama entre a sua paixão pelo macabro e bizarro com a mestria de ambos nos seus campos de acção, os dois engendraram um plano que consistia em levar o também produtor da capital inglesa, Lord Tusk, para o quartel-general da Nyege Nyege Tapes em Kampala, no Uganda, para darem à luz (negra em todos os aspectos e vertentes) o conceito de Metal Preyers. Missão cumprida: o plano correu na perfeição e o resultado é este disco homónimo que além das visões dos três envolvidos, consegue arrastar Otim Alpha, Lawrence Okello e Omutaba, músicos étnicos ugandeses para dentro de um mundo futurista atípico e surreal.

Metal Preyers, tanto a ideologia como o resultado, equivale a uma visão narcótica de um safari pelas ruas caóticas da capital do Uganda pelos olhos turvados pela chuva neon, a um replicant Rutger Hauer em Blade Runner transformado na Diva Plavalaguna de Fifth Element. Estranho o suficiente para captar a atenção? Siga para a viagem!

Kampala é aqui vista como o armazém de ópio que fornecia a Bristol de Tricky em tempos passados mas é também e não só, um íman de pontos geográficos, todos eles situados em pontos do globo onde a humidade bloqueia as actividade pulmonares, favorecendo os delírios psicotrópicos que cada um desses lugares na Terra pode fornecer. Aqui e ali surge a cumbia a cuspir bocados de Colombia, há as altas altitudes dos pampas e dos Andes onde é impossível respirar sem folhas de coca, há uma sofreguidão de sudeste asiático que pede uma esteira de palha no chão e um cachimbo de paz em contraste com o ruído distante das ruas de Manila.

Tusk, Hackett e Chavez fazem encontrar pontos de encontro onde aparentemente não os haveria, basta toda a atenção do mundo para descobrir ecos de guitarras de metal industrial, ambientes de grime mais escuros que o TON 618, os simples ritmos africanos, a gritaria maquinal dos Throbbing Gristle, mapas-estelares de drone, ritmos de post-punk descontruídos em debulhadoras fabris e ritualismos mágicos africanos. Um álbum laboratorialmente inventado para ser um experiência sensorial, sexual, neurológica, futurista, ancestral e absolutamente vanguardista.

Um maremoto de luzes apagadas numa cidade cheia de tudo, deserta de sobriedade. Um disco para ir regressando com todos os cuidados… o pecado está sempre ao virar da esquina à velocidade arrastada da luz.