O caos assola o mundo nos últimos tempos. Todos foram obrigados a ficar em seus respectivos espaços, impedidos de ver quem amam ou sequer abraçá-los, respeitando o limite de um metro e meio de distância entre você e qualquer pessoa. Esse distanciamento seria normal há três semanas. Ninguém fazia tanta questão em demonstrar afeto ou preocupação com o próximo que não seja íntimo. Hoje, visto de maneira singela, assistimos à dualidade que há entre o egoísmo e a empatia exposta pela sociedade, que nem sequer aprendeu a conviver com o outro e muito menos com a “solidariedade social”. Agora, se vê obrigada a isolar-se na própria “bolha”. 

De repente, todos se vêem naqueles filmes de ficção-científica que o cinema insiste em nos assombrar sobre o futuro da humanidade com seus fantasmas virais e sociais soltos pelas ruas. Muitas vezes citados nos clássicos como Blade Runner (Ridley Scott, 1982), Alien, o Oitavo Passageiro (Ridley Scott, 1979) e Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago, 1995), se materializam na sociedade que vive hoje o colapso da destruição expansiva desde a Revolução Industrial e Gripe Espanhola.

De certo modo, esses fantasmas têm várias facetas e representações. Muitos deles assombravam o belíssimo Rio do Tempo, disco de 2017 de Apeles, cujo sua essência era otimista e as composições eram baseadas em personagens fictícias ou histórias de amigos. Esses fantasmas, mesmo assim, não foram completamente enterrados, mas exorcizados e purificados em Crux, editado em 2019 na Balaclava Records, segundo disco de Eduardo Praça sob seu pseudônimo. Tal exorcismo gerou oito faixas que eleva o ouvinte a ter uma experiência tanto sonora quanto sensorial em menos de 30 minutos de duração

A carreira de Eduardo Praça se construiu no underground paulistano entre os Ludovic e o maravilhoso Quarto Negro. Trazendo em suas composições os reflexos do sujeito contemporâneo diante de seus fantasmas e demônios acarretado pela modernidade (pós-modernidade) — não que este seja o foco do eu lírico —, mas de algum modo afeta indiretamente o autor ao retratar alguns temas como a liquidez dos tempos, efemeridade das relações interpessoais, a superficialidade, a visão de mundo e ao mesmo tempo, insegurança e angústia.

É um rastro que separa/Angústia e alegria
É a luz da madrugada/É o som da nostalgia
É o vento que me corta/É o vício que te vence
Teu sangue quente nobre/É refém da decadência

As letras em Crux são viscerais, mostrando a maturidade do cantor/autor Apeles ao se expor e falar abertamente sobre as suas frustrações, traumas e lembranças. Revelando em sua própria embriaguez a sua vaidade. O precipício e o marasmo hedonista de uma pós-festa vestida somente para ele de ressaca, dando-lhe a luz a um universo cheio de autoconhecimento e expurgo em detalhes minuciosos e tangíveis de um cenário sombrio e caótico. Todos esses questionamentos foram trabalhados e refletidos no vocal fantasmagórico e sofrido que suplica por clemência, que remetem a sensações de distanciamento e desgaste, percorrendo entre as lamentações e alívios das guitarras, do piano e nos sintetizadores elevando as letras em outra dimensão de forma criativa e natural.

Outro ponto forte a se citar no disco é a identidade visual tanto na estética quanto na poética. A arte gráfica a cargo de Izabel Menezes da capa lembra um pouco Joy Division do disco Closer devido à sua tipografia serifada e diagramação… As flores secas sob o tecido branco simbolizam a pureza, a fé e a redenção, contrapondo Apeles vestido de preto como um “padre” no centro, representando a morte para o mundo na ótica de Manoela Moura, directora de arte, junto com a fotografia desfocada  de Rodrigo Bueno. 

Essa poética em si é muito clara na preocupação de Eduardo em relação ao seu trabalho. Como é vista em seus belíssimos clipes que traduzem as canções de forma nostálgica, sutil e significativa: “Demônio Bom“, “Rio do Tempo”, “A Alegria dos Dias Dorme no Calor dos Teus Braços”, “Torre dos Preteridos”, “Pássaro Nu e o recente “Deságua”. Inclusive, a música “Pele” será um dos temas do longa-metragem Boni Bonita de Daniel Barosa, que entrará em cartaz em Abril.

O rio já não deságua
A carne é solitária
Já fui teu oceano
Hoje navego em desamor

No clipe “Deságua”, os registros executados pela câmera revelam a personificação — minimalista e imagética, características visíveis nas obras anteriores de Apeles -, em sua poesia visual. Os planos abertos são cuidadosos e sutis, pois revelam os cenários que os jovens transitam dando a sensação de isolamento e desprendimento ao desvendar aquele território selvagem e carnal, longe do caos que habita as grandes metrópoles. Ali, eles se desprendem do passado criando um novo sentido ao que já existiu para eles mesmos.

Daniel Barosa (direção e roteiro), Lucci Antunes (fotografia) e José Menezes (edição) brincam com as ambientações atmosféricas do disco na hora de traduzir em imagens os detalhes tão pessoais que somente Crux traz. Eles deslizam diretamente com o efêmero, as relações, o colapso urbano, a solidão, o pânico, o medo, a liberdade…

Hoje eu sou um rei num trono frágil de penugem
Distorcendo outras vidas, envolto em piedade
Me escoro sob a sombra do passado
Relutando meu futuro, seja bem vindo jaz aqui tua liberdade

Crux é a produção mais pessoal e dolorosa que Eduardo poderia criar enquanto Apeles, resultado de um trabalho sem urgência, produzido ao longo de três anos entre São Paulo e Berlim. É um disco sincero que busca a libertação do passado e do presente em letras pessoais e nostálgicas devido a sua sonoridade com a disco music dos anos 70, o pop dos anos 80 e o grunge dos anos 90.

Ouvir Crux é desvendar o mundo e a nós mesmos. É estar ciente de que existe um labirinto dentro de você cheio de assombrações… É falar do desejo de exorcizar os fantasmas e demônios que habitam os nossos corpos, sendo eles tão frágeis. É ter a ousadia de despi-los de suas próprias vestes e vê-los diante de nós em carne viva, purificando-os… E, ao mesmo tempo, é um labirinto cheio de fé e desejo de viver enquanto nos afogamos no peso do mundo e de seus fantasmas reais que assombram livremente e se mantêm alojados no poder, nas classes sociais e até mesmo invisíveis, nos proibindo de qualquer contato físico abalando as estruturas sociais e emocionais de uma sociedade que irá rever seus conceitos nas próximas gerações.

Crux já está disponível em todas as plataformas digitais e no canal do YouTube da Balaclava. Neste mês de Março e Abril, Apeles iria realizar sua turnê solo para a divulgação do seu disco em Porto e Lisboa, mas devido a pandemia do COVID-19 (Coronavírus) foram cancelados.