Impermanence , editado em Fevereiro passado, não é o primeiro disco a solo de Peter Silberman, mas o seu primeiro álbum em nome próprio. Quando os The Antlers ainda eram um projecto pessoal, Silberman compôs a totalidade de Uprooted de 2006 e de In the Attic of the Universe de 2007 e só mais tarde, com a gravação de Hospice em 2009 se juntaram Michael Lerner e Darby Cicci à estética musical da banda norte-americana, transformando uma one-man band em trio. Foi, aliás, com Hospice – considerado um dos melhores álbuns de 2009 -, que os The Antlers alcançaram o reconhecimento mundial, álbum que viu como herdeiros discográficos Burst Apart de 2011 e posteriormente Familiars de 2014, o último registo de estúdio até à data.

Embora o contributo de Michael e Darby tenha sido sempre inquestionavelmente imprescindível, houve algo que nunca mudou na estrutura e modus operandi dos The Antlers: as composições ficaram sempre a cargo de Peter e, talvez por isso, Impermanence tenha vindo a ser apontado como uma continuação dos últimos trabalhos da banda. As emoções cruas, as palavras carregadas e a essência trágica que sempre explorou sob um pseudónimo colectivo, deixam vestígios de si neste novo longa-duração que continua a seduzir com a sua delicadeza e fragilidade.

inspiração para a composição do novo trabalho surgiu de um problema de saúde que enfrentou no ano passado. Depois de anos a tocar ao vivo, estando constantemente sujeito a volumes excessivos, Silberman deu por si a não tolerar sequer o som da sua voz. Sendo afectado por um problema de surdez total em dos ouvidos, chegou até a considerar pôr fim à carreira que tinha vindo a construir há mais de dez anos. Impermanence é o resultado da agonia que se apoderou do seu corpo e alma. Carregado de pausas e silêncios que são, como Peter explica, “as important as the words themselves”, o som, estilo e toda a atmosfera envolvente de Impermanence transportam-nos para o peculiar universo de Jeff Buckley.

O single “Karuna”, palavra de origem híndi que significa compaixão, é a faixa mais extensa do álbum e a que melhor exprime esta semelhança. Pesarosa nos versos que introduzem-nos a natureza melancólica do disco, sobressaem os falsetes angustiados que se revelam perante uma união pura entre voz e guitarra.  “Impermanence”, o tema que dá nome ao álbum, exprime de forma crua o tormento emocional de que foi alvo. Puramente instrumental, a faixa dá lugar a pequenos zumbidos e ruídos de fundo numa tentativa de nos tentar expor e fazer-nos perceber aquilo porque passou. Por outro lado, “Ahimsa”, também ela uma palavra híndi que significa uma rejeição à violência, é a canção que melhor incorpora o carácter meditacional de todo o álbum. A melodia calma, os versos soltos que apelam à não injúria e o próprio piar de passarinhos com que termina apaziguam toda e qualquer luta interior com que nos possamos vir a debater.

Já a balada sussurrada contida em “New York” causa empatia imediata e destaca-se dos restantes temas pelo seu tom carismático. Nela, Silberman reflecte sobre a tentativa de fugir ao barulho e de recuperar o silêncio que, repentinamente, se tornou inexistente, levando-o a trocar Brooklyn pelo norte da cidade. 

Para promover Impermanence, Silberman tem apresentado, aos poucos, um vídeo para cada faixa, gravado no Glass House Museum. Em plano sequencial o música actua e, não muito longe de si, duas pessoas ilustram as canções, através da dança ou de uma performance mais teatral. Para já, estão disponíveis os vídeos de “Karuna”, “New York”, “Gone Beyond” e “Maya”.

Com este álbum, Peter Silberman espera ser capaz de ajudar quem precisa, oferecendo uma nova perspectiva acerca da vida e de tudo aquilo que se faz do imprevisível. Afinal de contas, o disco é uma ilustração do caminho que percorreu entre o barulho e o silêncio, a confusão e a paz. É sobre a procura de um novo rumo que dê de novo sentido à vida.

Peter Silberman - Impermanence

Peter Silberman – Impermanence