Se a fusão de géneros e a dissolução da matéria, muitas vezes aquosa, com que se definem fronteiras estilísticas são o sustentáculo da afirmação e identidade sonora de tantos artistas num formato que, apesar de admirável, tantas vezes já pouco se enquadra nos trâmites sempre dinâmicos da inovação, aqueles há que pertencem a uma casta que respira num plano superior e que fazem da arte de fazer canções verdadeiras revoluções, não só de âmbito sonoro, como também de vertente cultural e social, abrindo nos compêndios restritos da História um lugar perpétuo e imortal.

Obaro Ejimiwe sempre foi um pouco mais desigual que os outros e provou-o sobejamente nos três álbuns que lhe desenham a carreira e com a qual alcançou nomeações para o prestigiado Mercury Prize por duas vezes, quase três. Coincidência não foi e, ao contrário do que tantas vezes acontece nos meandros musicais, o reconhecimento de uma métrica desconforme e distinta chegou logo em 2011 com a edição do seu disco de estreia Peanut Butter Blues & Melancholy Jam.

Fora dos radares discográficos desde o lançameto de Shedding Skin em 2015, Ghostpoet regressa em 2015 com um tema universal, transversal e impermeável a uma actuação política mais assertiva. Mais que uma autêntica antologia sonora assente numa fusão, negra e inquebrável, entre o spoken-word e o trip-hop alicerçada numa distorção de sintetizadores – daquela tal casta superior a que também pertencem os Massive Attack e Tricky -, alinhada com riffs de baixo tão sumptuosos quanto ásperos, uma guitarra post-punk rematada por um drum kit profundo e surdo, “Immigrant Boogie” é também, e principalmente, uma narrativa sobre a imigração, uma temática que, por via familiar, conhece bem. Ejimiwe confessa:

It’s a first person account of a difficult journey across borders, partly intended to ask those who have questioned the arrival of refugees in recent times what they would do in the same situation.

The song is written in two halves – the first hopeful for a brighter future, while the second sees hope snatched away by forces beyond the control of the storyteller. There is an important story to be told there, but I wrote the song in a way that aims to capture a broader human truth: that while we are all working for a better life for ourselves, we have to accept that we are not in control of the outcome.

Com a participação dos post-punkers Shame nos vocais e Leo Abrahams – que geralmente acompanha os Wild Beasts e os Frightened Rabbit -, na guitarra, “Immigrant Boogie” marca o regresso de um artista que mais que inovar, encontra uma esfera de sobrevivência na provocação. Desconhece-se, por enquanto, se o tema fará parte de um futuro álbum de Ghostpoet. Que já tarda.