A salvação do indie-rock pelo indie-rock de 'Collector' dos Disq
88%Overall Score

Isto pode ser muito bem aquele disco indie-rock que salva o indie-rock de si mesmo, o disco de indie-rock mais genuíno e franco com que 2020 vai levar na boca. Os Disq fazem música como só aquelas bandas cujos seus membros estão acabadinhos de entrar nos seus 20’s sabem fazer, onde ainda tudo é angústia, onde tudo é uma falta de fé em tudo o que lhes vem de trás e se assoma pela frente, com a rebeldia no seu ponto-rebuçado, apesar de já sem o desespero dos teenage days mas com uma certeza: já é tarde demais para não crescer sabendo que alguém enganou em relação ao futuro risonho da idade adulta. E agora, como é que se volta para onde não se quer estar mais, sabendo que nenhuma das alternativas de hoje em diante parece prestar para alguma coisa.

De Madison, Wisconsin, ali bem no midwest onde o emo cresce nas árvores e se embala no tédio dos baloiços dos pátios do high-school, os Disq sabem, apesar de não parecerem quer ir para lado nenhum, os caminhos que hão-de tomar para lá chegar. Espreitar para debaixo da cama de Raina Bock, Isaac de Broux-Slone, Shannon Connor, Logan Severson e Brendan Manley é encontrar, por entre restos de fatias de pizza que ontem já tinham demasiado tempo, sacos de roupa do último treino de american football e revistas impróprias para a catequese, um campo de destroços e referências tão rico como a mina de Argyle na Oz o é em diamantes.

Os putos estudaram com a atenção de melómanos dedicados durante décadas. E agora contam tudo na sua própria linguagem. Contam como os Pavement se fizeram catedráticos do slacker através dos seus ritmos semi-atabalhoados – é consultar logo a primeira página de Collector para ver o anagrama inexistente, mas tão claro de “Daily Routine” -, de como Kim Deal explicou ao mundo com que riffs de baixo se definem duas das maiores bandas da cena alternativa, ou de que forma os Beatles têm culpa nisto tudo recorrendo a uma espécie de psicadelismo ruidoso e pop, como em “Konichiwa Internet”. Depois atiram com os Devo, os Black Lips, Bowie, Bloc Party e Teenage Fanclub para um saco-de-gatos atado com uma corda romba pela mão de Frank Black e Elliott Smith, e dizem que não querem ir para lado nenhum… mas com toda a urgência do mundo.

Um lugar junto nas grandes revelações do ano já ninguém lhes tira e se alguém vos disser que os Disq arranjaram logo espaço para se encaixarem, sem pedir licença, numa nova geração de bandas de guitarras, simplesmente acreditem e deixem-nos habitar o mesmo espaço que oferecem a Sorry, Parquet Courts, Soccer Mommy ou Shame.