Dando seguimento ao ecletismo do primeiro dia, que teve como protagonistas The Wedding Present, Mão Morta, Beak>, Future Islands e a brilhante Kate Tempest, o Vodafone Paredes de Coura é alvo de mais uma dose de artistas de linguagens sonoras diversas, que desta vez, apresentam algo mais de comum entre si. O relógio toca as seis e meia da tarde do dia 17 e já se vêm jovens sentados na relva do palco principal, abdicando da quietude do lindo Rio do Coura para preservar um bom lugar no recinto. Esta é uma atitude mais que compreensível, tendo em conta a ementa musical do dia.

Com as suas batidas peculiarmente estaladiças e com uma humildade aprazível, os You Can’t Win Charlie Brown cumpriram a sua função de sacudir o pó do palco do dia anterior, abrindo as portas para o recém-gigante Will Toledo e os seus Car Seat Headrest. A mancha de festivaleiros que se foi reunindo aquando do espetáculo de YCWCB exaltou-se ao ver, precoce e inesperadamente, Will Toledo em palco. Sem arrogâncias ou vedetismos, Will entra simplesmente para montar a sua parafernália sonora e acertar os últimos arranjos técnicos.

Aos olhos de um espetador/interpretante mais desatento, este pode parecer mais um acontecimento natural e insignificante. No entanto, esta é uma atitude que comporta e transmite a disposição que Toledo assume perante a sua figura e reputação. É deveras interessante e oportuno traçar um paralelismo entre Will Toledo e Sam France – vocalista dos Foxygen -, sendo duas figuras que pisaram o mesmo palco, que pertencem à mesma geração, mas que, ainda assim, parecem girar em órbitas diferentes. Sam France, foi o último da sua banda a entrar em palco e o primeiro a sair, havendo ainda espaço para uma troca de vestuário, demonstrando toda a dimensão performática, teatral e burlesca da sua atuação. Para além do look ostentoso e deslumbrante, todos os seus movimentos parecem ser premeditadamente ensaiados, como uma personagem de Hollywood bem estudada. Se Sam transmite a ideia de que sabe bem o que está a fazer, Will bafeja ares tímidos e de inexperiência em lidar com a fama e contemplação de uma enchente de millenials. Acrescentando à lírica adolescente, auto-consciente e de auto-descoberta do norte-americano, a atitude retraída perante o público pode ser mais um motivo de afinidade e semelhança sentida pelos fãs.

Car Seat Headrest @ Vodafone Paredes de Coura 2017

Os Car Seat Headrest ganharam, muito provavelmente, o dístico de mösh mais rápido de Paredes de Coura, partilhando o primeiro lugar talvez com Ty Segall. O tempo de pegar na guitarra e dedilhar as primeiras notas de “Fill In The Blank” foi o suficiente para levantar toda a poeira presente no recinto. Este serviu de antro de satisfação de prazeres canibais e animalescos, capazes de curar qualquer ressaca da noite anterior, ou de piorá-la quinze vezes mais. Com tanta poeira, cada um de nós sentiu as palavras de Toledo na pele: “I hold my breath, I hold my breath, I hold it”.

Ao mergulhar pelo último álbum do norte-americano – “Teens of Denial”, editado em maio do ano passado -, afundamo-nos não só na sua música, como também na sua pessoa, nos seus amigos, nos seus familiares e na sua adolescência. Este mergulho é bem profundo e dele arrancamos os sentimentos mais crus e bizarros da sua existência que, apesar de parecerem à partida estranhos, acabam por se nos entranhar na consciência e tornarem-se atraentes. O álbum de Toledo vai construindo uma vontade de nos enfiarmos num quarto com dois ou três amigos e arruinarmos o nosso cérebro com drogas cozinhadas em casa, para depois nos arrependermos eternamente dessa decisão.

É curioso debruçarmo-nos sobre a lírica de Toledo, como acontece nos versos “Last Friday I took acid and mushrooms/ I did not transcend, I felt like a walking piece of shit/ In a stupid looking jacket” e posteriormente analisar a sobriedade e seriedade com que encara uma multidão indomável de pessoas que partilham experiências e pensamentos semelhantes. Apesar do embaraço omnipresente, a sua voz eleva-se nos momentos mais preciosos e precisos (não ao seu expoente, devido à qualidade do som) e deixa de transparecer o comedimento físico. Para além do título de mösh mais rápido, os Car Seat Headrest adquiriram também o brasão de conteúdo mais temático em Paredes de Coura. Numa ascensão transcendente, Toledo entoa o mantra capaz de resumir a existência da maioria dos teens of style em Coura: “drugs are better with friends are better with drugs are better with friends…”. Em jeito de concordância, os festivaleiros funcionam como eco à profecia de Toledo, acrescentando à música ainda mais tons irónicos e genuínos.

Dentro de toda a bagunça, barafunda e auto-flagelação emocional, surge o hino (mais um) tão esperado. Este não é uma canção self-centered não, é muito maior que isso: é uma declaração humanista que relaciona a ação individual com a perpetuação de um molde cultural e social, que só será re-direcionado se cada um de nós, como Toledo refere, “Turn off the engine/ Get out of the car/ And start to walk”. Utilizando a condução como metáfora para o livre arbítrio e escolha pessoal, Will vai-se martirizando pelas suas atitudes, em concomitância com uma tentativa de esquiva, de se desculpar pelas suas ações. Toledo talvez se sinta (ou tenha sentido, em tempos) como uma baleia em cativeiro, que vem negando e reprimindo certos sentimentos – sendo ele próprio um teen of denial –, que vêm finalmente culminar numa decisão irreversível, como num acidente de carro, devido à embriaguez  – tragédia esta que pode ser comparada com a história de Tilkium, a “baleia assassina”.

Num crescendo monumental e ansioso, Toledo deixa de ser o miúdo tímido que em tempos gravara a sua voz dentro dum carro para ninguém o ouvir e ascende à condição de porta-voz de uma geração (ou parte dela). Ouvimos o bramido corajoso e harmonioso de Will, capaz de rebentar com as suas skinny skinny jeans e com as do resto da banda.

It doesn’t have to be like this, it doesn’t have to be like this, killer whales, killer whales.

Car Seat Headrest @ Vodafone Paredes de Coura 2017