Para o bem ou para o mal, o fenómeno da globalização tem conduzido à mescla de uma série de padrões culturais distintos que se têm vindo a encontrar e a fundir de forma particularmente evidente. E quem o sabe melhor é o nosso amigo nómada e aventureiro Kevin Morby que tantas vezes tomou o mundo com os Woods com as suas eternas e intemporais melodias folk e psicadélicas. De guitarra na mão e cowboy boots nos pés, Morby arranca numa nova viagem, que desta vez leva o nome de City Music. A quarta colecção de canções assinadas por Morby a solo, que leva o selo Dead Oceans, é um álbum de conversas entre cidades, experiências, referências e influências. Para uma alma europeia, poderá ser de difícil compreensão a imensidão de um território como os Estados Unidos, mas Morby facilita-nos a jornada ao desenhar paisagens ora belas e selvagens, ora buliçosas e citadinas com as suas composições

Estamos em meados dos 70, num quarto do Chelsea Hotel, o histórico edifício da cidade de Nova Iorque. Vemos Patti, Reed, Cohen, Dylan e Hazlewood à conversa num cenário a preto e branco, claro. Uns sentados em cadeiras, outros no chão, outros deitados na cama em posições pouco ortodoxas, e falam durante milénios sobre o mais ínfimo detalhe da condição e da existência humana, e falam também sobre tudo e sobre nada em particular. Com o fumo a traçar as figuras mais grotescas e bizarras, o grupo vai dedilhando uma ode a uma qualquer divindade, enquanto esgotam as tabacarias e garrafeiras de Nova Iorque. Com uma janela do tamanho do mundo, entra toda a luz e inspiração necessária para City Music nascer. Este é um comboio que tem o seu destino na solitude, mas que passa pelos escombros da saudade e da nostalgia pré-urbana, aconchegada por uma lareira de 6 cordas.

Para além de todas estas conversas esta é, acima de tudo, uma declaração de Morby aos seus abrigos e às cidades que o acolheram. Uma brisa primordial acompanhada por uma batida silvestre leva-nos ao fundo do oceano, em que acontecem todas as histórias e peripécias inter-espécies de um episódio de National Geographic. “Come To Me Now” é um mergulho espetacularmente majestoso em slow motion, do mais alto ponto da terra ao mais mágico barco de piratas afundado algures no pacífico há mais de meio milénio. É verdade que são celebradas as 50 primaveras do sagrado Sgt. Peppers dos The Bealtes, no entanto Morby prefere invocar os 40 anos de Rocket To Russia dos Ramones, e com “1234” – como clara e óbvia referência à banda norte-americana – o nosso cowboy faz transpirar a sua guitarra, assim como a sua bateria punky-pop. “Joey, Johnny, Dee Dee, Tommy, they were all my friends, and they died.”

Kevin Morby City Music

Numa jogada singela, mas monumental, num jeito muito Joanna Newsom narrando Inherent Vice, o filme noir de 2014 realizado por Paul Thomas Anderson -, Kevin Morby dá também uma voz duplamente feminina ao seu álbum. Parafraseando Flannery O’Connor em A Proper Scaring, ouvimos uma bela e terapêutica voz dialogando consigo mesma e refletindo sobre a passagem e existência moderna, marcada pelas luzes citadinas omnipresentes. Não é por acaso que esta passagem literária e a faixa “City Music”, homónima do álbum, estão dispostas lado a lado. E não é por acaso que estas duas faixas são as faixas centrais do álbum.

Conseguimos claramente retirar o objetivo conceptual e artístico deste disco: um louvor quase religioso à cidade, aos pesos milenares que portam e que se libertam no seu contacto com as populações. Contacto esse que é em si mesmo uma relacção ying e yang, pelos seus efeitos positivos e negativos no ser humano. É precisamente isso que Morby retrata quando utiliza “City Music” para partir o álbum ao meio, sendo que esta é uma faixa que comporta um soft side inicial de semblante bastante tropical que se vai metamorfoseando em algo muito mais bárbaro e contagiante. “Oh that city music, oh that city sound, oh you make my heart beat and oh, it’s comin’round!”

Se “Tin Can” parece ter sido composta em 10 minutos enquanto o sol nascia lá para os lados do Texas e onde os animais se iam juntando a Morby – cada um com um instrumento diferente -, “Night Time” é precisamente o oposto. Esta é uma canção que parece ter sido construída a partir de uma longa caminhada noturna, calorosa e sem rumo, em alternativa enquanto se admira, a partir de uma janela bem grande, um sem-abrigo nova-iorquino em plena noite de Verão. Este vagabundo, destinado à sobrevivência precária, segue o caminho traçado pelo seu fiel cão, companheiro milenar, sem duvidar por um segundo que esse é o caminho glorioso para a sobriedade.

Kevin Morby calçou as suas pantufas e deu a volta ao mundo em menos de uma hora, andando em pezinhos de lã pela floresta e pela urbe; mas, acima de tudo, Morby calcorreou a nostalgia, saudade e solidão. A serenidade e pureza na sua voz em “Downtown’s Lights” prova que esta não é uma solitude fria nem fúnebre; nada disso: é uma caminhada individual acompanhada por todas as materialidades aconchegantes que influenciam os moldes culturais, cognitivos e sensoriais que experienciamos. Por outras palavras, o mundo em si mesmo.