Cheira ao lado selvagem de América, cintila como a brilhantina dos gangsters e o lustro dos sapatos da Cosa Nostra siciliana de Chicago, dança-se na borda dos lancis dos passeios e no limite da vida, sabe a rock n’roll perigoso por entre névoas de tabaco soprado em clubes nocturnos exóticos, testemunhas silenciosas de umas poucas (bastantes) transgressões à lei, veste-se com um “bona fide leopard hide jacket” num policial sombrio em que não faltam o detective, a femme fatale, o bode expiatório e muita corrupção por entre caves subterrâneas regadas a álcool clandestino.

“Watch Me Take It Away” de Cameron Avery contém todos os elementos clássicos de um film noir em versão sonora no trágico trajecto de um casaco de leopardo amarelo e preto por ruas decoradas a arranha-céus e frenéticas viagens de comboio num cenário roboticamente futurista. Com os Tame Impala na pacatez (ou não) de umas merecidas férias – depois de Kevin Parker e os seus perthianos terem amealhado milhas incontáveis debaixo das explosivas constelações multicores que fizeram deflagrar um pouco por todo o globo -, o baixista da banda australiana lança um vídeo enigmático para um dos temas parte de Ripe Dreams, Pipe Dreams, o álbum de estreia que editou pela ANTI- a 10 de março.

Embora as mudanças de andamento típicas nas canções dos Tame Impala e um toque ligeiramente psych na segunda metade da canção não enganem muito quanto à proveniência sonora de Avery, que aqui lhe acrescente umas orquestras, a esfera em que orbita demarca-se daquela das formações de que fez parte – Cameron Avery foi também membro dos POND -, e aproxima-se da ambiência sedutora dos crooners rebeldes das décadas centrais do século XX, em especial de Elvis e da persona de Alex Turner nos seus Arctic Monkeys e The Last Shadow Puppets.